sexta-feira, 4 de junho de 2021

Eleição no Peru é uma aula de pressão

Eleições no Peru – um exemplo como a imprensa interfere Talvez a jornalista que escreveu o artigo nem perceba, mas é evidente que há uma preferência pela candidata do “Mercado”. Há uma nítida tentative de dialogar com a classe média peruana e, como segundo as pesquisas estão empatados, a classe media é mais fácil de votar na camndidata do Mercado, isto é, da direita, dos conservadores… Leiam o artigo do jornal Valor: Eleição no Peru pode manter ciclo de instabilidade política Esquerdista Pedro Castillo e conservadora Keiko Fujimori disputam a Presidência no domingo. Quem quer que vença deverá ter dificuldade para governar Por Marsílea Gombata — De São Paulo 04/06/2021 Os peruanos vão às urnas no domingo escolher o próximo presidente do país em meio a grande incerteza. O esquerdista Pedro Castillo e a conservadora Keiko Fujimori aparecem empatados nas pesquisas de intenção de voto. Castillo propõe uma revisão do modelo econômico peruano e uma nova Constituição, o que vem assustando mercado e investidores. Já Fujimori tem alta rejeição por causa de seu pai e corre o risco de governar sob intensa agitação social. As últimas pesquisas mostram Castillo, do partido Peru Livre, com 51,1% das intenções de voto, e Fujimori, do Força Popular, com 48,9%. Como a margem de erro é de 2,5 pontos, eles estão empatados. Dentre as propostas de Castillo estão uma Assembleia Constituinte para escrever uma nova Constituição, taxar mais as empresas de mineração, criar um imposto sobre a riqueza e ampliar o papel do Estado como regulador e empreendedor, colocando em xeque o modelo econômico liberal atual. “Ele fala em rever os contratos de mineração, mais subsídios a serviços públicos e limitar importações. Do ponto de vista econômico, contudo, o maior risco é mudar a Constituição”, diz Débora Reyna, da consultoria Oxford Economics. “A Constituição de 1993 do Peru é bastante pró-investimento e tem o Estado como promotor das atividades, mas não como um regulador que intervém ativamente. Se a Carta mudar, poderíamos ver mudanças nas regras do jogo.” Já Fujimori indica continuidade do modelo econômico atual, reformas tributária e da Previdência, e medidas genéricas como geração de empregos formais, redução da pobreza, e consolidação fiscal, enxugando o gasto público. “Mas ela também está pendendo ao populismo. Nas últimas semanas lançou propostas como aumentar o salário mínimo, destinar parte dos royalties de mineração para as famílias e reduzir os impostos para empresas”, lembra Reyna. “São promessas pouco factíveis, especialmente depois de o Peru ter gastado o equivalente a 20% do PIB com medidas para mitigar os efeitos da pandemia.” Pesquisas mostram que a rejeição contra Castillo subiu de 36% para 41% desde o fim de abril. A de Fujimori caiu de 50% para 45%. A candidata do Força Popular foi presa em 2018, quando era congressista, por supostamente ter recebido propina da Odebrecht. Além disso, sua imagem é fortemente associada ao governo de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), que cumpre pena de 25 anos por corrupção e envolvimento em assassinato. Na semana passada, a candidata teve de abandonar um evento de campanha em Cusco depois de opositores enfrentarem apoiadores, atirando pedras e garrafas de plástico. Na terça-feira, opositores saíram às ruas em Lima para protestar contra a sua candidatura, com cartazes que diziam #FujimoriNuncaMais. “Ela tem forte rejeição, e um governo seu pode gerar fricção com o Congresso e possivelmente alguma agitação social”, diz Alberto Ramos, do banco Goldman Sachs. Ele argumenta, contudo, que o mercado reagiria bem a uma vitória de Fujimori, e mal à de Castillo. Isso porque o candidato de esquerda tem “uma visão estatizante e intervencionista, com plataformas não amigáveis ao mercado”, diz. A chegada ao segundo turno de Castillo, um professor e sindicalista até então pouco conhecido, “foi um voto de protesto”, diz Fernando Rospigliosi, diretor da FRC Consultores, em Lima. “No último ano, milhares perderam o emprego por causa da pandemia, a pobreza aumentou e a classe média encolheu”, afirma. A plataforma de Castillo se aproxima das de Evo Morales na Bolívia (2006-2019) e de Rafael Correa no Equador (2007-2017), segundo economistas. Mas, ao longo da campanha, opositores o associaram aos governos de Cuba e Venezuela, o que levou temor nos mercado e ao meio empresarial. Seja qual for o vencedor no domingo, terá um governo difícil, em parte pela falta de maioria no Congresso, que está altamente fragmentado. O partido Peru Livre, de Castillo, terá a maior bancada, com 37 dos 120 assentos. O Força Popular, de Fujimori, vem em seguida com 24 cadeiras. “Por isso acredito que será difícil para Castillo cumprir tudo o que prometeu, se vencer. Ele não teria maioria, terá de ser muito pragmático e fazer acordos para que não o tirem do poder. Será um governo de mãos atadas”, diz Claudia Navas, da consultoria Control Risks. Dos últimos quatro presidentes do Peru desde 2016, três tiveram de deixar o cargo após pressão do Congresso. “Fujimori, por sua vez, é mais experiente e hábil politicamente, o que pode lhe render uma relação mais fluida com o Congresso. Mas terá como principal desafio as ruas. Desde o primeiro dia deve enfrentar manifestações contra corrupção. E o Congresso estará atento a esse termômetro”, diz Navas. O próximo presidente do Peru terá como principais desafios conseguir estabilidade política, controlar a pandemia e acelerar a vacinação contra a covid-19, além de impulsionar a economia, que ainda busca recuperar o terreno perdido por causa da pandemia. O Peru foi um dos países mais atingidos pela pandemia no mundo. Lidera o ranking de mais mortes por 1 milhão de habitantes e está na 17ª posição na lista de países com mais casos - com quase 2 milhões de infectados. Até agora, apenas 8,3% da população tomou ao menos uma dose da vacina contra a covid-19. No ano passado, um longo lockdown fez a economia mergulhar em recessão e jogou quase um terço dos peruanos na pobreza, uma alta de dez pontos percentuais desde o início da pandemia. Em 2020, o PIB peruano contraiu-se 11,1%. Neste ano, a previsão é de expansão de 11,2%. “Pode soar como uma recuperação forte, mas é basicamente um efeito estatístico”, diz Reyna.

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