sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Papai 97 - Um pedaço interessante da História do Brasil

Papai 97 – Um pedaço da História do Brasil de 1924 a 2021 Um pedaço da História do Brasil de 1924 a 2021. Antes, não era fácil, mas era possível. Atualmente, é bem mais fácil, No entanto, está ficando impossível. As pessoas, as famílias... o Brasil. Para onde estamos indo? Onde queremos chegar? Conhecemos pouco nossa história. Podemos fazer muito por ela. Papai 97 Aproveitei o textão abaixo onde Gildemar (Dema), conta um pouco do nosso olhar, enquanto crianças e adolescentes, sobre o que ouvimos e vimos das histórias e estórias do nosso pai e, por tabela, da evolução do Brasil. Dema – o nome dele é Gildemar... Mais um textão, pra passar tempo durante a pandemia: Hoje é o aniversário de papai! PAPAI FAZ 97 ANOS HOJE! Papai nasceu em Nossa Senhora das Dores, em Sergipe. Com 12 anos a mãe dele, Vitória, faleceu. Dizem que Vitória tinha todos os traços de índia, que herdou da mãe, pega no mato com cachorro. A família então se mudou para Miguel Calmon, terra de mamãe. Papai foi trabalhar como ajudante, construindo selas na oficina do pai de mamãe. Mamãe ficou toda assanhada com a presença do que ela chamava de viuvinho bonito, por causa da roupa preta do luto. O pai de mamãe não queria o casamento, porque papai era pobre, mas casaram mesmo assim. Mamãe dizia que os pais dela nem foram pra cerimônia. Os cavalos foram caindo de moda, e fazer selas não dava mais sustento. Então papai fez concurso e foi aprovado pra trabalhar no Departamento Nacional de Endemias Rurais, o DNRu, em Inhambupe, onde eu nasci. Trabalhava o dia inteiro indo pras roças jogar remédio nas casas sem reboco, pra matar o barbeiro, transmissor da doença de Chagas. Foi aí que ele contraiu a doença. Mas tá vivo até hoje. Só ia comer quando chegava em casa de noite, a gente já tudo dormindo. Inhambupe era muito pequena, e ele mexeu os pauzinhos e conseguiu ser transferido para Serrinha, onde vive desde 1958. Chegou na estação com a mulher e os sete filhos pequenos, mas o amigo que tinha ficado de alugar uma casa pra ele não cumpriu o prometido. Em Serrinha ele conseguiu mudar a ocupação para vigia noturno. Dormia uma noite no trabalho, lá perto da Estação, e outra noite em casa. Era bem mais tranquilo. Aproveitou o tempo livre e a habilidade com couro para fazer sapatos e melhorar a renda para sustentar todos os nove. Todo mundo gostava dos sapatos que ele fazia. O pessoal rico da praça ia lá, levando foto de sapatos pra ele fazer igual, e como ele sempre foi muito bom de papo, ficavam horas conversando. Construiu a casa própria pela Caixa, pagando em vinte anos. O pedreiro que ele contratou não sabia trabalhar direito, e ele despachou o cara e resolveu fazer ele mesmo, junto com outros. Acho que era o mais inteligente da família, mas parou de estudar no segundo ano primário, por questões financeiras. Daí que sei na pele a importância do ensino gratuito de qualidade. Ele lia os jornais todos os dias, escutava as notícias no rádio, no Repórter Esso. Quando o rádio quebrava, ele desmontava e consertava. Até hoje lembro das válvulas usadas como diodo, e do dial do rádio desmontado! Era fascinante. Sempre foi ele quem aplicou injeção na gente. E em quem precisasse. Quando o dedo de seu Basílio inflamou, mordido pela onça do circo, foi ele quem foi lá prescrever remédio! A fiação elétrica da casa, foi toda botada por ele! Falava pra gente estudar, senão não seríamos nada na vida, e graças a esse forte estímulo por parte dos dois, todos os sete filhos terminaram a faculdade. Lembro que uma vez eu, já ensinando na universidade, estava gastando mais do que ganhava e precisei cortar os iogurtes. Ele ficou decepcionado, me perguntando se gente com doutorado ganhava tão mal assim... Quando eu era pequeno, ele me viu estudando e me aconselhou a repetir em voz alta várias vezes até decorar: Honduras – Tegucigalpa, Libéria – Monróvia... Foi passear em São Paulo, quando a gente morava lá, e foi fazer compras na 25 de março. A soma dele não batia com a soma da menina da loja. “Olhe, bem, aqui a gente faz tudo no automático! Digita aqui na máquina de calcular e já sai o resultado”. Certamente ela notou o sotaque sergipano dele. “Mas pra mim é tudo no lápis e papel”, ele respondeu, e provou que ela estava errada! Mamãe não gostava quando dizíamos que ele era sapateiro e guarda-noturno. Ela reclamava que ele era funcionário público federal, com muito orgulho. Embora nossa família não tenha importância política em Serrinha, papai e mamãe sempre foram muito queridos por todos. Honestos, incrivelmente interessantes e simpáticos! Quando eu já morava em Salvador, ele teve um infarto, e a partir daí a saúde foi se deteriorando. Muito depois teve isquemia cerebral, e com isso a comunicação foi ficando complicada. Em 2018 mamãe e Gildenor, o único filho que morava em Serrinha, se foram, e ele ficou em companhia das cuidadoras. Os irmãos biológicos também partiram antes, mas ele permanece lá, a três anos de virar centenário. Meus parabéns, papai. Nós todos temos muito a lhe agradecer. Quem quiser ver fotos, pode olhar no facebook. Complemento da minha introdu'ção: A nossa mãe é de 1923. O ano que foi constituído o Sindicato dos Bancários de São Paulo. Assim, eu sempre sei quantos anos ambos têm. Já papai, minha referência é o fato de ele ser apenas 30 anos mais velho do que eu. Quando ele fez 40 anos, eu pensei: Papai já está ficando velho... Agora, o fato de ele estar vivo aos 97 anos, me estimula a acreditar que tenho mais uns 30 anos pela frente para conseguir ajudar o Brasil a voltar a ter autoestima e para voltar a ter dignidade. Em todos os sentidos, nós temos feito nossa parte...

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