sexta-feira, 9 de abril de 2021

Cartas de Celso Furtado aos pensadores e governantes

Cartas de Celso Furtado Cartas de Celso Furtado relembram um Brasil onde a ditadura expulsoua a inteligência. Livro faz seleção da correspondência do economista com outros grandes pensadores de sua época. Por Helena Celestino — Para o Valor, do Rio 09/04/2021 Celso Furtado trocou 15 mil cartas com a elite da intelectualidade do século passado. Sua viúva, Rosa, destacou a troca de ideias entre eles Nelson Perez Tão longe, tão perto. A história do exílio de parte de uma geração de brasileiros, expulsa do país pela ditadura militar, está contada por meio da correspondência de Celso Furtado. Foram 15 mil cartas trocadas entre o mais celebrado economista latinoamericano e a elite da intelectualidade do século XX. Retrata uma época em que a inteligência brasileira foi obrigada a partir para o exterior, punida pelos militares, por ousar pensar o país. Eram tempos em que internet e redes sociais estavam a décadas de distância, o telefone internacional era imbancável para expatriados e a etiqueta recomendava cartas escritas a mão. Com o olhar treinado de jornalista e tradutora, Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado (1920-2004), leu todas as milhares de cartas e, em 15 meses, selecionou a “Correspondência Intelectual: 1949-2004” (Companhia das Letras, 440 págs., R$ 99,90) do autor do clássico “Formação Econômica do Brasil” (1959) com cerca de 50 brasileiros e 30 estrangeiros. São economistas, ativistas, amigos de infância, cientistas sociais e escritores que ajudaram a mudar e pensar o mundo a partir dos anos 1960. Entre os documentos, havia inúmeros convites a Celso para debates com ícones da intelectualidade como Theodor Adorno e Herbert Marcuse ou para participar do Tribunal Internacional sobre crimes da Guerra do Vietnã, presidido por Bertrand Russell, a autoridade moral da época, e Jean-Paul Sartre, filósofo e ativista. Poucos estão publicados no livro, mas foi impossível não registrar o pedido do então ministro americano da Justiça Robert Kennedy a Celso para enviar uma entrevista gravada a ser incorporada ao memorial do irmão John Kennedy. Ou o convite para uma estadia em Cuba, assinado pelo comandante em chefe Fidel Castro. A maioria era recusada, por falta de tempo ou por impedimentos devido à sua condição de exilado. A escolha de Rosa foi dar destaque a cartas com troca de ideias, em que um dá opinião no projeto do outro, sem meias palavras e com a falta de cerimônia permitida entre os expatriados, todos igualmente “estrangeiros” no novo país. Numa delas, Fernando Henrique Cardoso reconhece que precisa repensar a sua teoria da dependência, depois de receber as observações de Celso. Também está lá a rica colaboração intelectual mantida por mais de 30 anos entre o criador da Sudene e Raúl Prebisch, o primeiro diretor da Cepal. Interessante é a correspondência entre os colegas do Clube Bianchi’s, um antecessor dos grupos de WhatsApp com nome tirado de uma pizzaria londrina, onde Celso, FHC, Helio Jaguaribe, o chileno Jacques Chonchol e outros latino-americanos com os mesmos interesses preparam-se para influir sobre o futuro do continente. “Somos o embrião de uma escola de pensamento”, escreve Celso. Toda a intelectualidade brasileira da época desfila pelo livro: dos sociólogos Octavio Ianni, Florestan Fernandes, ao cientista José Leite Lopes, o poeta Thiago de Mello, o historiador da cultura Otto Maria Carpeaux, o escritor Ernesto Sabato e vários outros intelectuais. É instrutivo e doloroso. Para Rosa, ler as cartas dos 20 anos de exílio dessa geração foi a parte mais sofrida do seu trabalho de editora. Alguns textos são pungentes, com relatos de problemas familiares e financeiros, falta de trabalho e perseguições ou mesquinharias da ditadura. Do Brasil, chegam notícias de prisão, livros