terça-feira, 15 de junho de 2021

Centro de São Paulo, abandonado, vazio e violentado

Centro de São Paulo abandonado e vazio Hoje eu fui no Centro de São Paulo. Estranhamente vazio, abandonado, parecendo que a peste passou por ali como passou pelas ruas do Egito na época de Moisés... Ao olhar para os prédios abandonados, crescia uma tristeza por não entender o porque o povo de São Paulo não preserva os monumentos, os símbolos e as lembranças de tantas vidas tão gloriosas e tão importantes... A Praça da Sé, com sua catedral monumental, vazia, alguns moradores de rua dormindo ou deitados nas calçadas e olhando para o nada. As pessoas passavam perto delas como se não houvesse ninguém deitado ali. Passei pelo largo do São Francisco e lá estava a imponente Faculdade de Direito do largo São Francisco. Vazio, com alguns guardas e alguns moradores de rua. Nem a Igreja de São Francisco chamava atenção. Lá já não tem mais o Restaurante Itamarati, tão simbólico quanto a própria faculdade de direito. Peguei a Rua Líbero Badaró, a mesma rua, onde em 2 de julho de 1970, feriado na Bahia, em homenagem às lutas e batalhas para expulsar os últimos portugueses monarquistas do Brasil, num dia 02 de julho, entreguei minha carteira de trabalho de menor para ser registrado num grande escritório de advocacia. Moura, Teixeira, Gouveia e Silva – Advogados. Três andares do prédio da Cia. Paulista de Seguros, em frente ao Edifício Conde Francisco Matarazzo, ao lado do Othon Palace e perto de agências bancários como City Bank, Banco Holandês Unido, Chase Manhattan Bank, London Bank e tantos outros... Aqui passava a grana dos Barões do Café, aqui passam as madames que iam tomar chá das cinco ao lado do Teatro Municipal, aqui passava o bonde sobre os trilhos e para o caminho do Mercado Municipal. Por este centro da cidade, você necessariamente passava pelo Páteo do Colégio, ia até o Mosteiro São Bento e dava um pulo na Igreja dos Escravos no Largo Paissandu. Se tivesse tempo, parava num cinema e escolhia o filme da vez. Com o tempo veio a Galeria Metrópoles e a Biblioteca Mario de Andrade, ao lado do Estadão e da Avenida São Luiz com suas lojas de empresas aéreas para Paris, Londres e New York... Porque abandonaram o Centro de São Paulo? Para onde foi sua riqueza, que não aparece nem na Avenida Paulista, nem na Faria Lima nem na Berrini? Para onde sua cultura, se o Teatro está fechado? As lojas estão fechadas, os bancos já desistiram do brasil e os patrocinadores já desistiram até da Seleção Brasileira de Futebol? Mas em 1970 o Brasil foi tricampeão mundial de futebol. E hoje? Em 1972 tinha Elis Regina cantando Falso Brilhante no centro de São Paulo! Mesmo em 1979, você ainda podia assistir à peça Pato com Laranja com Paulo Autran no papel principal. E encontra-lo andando pela Rua Boa Vista em plena tarde. Muitos vão dizer que o que esvaziou o Centro de São Paulo foi o vírus covit-19. Não é verdade. O Centro foi esvaziado muito antes do vírus e da pandemia... O Banespa acabou antes da pandemia do vírus... O Itaú deixou o centro da cidade antes do vírus... O Bradesco, que fez parte importante do centro, também migrou não sei para onde... O Votorantim, lorde edifício está vazio e a Votorantim com seu histórico Antonio Ermírio já não está no centro. Não se fala mais do Jockey Club, nem do restaurante espanhol nem do grego. Não posso deixar de falar dos viadutos do Chá e do Santa Ifigênia com seus ferros e seus desenhos trazidos da Inglaterra em 1895... Compramos os andares do Prédio Martinelli para ajudar a revigorar o Centro. O mesmo prédio Martinelli que fui na reinauguração quando Olavo Setúbal era prefeito. E a Avenida São João já não tem seu belvedere, nem sua belle epoc. E tivemos prefeitos de direita, como Maluf, prefeitos gente boa como Mario Covas, prefeitas de esquerda chic e de esquerda ideológica como Marta Suplicy e Erundina. Tivemos prefeitos professores de direito como Haddad e Claudio Lembro. Nem Jânio Quadros conseguiu impedir a destruição de São Paulo. O centro de Paris continua lindo. O centro de Londres continua sendo o centro do mundo. O centro de Barcelona continua uma beleza. O centro de Roma também continua bonito... Porque abandonar o Centro de São Paulo? Ao dialogar via zapp com uma amiga de muitos anos pelo centro, depois de andar pelas ruas do Centro, me vi emocionado escrevendo para ela: Não podemos perder a fé na vida. Como fazer para não perder a fé, já que a vida apaga-se com os amigos e parentes que morrem em função do vírus. Pior do que o vírus invisível é o vírus da incompetência em se ver na história do Centro de São Paulo, a incapacidade de perceber que já não temos direitos nem deveres, já não temos democracia, nem cultura nem dignidade. Só nos resta a vergonha e, como na época do “ame-o ou deixe-o”, pegar o avião e ir morar em Portugal ou como pedreiro nas quebradas dos Estados Unidos. Da mesma forma que os franceses comemoram a vitória da segunda guerra mundial, com suas lindas cores e seu hino libertário, nós também precisamos comemorar nossa história e nossas lembranças, mesmo que as casas, os edifícios e os monumentos já não existam mais... Não podemos perder a fé na vida. Maria, Maria...

7 comentários:

  1. É nego véio, ainda rola lagrimas nessa pedra em que me tornei... Obrigado!

    ResponderExcluir
  2. Boa noite, Gilmar! Muito triste mesmo o abandono em que se encontra o centro da cidade que já teve tanta vida e beleza, hoje tudo perdido . A Praça do Patriarca o Unibanco onde trabalhei já não pertence ao Itaú e sim a Justiça do Estado.

    ResponderExcluir
  3. Belo texto camarada Gilmar Carneiro!
    Realmente, andar pelas ruas do centro de São Paulo é algo um tanto desolador. O abandono salta aos olhos. Em todos os aspectos. Triste!

    ResponderExcluir
  4. Saudade imensa do Centro de SP.
    Foram anos lindos. Lembra da Associação Viva o Centro? Todos àqueles projetos de revitalização. Bons tempos. Sinto muito por quem não vê o Centro como possibilidade, como história.

    ResponderExcluir
  5. Seu texto retrata o que senti (e muito mais) a última vez que estive no centro de São Paulo.

    ResponderExcluir
  6. Gilmar, meu amigo, que texto emotivo e verdadeiro. A última vez que estive no centro senti uma tristeza profunda. Você descreveu melhor que ninguém o porquê. Abraços, mano véio. William Mendes

    ResponderExcluir
  7. É Gilmar antes era o centro novo e o velho, hoje é todo centro abandonado.

    ResponderExcluir