segunda-feira, 5 de abril de 2021

Aprendendo com as crianças e com a História

Aprendendo, juntos, a praticar a Democracia A criança, ao deixar o colo da mãe para ir para o berçário, começa a aprender a conviver coletivamente desde cedo. No berçario, pode acontecer de todos serem parecidos, todos brancos, com pais brancos e babás brancas… Mas há berçários que tem japoneses, árabes, coreanos e nordestinos. Sim, para quem mora em São Paulo, o nordestino é como se fosse um estrangeiro… A criança vai crescendo, sai do berçário e vai para o básico e tudo pode continuar igual ao berçário. Quanto mais a criança cresce, mais é possível aparecer etnias diferentes , e a criança vai sendo mais demandada na relação com a diversidade. O que mais chama atenção é quando aparecem várias crianças negras numa quase totalidade branca. Os pais ficam incomodados, mas não verbalizam na escola. As crianças ainda não aprenderam a disfarçar e falam diretamente que “não querem ou que querem esta ou aquela cor ou etnia…” Se for filho de negro que é músico ou ator famoso, o fato de ser famoso sobrepõe ao fato de ser negro. Mas, se for filho, por exemplo, de professor ou de funcionário administrative, que não viajam para o exterior nas férias, aí o preconceito aparece com a combinação de ser negro e pobre, convivendo com uma comunidade branca e rica. Mesmo quando chegamos na faculdade o funil social continua. Ir para USP é para os que podem mais, não precisam trabalhar até se formarem e conviver com línguas estrangeiras, além de ser fluente em ingles. Se todos frequentassem escolas públicas, a integração seria mais fácil. Isto é mais comum no interior dos Estados e nos Estados mais pobres que os do Sul e Sudeste. Brasilia é um caso a parte. Se educar os filhos inclui esta complexidade toda, imaginem aprender a conviver nas ruas, no trabalho e nas comunidades? Imaginem aprender a distinguir uma democracia de uma ditadura? Isto é difícil mesmo entre os iguais socialmente. O que é uma ditadura civil ou uma ditadura militar? Existe uma sem a outra? Isto é, existe ditadura só militar ou só civil? Quando as ditaduras prendem e torturam, fazem isto em nome de quem? Os ditadores sempre justificam a tortura por sentir-se em “tempo de Guerra” e, para eles, nas guerras as torturas são justificáveis… E podem ser escondidas, negadas. Em 1964 o Brasil deixou de ser uma democracia agitada para ser uma ditadudra militar e civil. Tinha militares e civis como ministros e, tanto os militares quanto os civis, participaram do golpe. Juízes, padres, jornalistas, jornais, comerciantes, industriais, agronecócio, governos estrangeiros como os Estados Unidos, participaram diretamente do golpe e dos governos que vieram com o golpe. Passados vários anos, tanto os militares como os civis passam a ter um certo constrangimento em ter apoiado e participado do golpe, da ditadura e ter apoiado também as torturas e as mortes… Afinal, com em 1968 apareceu a guerrilha… Mas a grande maioria não foi para a guerrilha. A maioria lutava contra a ditadura por não ter democracia nem liberdade. As instituições como judiciário, parlamento, imprensa, governos, igrejas, sindicatos, universidades, e mesmo as Forças Armadas e as Polícias Militares, tudo isto é fundamental para se consolidar a democracia como prática de liberdada, de respeito mútuo e de capacidade produtiva. Estas instituições podem e devem estudar a História, estudar os fatos, citar os pros e os contras. Não podem e não devem manipular os fatos, mentir sobre a História, nem inventor fatos que não aconteceram. Esta história relatada abaixo me deixou muito emocionado. Será que foi verdade, será que os militares e os torturadores reconhecem esta História? Os militares, em muitos casos, protegeram os torturadores, com receio de que a Justiça atual os condenem. Aos protegerem os torturadores, a História fica faltando uma parte importante para ser estudada. A ditadura de lá – os comunistas – não justifica as ditaduras de cá – as capitalistas. Hoje, elas não existem, mas tem muita gente querendo voltar a ter ditaduras. Por enquanto, a maioria ainda prefere a democracia e a libertdade. Leia o relato abaixo e imagine que poderia ter acontecido com sua irmã, sua mãe, tia, vizinha ou colega de trabalho… “ Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava “minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’. Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. E u chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu fillho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro. *ROSE NOGUEIRA, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é jornalista e defensora dos direitos humanos.* Eu conheci Rose Nogueira e tenho certeza que ela não está mentindo nem inventando o sofrimento dela. Este sofrimento, mesmo com anos de terapia e de muito carinho dos amigos e familiares, este sofrimento nunca será apagado da sua memória, das suas lembranças. E nós também não devemos esquecê-los. Para não deixar que as torturas voltem a ser praticadas por instituições do governo e do Estado brasileiro. Aprender a “amar o próximo como a si mesmo” requer muita paciência, muita educação e nenhuma tolerância com a omissão e em se querer negar os fatos.

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