segunda-feira, 12 de julho de 2021

Precisamos falar da fome de comida e da fome de amor

Fome no Brasil da fartura O Brasil é o maior produtor de carne do mundo, no entanto, temos milhões de pessoas passando fome. Muita fome… “O acesso à alimentação é um direito humano básico, fundamental. Está previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e é assegurado pela Constituição. Sem uma nutrição adequada, uma criança não terá condições de se desenvolver e não aprenderá o mínimo necessário para ser tornar um adulto saudável, produtivo e capaz de ter uma vida feliz. Não adianta falarmos em melhorar a educação ou a produtividade sem resolvermos o problema da desigualdade, da pobreza e da fome em nosso país. Precisamos pensar em soluções sistêmicas e simultâneas, pois uma coisa é consequência da outra. “ As Diniz, Setúbal e tantas outras mulheres, ricas, ativas e solidárias, estão fazendo um belo trabalho solidário. Temos também milhões de outras mulheres que ajudam os carentes, cada uma com suas possibilidades. Da mesma forma, temos os milhões de jovens atuando e querendo construir o Brasil de todos, com todos e para todos … Quando eu era secretário-geral da CUT, nós trouxemos Betinho para falar sobre a “Campanha contra a fome”, liderada por ele. Os sindicatos de todo Brasil participaram. Os funcionários dos bancos, públicos e privados, participaram. Os banespianos criaram o Comitê Betinho contra a fome, que teve e continua tendo grande atuação. Com Milu Vilela, organizamos um belo trabalho de Voluntariado no Brasil. Somos milhões de voluntários, mas ainda estamos dispersos. Juntos, seremos muito mais solidários e eficases. Precisamos falar de Políticas Públicas, de prioridades nacionais, aprender a trabalhar juntos, respeitando as diferenças e as histórias de vida das pessoas e instituições. Vejam o belo artigo de Ana Maria Diniz, publicado no jornal Valor. Eu assino em baixo, dando meu apoio a esta inciativa. Precisamos falar sobre a fome de comida, a fome da educação e a fome por um Brasil justo, solidário, transparente e soberano. Afinal, democracia só se aprende praticando. Precisamos falar sobre a fome Por Ana Maria Diniz, criadora do Instituto Península, que atua na formação de professores, e uma das fundadoras do Todos Pela Educação. Trabalhou por 17 anos no Grupo Pão de Açúcar. Jornal Valor – 09/07/2021 “Precisamos falar sobre a fome A insegurança alimentar no país hoje só não é pior porque emergiu da sociedade civil uma poderosa onda de solidariedade Muitos sabem que a educação é a causa da minha vida, pois acredito que só uma educação de qualidade e para todos vai mudar esse país para valer. Sabem também o quanto tenho me empenhado, nos últimos vinte anos, para melhorar o ensino no Brasil. Certamente, falarei muito sobre educação nesta coluna que começo a escrever aqui no Valor, quinzenalmente, a partir de hoje, e pela qual sou muito feliz. Neste primeiro texto, porém, resolvi abordar um outro tema, urgente, no qual tenho trabalhado muito junto com a minha família nesta pandemia: a fome. A fome é um daqueles assuntos desconfortáveis, que beiram o tabu e para o qual muitas vezes fechamos os olhos a fim de não ver e não experimentar a enorme tristeza de quem não tem o que comer. Mas não podemos fugir: precisamos falar sobre isso. Não há nada mais degradante ou que promova dor física e moral tão intensa do que passar fome – não por um dia ou dois, mas por vários e, muitas vezes, sem enxergar um fim. Só quem viveu a realidade de acordar e dormir de barriga vazia ou de não ter como alimentar o seu filho sabe o que é esse sofrimento. Nos últimos 15 meses, eu tive a chance de estar cara a cara com mulheres e homens do Brasil que têm a fome na sua rotina, seja nas favelas de São Paulo ou no sertão nordestino. São pessoas como a Marinalva, da Favela do Rodoanel, ou a