domingo, 12 de setembro de 2021

Brasil: Acendeu-se a luz vermelha contra Bolsonaro

Excelente an√°liseūüĎá O CONTRAGOLPE DA ELITE Eug√™nio Arag√£o Ex-ministro da justi√ßa ACENDEU-SE A LUZ VERMELHA "A casa grande soube fazer valer sua autoridade", diz o jurista Eug√™nio Arag√£o sobre a perda de capital pol√≠tico de Jair Bolsonaro perante o mercado, o Congresso e o STF. "Decepcionou sua base e, aparentemente, n√£o recebeu nada em troca. Seus supostos contraentes no STF n√£o foram obrigados a ceder em nada e, no Congresso, pouca ou nenhuma credibilidade lhe restava". O mercado acordou hoje euf√≥rico. A bolsa disparou e o d√≥lar recuou. C√©u de brigadeiro at√© perder de vista. O que h√° poucos dias parecia imposs√≠vel tornou-se real: conseguiram colocar o g√™nio bagunceiro - o Amok brasileiro - de volta na sua garrafa. E de forma humilhante. De certo, para n√≥s comuns dos mortais, s√≥ parte da hist√≥ria √© cognosc√≠vel. A outra, muito provavelmente menos republicana, ficar√° para a especula√ß√£o. O dia 7 de setembro era para ser uma data da virada. Apoiadores de todos os rinc√Ķes do Brasil encheram boa parte da Esplanada dos Minist√©rios em Bras√≠lia e a Avenida Paulista em S√£o Paulo para ouvirem seu l√≠der, o capit√£o-presidente Bolsonaro. Vendo tamanha turba em j√ļbilo, n√£o se conteve e distribuiu rasteiras para seus supostos inimigos, ministros do STF. Falou grosso. Disse que n√£o cumpriria mais decis√Ķes advindas do Ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “canalha”. A massa foi a √™xtase. E, para dar respaldo √†s amea√ßas do l√≠der, empres√°rios organizadores das manifesta√ß√Ķes bloquearam a Esplanada dos Minist√©rios em Bras√≠lia com seus caminh√Ķes e desafiaram a pol√≠cia a deixarem-nos passar √† Pra√ßa dos Tr√™s Poderes, onde pretendiam invadir o STF. O jogo de empurra entre a irada turba e as for√ßas de seguran√ßa causou calafrios aos democratas no Pa√≠s. Havia medo real de perda de controle e de sucumbir, a pol√≠tica, √† viol√™ncia em larga escala, com poss√≠vel interven√ß√£o das For√ßas Armadas na chamada “garantia da lei e da ordem”. Tudo parecia calculado. Bolsonaro, acreditava-se, estava for√ßando, mais uma vez, os limites do estado de direito para instalar uma ditadura no pa√≠s. E o movimento dos empres√°rios do agroneg√≥cio a promoverem um lock-out da log√≠stica de transporte Brasil afora encaixava-se nessa t√°tica. Pretendia-se paralisar o pa√≠s para submeter as institui√ß√Ķes √† m√°xima press√£o. Foi um jogo do tudo ou nada. Com essa intentona, Bolsonaro despejou √† lixeira toda a pol√≠tica econ√īmica de Paulo Guedes. O Congresso n√£o parecia mais disposto a apoiar um governo tresloucado. O judici√°rio que vinha negociando o parcelamento dos precat√≥rios com d√≠vidas da Uni√£o, abandonou o trato. A economia estava indo ladeira abaixo sem freios. O mercado reagia com extremo mau humor, ainda mais nervoso com os dados sobre a marcha da infla√ß√£o em dire√ß√£o aos dois d√≠gitos anuais. Acendeu-se a luz vermelha. Bolsonaro foi convencido a pedir a seus apoiadores que abandonassem o bloqueio de rodovias para permitir que suprimentos chegassem a seus destinos. O recuo causou mal estar e incredulidade. Muitos empres√°rios n√£o queriam ceder antes de atingir seu objetivo: for√ßar o STF a uma mudan√ßa de rumo no tratamento dos crimes praticados por gente do governo e da pol√≠tica