segunda-feira, 1 de março de 2021

Grupos de direita tentam inviabilizar a Campanha da Fraternidade

Igrejas na Campanha da Fraternidade em 2021 Um dos maiores méritos dos católicos é a capacidade de manter a unidade interna entre os católicos, combinando a importância dos Santos e Santas, pessoas que foram beatificadas por serviços prestados às comunidades e à Igreja Católica, assim a Igreja Católica consegue sobreviver há mais de dois mil anos. Nos tempos atuais, com o crescimento das igrejas Pentecostais, geralmente conservadoras em todos os sentidos, e com as dificuldades encontradas pelos grupos progressistas, a extrema direita cresce dentro da Igreja e também “sai do armário”, indo para a rua apoiada por empresários e politicos reacionários para combater os setores progressistas da Igreja Católica. A contaminação do ambiente nas Igrejas e comunidades chegou a um ponto que põe em risco a sobrevivência da Campanha da Fraternidade deste ano de 2021. O dilema entre o conservadorismo dos ricos e as carências dos pobres, faz parte das polêmicas milenares da Igreja. A influência “de fora para dentro” sempre foi mais forte do que “de dentro para fora” , isto é, à cooptação para estar perto dos poderosos sempre foi mais forte que a aproximação com as periferias… Veja esta boa material publicada no melhor jornal para os ricos e dominantes no Brasil: Polarização abala Campanha da Fraternidade Valor Econômico https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/03/01/polarizacao-abala-campanha-da-fraternidade.ghtml - por Cristian Klein Arcebispos e grupos ultraconservadores boicotam edição por discutir supostos temas “revolucionários” Fruto da polarização política do país, a Campanha da Fraternidade deste ano está dividindo o meio religioso num acirramento entre as alas progressistas e conservadoras, diante do boicote que arcebispos e grupos mais radicais passaram a promover em dioceses, outdoors e redes sociais. A contracampanha prega a não utilização dos textos elaborados para os fiéis e a recusa para doações em dinheiro na tradicional coleta do Domingo de Ramos, que cairá em 28 de março. Grupos ultraconservadores, como o Centro Dom Bosco, de onde se elegeu a deputada federal bolsonarista Chris Tonietto (PSL-RJ), afirmam que a mobilização religiosa neste ano foi “capturada” e que “temas revolucionários” - como feminicídio, racismo, violência contra LGBTQI+ - ganharam projeção no lugar de conteúdos católicos. Ironicamente, o que era para ser um momento de comunhão durante a quaresma é motivo de discórdia e pode chegar à judicialização. Tudo muito distante do tema - “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” - e do lema - “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” - propostos para este ano. A Campanha da Fraternidade começou a ser realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1964, mas desde 2000 há edições ecumênicas quinquenais, como a deste ano, quando a organização fica a cargo do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). Além da Igreja Católica e da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, a associação é formada por denominações do protestantismo tradicional, como as igrejas Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida, Aliança de Batistas do Brasil e Evangélica de Confissão Luterana. Pastora luterana e secretária-geral do Conic, Romi Bencke é o principal alvo das agressões por ter incorporado a “alma” da comissão da campanha. “Eles dizem que elaborei o texto-base sozinha, o que é uma inverdade, e me pegaram como centro dos ataques”, afirma Romi, que analisa com advogados se levará o caso à Justiça. Em sua opinião, os ataques têm fundo político já que, em janeiro, ela foi uma das porta-vozes do Conic a protocolar pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, tendo como justificativa o descaso do governo com a pandemia. Em alguns municípios, como Itabira (MG) e Londrina (PR), grupos ultraconservadores espalharam outdoors contrários à tradicional mobilização da quaresma. Na cidade paranaense, o movimento Brasil Católico estampou a mensagem: “Atenção católicos - Campanha da Fraternidade 2021 com infiltração de abortistas e cumplicidade da CNBB - Tirem os comunistas do altar! Não doe dinheiro em 28/março”. Dos recursos doados 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), administrado pela CNBB, e 60% ao Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), gerido pelas dioceses, com o objetivo de financiar projetos