censurados, queimados ao estilo dos nazistas e atirados em caçambas de lixo. Todas expressam nas entrelinhas uma tristeza acumulada por arbitrariedades, violências e injustiças sofridas. expulsou-a-inteligencia. “Essa é uma contribuição deste livro, falta ainda uma visão mais profunda desse movimento de muitos brasileiros saindo do país, primeiro em 1964, depois em 1968 e 1973. É impensável que isso se repita, nunca é demais falar neste momento em que estamos, numa democracia longe de ser sólida”, diz Rosa. Um dos missivistas constantes é Darcy Ribeiro. Com humor, conta que está fazendo “um remendão das universidades” em seus múltiplos exílios em Uruguai, Peru, Venezuela e Chile. Recorre ao amigo - os dois se conheceram nos anos 1950, Darcy criando a Universidade de Brasilia, Celso, a Sudene - para sondar a possibilidade de um contrato “com a urgência necessária”, caso tenha de sair da Venezuela. A mais dramática é a carta de Frei Tito, que se apresenta e solicita um encontro com Celso, que não ocorre porque o religioso se enforca numa árvore nas proximidades de Lyon - o dominicano fora preso e torturado no Brasil, sob acusação de proteger “comunistas”. O exílio de Celso Furtado começou com certo estardalhaço. Seu nome estava no primeiro listão do AI-1, que privou de direitos civis e políticos uma centena de brasileiros, entre eles os do então ministro do Planejamento do governo João Goulart. O ato de arbítrio foi noticiado em 11 de maio de 1964, pelo “New York Times”: “Expulso como esquerdista e convidado por três universidades, Celso Furtado está inclinado por Yale”. O brasileiro tornara-se um ícone, ainda nos anos de 1949 a 1953, ao atuar na Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), entidade sediada no Chile e ligada à ONU, cujo pensamento voltado para o desenvolvimento na América Latina ajudou a formular. Antes de chegar a Yale, foi na Cepal que Celso começou seu périplo como exilado: voltou a Santiago para dirigir um seminário - assistido por Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort. Emendou como “visiting fellow” em Yale, posto que durou apenas um ano por pressão do governo brasileiro para o contrato não ser renovado. “Começaram aí os apuros constantes, durante o exílio, para a regularização de seu passaporte e concessão de vistos”, escreve Rosa no prefácio. Partiu para a França, onde já o esperava o posto de professor na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, a mesma em que se formara em 1948. A contratação de Celso fora defendida pelo fundador do “Le Monde”, o mítico Hubert Beuve-Méry, que assinara durante três dias, na primeira página, reportagem sobre a teoria do desenvolvimento elaborada pelo economista brasileiro e seu trabalho no Nordeste como diretor e fundador da Sudene. Celso jamais deu aulas no Brasil, mas, por quase 20 anos, foi professor na Sorbonne, num anfiteatro com 140 lugares, lotado de alunos vindos do mundo todo, entre eles inúmeros brasileiros e latino-americanos, depois eleitos presidente - como o peruano Alan García - ou nomeados ministros de Estado nos países de origem. O “professor cassado”, como o chamavam, era severo, mais ainda com os brasileiros. Em carta a Antonio Candido, escreve: “Me preocupa aqui o nível tão baixo do pessoal que nos vem do Brasil”. O longo exílio termina com a redemocratização no país, Celso se ligando à ala autêntica do MDB e assumindo o Ministério da Cultura do governo Sarney. Antes da partida da França, assina um convite com Violeta Arraes - a grande anfitriã dos brasileiros em Paris - para uma despedida em janeiro de 1985, na Maison de l’Amérique Latine. A carta foi enviada a 125 pessoas, entre elas a escritora Simone de Beauvoir e os políticos Jacques Delors, Jack Lang e Lionel Jospin. Festejaram juntos o fim do regime autoritário no Brasil.

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