quarta-feira, 14 de abril de 2021

Alice Nakao - A morte que dói na alma

Sem vacina, os amigos, colegas e parentes vão morrendo. Segunda-feira foi a morte de nossa prima, Tereza. Nascida em Miguel Calmon, no interior da Bahia, veio cedo para São Paulo e aqui viveu suas alegrias e tristezas. A pandemia levou Tereza, minha prima, como levou Miúdo, nosso amigo metalúrgico. Ontem fui tomar vacina. Aos 67 anos de idade, passei a ter direito à vacina. Não tirei fotografias... Não quis comemorar por algo que acho que seja direito de todos. Ver os amigos e companheiros de todo o Brasil morrerem “bestamente” me enlouquece. Enquanto me preparava para tomar a vacina nesta terça-feira, recebo o recado e o apelo do zap: ALICE DA GRAFICA FOI INTERNADA COM O VIRUS! Para o pessoal do Sindicato, era a Alice da Gráfica, para mim, era uma amiga desde 1972. Uma amiga há 49 anos. Tomei a vacina Astrazenica no posto de saúde da Vila Madalena e fiquei duplamente doente. Febre, tremendeira e muito frio. Era o reflexo da vacina e o medo de Alice morrer... Hoje, dia 14 de abril de 2021, depois da seção de fisioterapia, recebo uma mensagem: Gilmar, parece que Alice morreu... Era uma mensagem vinda de o CABO VERDE! Era nosso amigo Alexandre Perozzini. Não consegui fazer mais nada... Mais tarde, Alexandre liga de CABO VERDE. Gilmar, confirmei que Alice morreu. O pessoal do Sindicato também conhece Alice porque ela tinha um trabalho social em São Luiz de Paraitinga, entre São José dos Campos e Taubaté. Reiko Miura, nossa jornalista deu um bom relato. Como já disse, conheci Alice em 1972, quando trabalhávamos no City Bank. Ela no prédio da Ipiranga com a São João, e eu na praça Antonio Prado. Eu trabalha na área de valores e ela na retaguarda. Fomos ficando amigos, viajando e convivendo com as famílias até que chegamos em 1979 e as eleições do Sindicato dos Bancários de São Paulo. Por coincidência, o Comitê Eleitoral da nossa Chapa 2 era na praça do Metrô Santana, em cima de uma pastelaria, a um quarteirão do apartamento da família de Alice. Como fiquei 32 dias no Comitê, inclusive dormindo nos colchões espalhados pelo chão, pedi para Alice para eu tomar banho lá. Durante o mês inteiro de campanha, ouvíamos tocar a loja de discos na praça: Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu... Era um dueto de Bethânia com Gal Costa. Ganhamos as eleições do Sindicato, o pessoal foi reorganizando a vida, e na festa de inauguração do apartamento de Luizinho, Alice – a nossa Alice do Safra e depois do Sindicato e da CNB – Edson Campos, Beth – de Gushi e do BB, e Lúcio do Chase, conheci Tica, que veio a ser minha esposa. No nosso casamento, Alice Nakao foi minha madrinha e deu-nos um lindo faqueiro, que faz parte do nosso quotidiano até hoje. Quando criamos a gráfica dos bancários, Alice veio trabalhar lá, com a retaguarda de Alexandre. Em 1994, com o fim do mandato de presidente e minha não eleição para federal, nosso grupo dispersou-se e Alice foi morar na Paraíba. QUARENTA E NOVE ANOS DEPOIS, Alice Nakao morreu vítima da pandemia e de um governo genocida. Além de perder vários amigos e colegas maravilhosos, temos que conviver com este governo criminoso. Sobrevivendo com a idade avançada, 67 anos, e vítima do Parkinson, espero usar o tempo que me resta para escrever nossas histórias e estórias. Nossas vidas foram e são importantes, portanto, não podem ser esquecidas... Construímos um novo e libertário sindicalismo, construímos um novo e libertário Partido dos Trabalhadores e amamos o que fizemos, amamos as pessoas com quem convivemos e sofremos juntos, sacrificando tempos para os familiares, as esposas, os filhos e as amizades. Hoje os familiares já não reclamam... A dor da gente não está nos jornais. Juntos somos fortes. Alice Nakao, presente!

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