sociais e caridade. Em 2019, a parte que cabe à CNBB foi de R$ 3.814.139,81. Em 2020, por causa da pandemia da covid-19, não ocorreu arrecadação. Com o boicote às doações e o quadro de agravamento da pandemia, a CNBB não arrisca nenhuma previsão para 2021. Secretário-geral da CNBB, dom Joel Portella Amado afirma que sua preocupação maior é com os efeitos da pandemia, do “lockdown” adotado em algumas cidades e do desemprego na vida das pessoas, o que aumenta a urgência de doações aos que mais necessitam. “O estímulo à não colaboração é um ato antievangélico na medida em que estimula a prática do egoísmo, da não caridade. Isso é muito grave, pois, em meio a polarizações, são os mais pobres que acabam, como costumamos dizer, pagando a conta ou, se desejar, não tendo com o que pagar suas contas”, critica o bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Prejuízos organizacionais já podem ser sentidos. Um seminário de formação de lideranças que contaria com quase 300 pessoas foi cancelado no Paraná, relata Romi. Grupos comunitários da regional do Conic na Bahia também foram desmobilizados. Sobre ser defensora do aborto, a pastora gaúcha diz que se orienta pelo posicionamento de sua igreja, segundo a qual se trata de uma questão de saúde pública. “Como no Brasil há separação entre igreja e Estado, logo não cabe à igreja interferir numa questão relacionada à saúde pública”, afirma Romi, lembrando que atualmente a lei já prevê os casos em que o aborto é permitido. “Temos que fazer um debate sério na sociedade e depois coletivamente decidir se somos a favor ou contra e como se dá a implementação da política pública. Uma decisão complexa não pode ser tipo um jogo entre Grêmio e Internacional. Nenhum assunto é proibido”, afirma. Para integrantes da ala mais conservadora da Igreja Católica, porém, há temas e termos proibidos ou malvistos, como as menções do texto-base a racismo, necropolítica, “abordagens policiais violentas” e “derretimento das geleiras” - considerados “absurdidades”. Em comentários a vídeos publicados pelo Centro Dom Bosco, seguidores pintam a imagem de Romi como algo demoníaco. Uma fala da pastora sobre “os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres” é reprisada em tom de escândalo. Em vez de doações, a sugestão é que no dia da coleta os fiéis insiram nos envelopes a oração de exorcismo de São Bento. Numa das mensagens, a deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) chancela a contracampanha: “Gravíssimo!”. A abertura das igrejas em meio à pandemia - bandeira de líderes religiosos que se alinharam a Bolsonaro - é defendida em contraposição ao texto-base que prega o distanciamento social com evidências da ciência para evitar a propagação do vírus. “A Campanha da Fraternidade de 2021 pretende ser algo como o Psol ou o Partido Democrata infiltrados dentro da Igreja Católica”, afirma num dos vídeos Álvaro Mendes, vice-presidente do Centro Dom Bosco. Uma das grandes acusações à Campanha da Fraternidade Ecumênica está na própria ideia de ecumenismo, com rechaço à aproximação com outras denominações cristãs, pejorativamente chamadas de “seitas”. A Reforma Protestante de 1517, liderada por Martinho Lutero, é considerada por Mendes como uma “revolução demoníaca”, que “colocou metade do continente europeu a caminho do inferno”. A ausência de referência a documentos e a personalidades do mundo católico e a presença de “temas revolucionários” e de figuras do progressismo são contabilizadas e criticadas. No textobase, só há uma menção ao papa Francisco, nenhuma à Nossa Senhora, enquanto há duas citações a uma mãe de santo. O termo LGBTQI+ aparece oito vezes. Para Romi Bencke, numa Campanha da Fraternidade regular, feita apenas pela CNBB, possivelmente o texto tocaria em assuntos como racismo e agenda ambiental, mas não nos relacionados a LGBTQI+. “Isso [LGBTQI+] é o que eles [grupos ultraconservadores] estão mais atacando”, diz. Mas a pastora lembra que há muitos ataques devido à menção ao nome da vereadora Marielle Franco, incluído por ser o assassinato mais emblemático, ocorrido em anos recentes, de uma defensora de direitos humanos, e “que está sem resposta”, acrescenta. “Esses grupos reclamam que citamos a Marielle e, em nenhum momento, a Virgem Maria. Mas é que a campanha é ecumênica e não cabe”, justifica Romi, para quem “o movimento ecumênico latino-americano sempre se pautou pela responsabilidade social e os direitos humanos”.

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