ind√≠gena, com estabelecimento de um marco temporal para a ocupa√ß√£o territorial tradicional. Mas a press√£o da economia sobre o governo era imensa. Esperava-se que Bolsonaro determinasse, se necess√°rio, o uso da for√ßa, para controlar sua turba. Eis que, no meio do rebuli√ßo, surge o salvador: o mestre em golpes pol√≠ticos, Michel Temer. Um Bolsonaro desesperado com a perda de controle sobre a massa de seus apoiadores urgiu sua vinda a Bras√≠lia para negociar uma tr√©gua com o legislativo e o judici√°rio. E, no final da tarde do dia 9 de setembro, no meio da disputa de espa√ßo em rodovias e na Esplanada dos Minist√©rios, acontece o inusitado: Bolsonaro manda publicar no Di√°rio Oficial da Uni√£o uma “Mensagem √† Na√ß√£o” em que desdiz tudo que dissera do palanque perante as massas: n√£o queria confronto com os outros poderes que devem ser harm√īnicos entre si, as palavras de agress√£o teriam sido proferidas no “calor dos acontecimentos”, etc. etc. A turba que marchara para Bras√≠lia e S√£o Paulo ficou perdida. Afinal, n√£o haveria mais ruptura? Seu l√≠der fora cooptado “pelo sistema”? Ningu√©m parecia entender a abrupta mudan√ßa de rumos. Ali√°s, sequer os ministros agredidos queriam dar cr√©dito √†s palavras de desculpas de Bolsonaro. Mas passadas as horas, v√™-se com mais clareza o que aconteceu: Bolsonaro que foi √ļtil para derrotar a esquerda em 2018 estava se tornando um estorvo n√£o s√≥ na condu√ß√£o do pa√≠s, mas sobretudo na perspectiva das elei√ß√Ķes presidenciais de 2022. Quanto pior governasse, mais o campo da esquerda ia se robustecendo, n√£o deixando espa√ßo para um conservador liberal do mercado se tornar ungido nas urnas. Sabedores de que mais um mandato para Bolsonaro seria um desastre para o pa√≠s que consideram s√≥ seu, os representantes do capital tamb√©m n√£o estariam dispostos a embarcar na canoa da oposi√ß√£o progressista. Ao mesmo tempo, as chances de uma “terceira via” pareciam muito remotas. Precisava-se, pois, neutralizar Bolsonaro para enfrentar a esquerda. Com sua mensagem √† na√ß√£o, o presidente-capit√£o perdeu enorme capital pol√≠tico. Decepcionou sua base e, aparentemente, n√£o recebeu nada em troca. Seus supostos contraentes no STF n√£o foram obrigados a ceder em nada e, no Congresso, pouca ou nenhuma credibilidade lhe restava. Talvez seja cedo para dizer que Bolsonaro se tornou um defunto pol√≠tico, mas que saiu muito desgastado desse epis√≥dio, disso n√£o h√° d√ļvida. O que teria feito Bolsonaro desistir do confronto? Aqui entra a especula√ß√£o, mas √© fato noticiado que havia movimenta√ß√£o fren√©tica de atores pol√≠ticos em Bras√≠lia. Os presidentes do Senado e da C√Ęmara dos Deputados se reuniram com o decano do STF. Buscavam desesperadamente uma sa√≠da para a crise inaugurada com as agress√Ķes presidenciais ao STF. E foi a√≠ que entrou Michel Temer. O ex-presidente da Rep√ļblica que golpeara Dilma Rousseff passou o dia em Bras√≠lia, para c√° e para l√°. Queria apascentar. Afinal, √© ele o padrinho de Alexandre de Moraes, o principal alvo dos desaforos indecorosos de Bolsonaro. Foi Temer quem nomeou o ministro para o STF. E conseguiu o improv√°vel: fez Bolsonaro ligar para o magistrado, como se fosse para pedir desculpas. O c√£o doido voltava para a coleira. O mercado, a elite, a casa grande, a Avenida Faria Lima - seja como se queira denominar esse ser et√©reo que mant√©m as r√©deas do pa√≠s desde tempos imemoriais - suspirava aliviada: tinha vencido a f√ļria do g√™nio imprevis√≠vel. Em troca de que? Essa √© a pergunta que n√£o quer calar. De certo, Bolsonaro sabia que tinha se metido numa enrascada. O que fizera do palanque era, como dizem os alem√£es, “starker Tobak” - tabaco forte. N√£o passaria inc√≥lume pela ira de seus poderosos advers√°rios. Enquanto aumentavam as press√Ķes por iminente abertura de processo de impeachment, circulavam not√≠cias de rea√ß√Ķes no √Ęmbito do TSE que pudessem tornar o presidente-capit√£o ineleg√≠vel em 2022. Mas, o pior de tudo, o cerco aos fan√°ticos conselheiros de Bolsonaro ia se fechando, falando-se em poss√≠vel pris√£o dos filhos presidenciais. Dizem que Bolsonaro ficou sem dormir por duas noites at√© jogar a toalha. A d√ļvida que remanesce √© se o presidente-capit√£o obteve alguma garantia de que, deixando de acirrar o ambiente pol√≠tico, poderia contar com a leni√™ncia da justi√ßa para consigo e seus filhos. Essa seria a parte pouco republicana do acordo “com Supremo e com tudo” com que Michel Temer se notabilizou. Se houve ou n√£o, s√≥ pode ser objeto de conjectura. Os pr√≥ximos dias dir√£o. H√° que se ver se a CPI da COVID abrandar√° seu tom no relat√≥rio final; se o ministro Alexandre de Moraes refluir√° em suas dilig√™ncias contra os organizadores da turba antidemocr√°tica; se o STF poupar√° Augusto Aras dos pedidos de investiga√ß√£o por prevarica√ß√£o a si atribu√≠da. Mas √© compreens√≠vel a incredulidade sobre uma gratuita desist√™ncia de Bolsonaro √† via do confronto. √Č compreens√≠vel tamb√©m que n√£o se queira dar f√© √† sustentabilidade do acordo - ou contragolpe - engendrado por Michel Temer. Por ora, o que se tem apenas √© um Bolsonaro humilhado com um ex√©rcito de apoiadores perdidos feito baratas tontas. E o estamento militar? Um curioso sil√™ncio tomou conta dos eloquentes fardados de outros momentos. Sabem muito bem que a briga agora √© de cachorro grande. N√£o est√£o mais antagonizando com a turma da esquerda civilizada. A casa grande soube fazer valer sua autoridade. Afinal, n√£o se d√° conta, neste pa√≠s, de qualquer epis√≥dio de rebeldia de capit√£es do mato contra os senhores. Os militares sabem muito bem que a alternativa ao acordo - ou contragolpe - √© a vit√≥ria das for√ßas progressistas em 2022. Se querem evit√°-la - e o querem muito mais at√© do que uma vit√≥ria de Bolsonaro - precisam deixar agora os profissionais trabalhar. E isso passa pela neutraliza√ß√£o do capit√£o-presidente, para que a improv√°vel “terceira via” se torne primeira e, qui√ß√°, consiga derrotar, num confronto direto, o bicho de sete cabe√ßas, o ex-presidente Lula. A seguran√ßa de que a esquerda n√£o volta ao poder, para o estamento militar, vale at√© a perda de umas boquinhas. E ningu√©m sabe se, no trato, um jab√° n√£o tenha sido inclu√≠do. Mas uma coisa √© certa: com o humilhante acordo - o contragolpe da elite - o panorama pol√≠tico mudou e a casa grande volta a ser um player respeit√°vel no jogo eleitoral de 2022, concentrando seu poder de fogo contra os advers√°rios de sempre: os trabalhadores e oprimidos do Brasil. N√£o haver√° frente √ļnica contra Bolsonaro. Haver√° frente √ļnica contra a esquerda. https://www.brasil247.com/blog/o-contragolpe-da-elite

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