Rita, do Mangue do Perequê, no Guarujá, que vivem sem a mínima perspectiva de sair da pobreza e sem saber como será o dia de amanhã. Apesar disso, eu vi sorrisos, vi esperança e enxerguei vontade de se agarrar a qualquer oportunidade que possa surgir para mudar seus destinos. Vi crianças de estômago vazio, mas felizes, pulando de cá para lá, num exercício inconsciente de driblar a vida. Há uma multidão vivendo nessas condições em todo o país. Só não os vê quem não quer enxergar. No final de 2020, 117 milhões de brasileiros – mais do que um em cada dois habitantes desse país – sofriam algum grau de insegurança alimentar. Desses, 19,1 milhões não tinham nada para comer – em 2018, havia 10,8 milhões nessa situação. O fantasma da fome acordou e não dá sinais de que vai voltar a dormir tão cedo. A calamidade aumenta mês a mês. Neste ritmo, ainda este ano o Brasil voltará ao vergonhoso Mapa da Fome, que inclui nações com 5% ou mais da população subalimentada, do qual saiu em 2014. Muito desse flagelo tem a ver com a covid-19, mas ela não é a única culpada. O aumento do desemprego e a alta da inflação decorrentes da pandemia fez desabar a tempestade perfeita que estava formada desde o último ciclo recessivo, arrastando para o fundo do poço os mais vulneráveis. Em um ano, o total de pessoas na extrema pobreza triplicou. Hoje, elas somam 27 milhões de brasileiros. De cada dez lares, três não têm renda atualmente, segundo o Ipea. A desigualdade abominável que virou a cara do Brasil está na raiz do problema. E, o pior, não há remédio para extirpá-la no curto prazo, pois esse é um problema estrutural, resultante de políticas públicas erradas, que principalmente não priorizaram a educação de qualidade e deram ênfase a programas assistencialistas em vez de criar um ambiente propício para o Brasil crescer. Com a fome batendo à porta, a sociedade civil precisava entrar em campo de forma preponderante e agir. Foi o que aconteceu. Quando a crise se instalou, pessoas, empresas e organizações decidiram olhar para além de suas bolhas e começaram a encarar o problema da desigualdade do Brasil de frente, somando forças para tentar frear a escalada da insegurança alimentar. A situação hoje só não é pior porque emergiu da sociedade civil essa poderosa onda de solidariedade. Desde março do ano passado, foram arrecadados cerca de R$7 bilhões em doações, o dobro do total comprometido normalmente com filantropia no Brasil em situações de crise. Logo que a luz vermelha da fome acendeu, criamos o União SP, que reuniu diferentes grupos a fim de viabilizar a captação de recursos e a entrega de alimentos no Estado. A iniciativa já levou 770 mil cestas básicas para 3,5 milhões de pessoas. Incentivamos também a união de instituições como a Cufa, Gerando Falcões e a Frente Nacional Antirracista a se juntarem para criar uma onda ainda maior, o Movimento Panela Cheia, no qual se engajaram diversos artistas e que já reverteu em mais de R$150 milhões em itens de primeira necessidade para os mais vulneráveis. Muitos outros esforços conjuntos alcançaram resultados incríveis, como o Mães da Favela, que atendeu 1,4 milhões de famílias em 5 mil favelas em 2020 e está na sua segunda edição. O acesso à alimentação é um direito humano básico, fundamental. Está previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e é assegurado pela Constituição. Sem uma nutrição adequada, uma criança não terá condições de se desenvolver e não aprenderá o mínimo necessário para ser tornar um adulto saudável, produtivo e capaz de ter uma vida feliz. Não adianta falarmos em melhorar a educação ou a produtividade sem resolvermos o problema da desigualdade, da pobreza e da fome em nosso país. Precisamos pensar em soluções sistêmicas e simultâneas, pois uma coisa é consequência da outra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário