sábado, 16 de outubro de 2021

Dinheiro, governos e mercados - quais mudanças estão acontecendo?

Qual é o futuro do dinheiro? Mais uma boa matéria sobre o futuro do dinheiro, publicado no jornal Valor. 16/10/2021- Qual é o futuro do dinheiro? https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/10/16/qual-e-o-futuro-do-dinheiro.ghtml 1/9 Qual é o futuro do dinheiro? Criptomoedas estão mudando o sistema financeiro, mas o Estado sempre continuará no controle, escreve o economista indiano Eswar Prasad em livro Por Gavin Jackson, Financial Times 16/10/2021 O dólar continuará se sobressaindo, diz Prasad, graças ao enorme volume de ativos seguros disponível No século XIII, Kublai Khan, neto de Genghis Khan, criou a primeira moeda fiduciária, o dinheiro cujo valor deriva de um Estado declarando que aquele é seu valor. Não foi o primeiro dinheiro de papel — mercadores chineses vinham usando certificados de depósito desde o século VII. Foi, no entanto, o primeiro que não era garantido pelo ouro ou por nenhum outro tipo de commodity, mas apenas pelo poder do Estado. Na verdade, qualquer um que não o aceitasse era condenado à morte. Foi o nascimento do dinheiro da forma como a maioria de nós o conhece hoje. Agora, segundo Eswar Prasad, estamos em meio a uma nova revolução, desta vez lançada por inovações do setor privado. A centelha veio do bitcoin em 2009, a primeira moeda digital que dispensava a necessidade de uma terceira parte confiável — seja um governo, um banco comercial ou uma processadora de pagamentos, como a Visa. De acordo com Prasad, o ideal libertário de seus criadores (um sistema financeiro livre do poder do Estado) está LEIA MAIS: Boom de criptoativos gera novos desafios para estabilidade financeira, diz FMI · Autoridades precisam ser claras como reguladores e não barrar a inovação de criptoativos, diz BC da França · Bitcoin supera US$ 57 mil e mira novas máximas · destinado a ser frustrado, mas o sistema descentralizado de registro que sustenta as criptomoedas nos proporcionará, de fato, meios de pagamento mais eficientes e baratos. Em “The Future of Money” (O futuro do dinheiro, em inglês), Prasad vislumbra uma era de separação monetária entre o Estado e o setor privado. Embora o dinheiro moderno, em sua maioria, consista de depósitos bancários, os bancos comerciais dependem dos bancos centrais para proporcionar as reservas que lhes servem de garantia e para administrar o sistema de pagamentos interbancários. Tecnologia do bitcoin facilita pagamentos mais baratos, mas a moeda é demasiado volátil .Novas tecnologias romperão essa parceria. Embora o dinheiro do Estado ainda servirá para proporcionar uma reserva de valor, as moedas privadas serão usadas com frequência para fazer pagamentos. Vejamos a criptomoeda do Facebook, agora conhecida como diem. É algo que poderia transformar o antiquado e dispendioso mundo dos pagamentos internacionais. Atualmente, os pagamentos entre países pulam de banco em banco, e a cada salto eles adicionam taxas e comissões e repetem o custoso trabalho de fazer verificações contra a lavagem de dinheiro. Em vez disso, as transferências poderiam ocorrer em diem, por meio de sua compra e posterior envio. Isso, por exemplo, pouparia muitos migrantes pobres de ter que deixar no setor financeiro uma boa parte das remessas que querem enviar para casa. O diem é pensado para ser uma “stablecoin” — uma moeda digital estável, de emissão privada, respaldada por uma moeda fiduciária de reserva, como o dólar. Esse tipo de criptomoeda é o único que realmente funciona como dinheiro, argumenta Prasad. A tecnologia por trás do bitcoin facilita pagamentos mais baratos, mas a moeda é demasiado volátil para fazer pagamentos — chega às alturas em um dia e no seguinte desaba. Diferentemente do que se poderia imaginar, a elasticidade de uma moeda fiduciária dá mais estabilidade do que a escassez artificial do bitcoin. Isso faz da moeda fiduciária uma perspectiva muito mais atraente para as empresas, dada a garantia de que, quando os tempos pioram, o banco central pode intervir e imprimir mais dinheiro. Isso significa que os bancos centrais continuarão, nas palavras de Prasad, “centrais”. Sistemas descentralizados de pagamentos podem se tornar mais comuns, mas as moedas digitais estáveis erigidas sobre eles estarão ligadas a moedas fiduciárias, deixando intacto o papel dos bancos centrais no gerenciamento macroeconômico. A criação de moedas digitais próprias pelos bancos centrais também é apenas uma questão de “quando”, não de “se” — as Bahamas já lançaram sua moeda digital, o “dólar de areia”, enquanto grandes bancos centrais, como o Banco Central Europeu (BCE) ainda estudam opções. A combinação de criptomoedas de bancos centrais e de moedas digitais estáveis terá um efeito tanto de expansão quanto de diminuição do poder governamental incorporado à moeda desde era de Kublai Khan. Uma moeda digital estatal tem um potencial enorme como ferramenta de vigilância. Sob muitos aspectos, isso pode ser bom — Prasad lembra que, em sua Índia natal, a corrupção normalmente envolve entregar um envelope de dinheiro —, mas isso pode, sem medidas apropriadas de proteção, significar a perda de privacidade. Por sua vez, novas moedas internacionais limitarão a capacidade dos governos de regular, por meio de controles de capital, o fluxo do dinheiro entrando ou saindo do país, além de proporcionar uma alternativa para driblar sanções dos EUA. O dólar continuará se sobressaindo, argumenta Prasad, graças ao enorme volume de ativos seguros disponível (os títulos de dívida do governo dos EUA). As criptomoedas não têm como oferecer tal profundidade de reservas confiáveis de valor nem a mesma facilidade de negociação, vital em crises. Ainda assim, novos rivais farão com que a posição dominante do dólar se torne mais frágil. O livro é incrivelmente abrangente e um manual vital para quem quer entender como as finanças vêm se metamorfoseando. O estilo, no entanto, pode ser bastante seco, e a linguagem, frequentemente muito acadêmica. E, embora a visão do futuro do escritor seja, em muitos aspectos, plausível, será que essa era é realmente tão nova quanto ele sugere? As moedas digitais estáveis são muito semelhantes aos atuais depósitos bancários. Na realidade, os EUA estudam regulamentar as criptomoedas da mesma forma que bancos. Do ponto de vista do consumidor, o futuro poderá ter uma aparência muito semelhante, ainda que, nos bastidores, os sistemas de pagamento venham a funcionar de maneira diferente. A previsão de Prasad, de que o equilíbrio de poder monetário penderá para o setor privado, não dependerá da eficiência de livros contábeis descentralizados, mas da disposição do Estado de tolerar a novidade. As eras do “sistema bancário livre”, na Escócia e nos EUA, quando os bancos emitiam suas próprias notas de dinheiro, semelhantes às moedas digitais estáveis, chegaram ao fim em meados do século XIX, não por causa de uma tecnologia melhor, mas porque o Estado exerceu seu controle. De fato, desde que “The Future of Money” foi escrito, a oposição por parte dos órgãos reguladores se intensificou. A China, em particular, reprimiu o bitcoin, proibindo a venda no país por bolsas estrangeiras. Também aplicou uma lição de humildade ao Ant Group, firma de serviços financeiros administrada por Jack Ma. O governo a forçou a se desmembrar e a transferir os dados de seus usuários para um empreendimento conjunto parcialmente estatal. O diem, do Facebook, também tem sido ignorado pelos reguladores ocidentais. O bitcoin pode ter desencadeado uma revolução, mas, assim como tantas outras revoluções, agora pode ter percorrido a volta completa de um círculo. The Future of Money: How the Digital Revolution Is Transforming Currencies and Finance Eswar S. Prasad. Harvard University Press (importado), 479 págs., R$ 191, 65 (Kindle)

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