quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Vacina russa continua segura e pode ser usada já em outubro

Rússia continua na frente...

Vejam bom artigo divulgado no Valor de hoje:

Rússia diz que Sputnik V é segura e escancara geopolítica da vacina

Valor – 09set2020.

O anúncio do obstáculo dos pesquisadores da vacina desenvolvida pela AstraZeneca e Universidade de Oxford foi perfeito para os russos

A suspensão dos testes da vacina desenvolvida pela AstraZeneca e Universidade de Oxford escancarou a geopolítica da covid-19.

Os russos fizeram nesta quarta-feira a defesa da segurança de seu imunizante, a Sputnik V, ante os concorrentes.

Ao mesmo tempo, o país de Vladimir Putin anunciou um acordo para fornecer 32 milhões de doses da vacina ao México. Isso equivale a 25% da população do país latino.

O instrumento do Kremlin na disputa é o fundo soberano do país, comandado por Kirill Dmitriev, que bancou a pesquisa da Sputnik V, que vem sendo questionada pela comunidade científica.

Desde que anunciou o "momento Sputnik", comparando o lançamento do imunizante ao do primeiro satélite pelos soviéticos em 1957, ele é a face pública da ofensiva médica de Putin - um ex-negacionista da covid-19 que passou a ver uma oportunidade política na crise. O anúncio do obstáculo dos pesquisadores da vacina de Oxford foi perfeito para os russos.

Em uma comunicado na manhã desta quarta, Dmitriev, disse que não comentaria o caso. Na sequência, republicou uma crítica que havia feito na véspera, quando respondeu à declaração conjunta de empresas farmacêuticas que desenvolvem vacinas contra a covid-19, na qual elas se comprometiam a obedecer a protocolos de segurança rígidos.

Dmitriev questionou a segurança das vacinas que utilizam "tecnologias não comprovadas", como o uso de adenovírus de macacos para levar código genético do Sars-CoV-2 ao paciente e estimular uma resposta imune.

A vacina russa, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, utiliza dois adenovírus humanos, o Ad5 e o Ad26, em doses distintas. Desde seu lançamento, Dmitriev insiste em que a existência de um imunizante aprovado contra o ebola e outro em estágio avançado contra a Mers que usam os mesmos vetores provam a segurança da Sputnik V. No primeiro estudo publicado sobre o imunizante russo, sobre os 76 pacientes das fases 1 e 2 de testes, são listados 250 estudos sobre o uso de adenovírus humanos em vacinas.

"Embora seja bem-vindo, acreditamos que esse compromisso de algumas empresas farmacêuticas é insuficiente, porque ele não discute a falta de estudos de longo prazo sobre efeitos carcinogênicos e impacto na fertilidade de novas tecnologias de vacinas, como as plataformas baseadas em vetores de RNA mensageiro (caso das americanas Pfizer e Moderna) e adenovírus de macaco (Oxford)", disse.

O Gamaleya sustenta que o uso do adenovírus humanos é o mais "orgânico", já que o patógeno convive com pessoas há mais de 100 mil anos.

Outras vacinas, como a chinesa Coronavac em teste para produção em São Paulo, usam um método tradicional de buscar a imunização, com o Sars-Cov-2 inativo.

Os russos consideram que isso permitiu o acelerado cronograma da Sputnik V, anunciada como a primeira vacina registrada no mundo contra o novo coronavírus. Ela ganhou registro provisório do Ministério da Saúde local sem ter iniciado os estudos da fase 3, aquela em que grandes grupos são vacinados e colocados em comparação com outros expostos a placebo. A prática foi criticada por toda a comunidade científica mundial, mas teve muito de propaganda na prática. Apesar de a Rússia ter anunciado a produção do primeiro lote de Sputnik V nesta semana, quem exatamente poderá ser vacinado, e quando, é incerto.

Tudo o que se sabe é o que o ministério afirmou: a intenção de vacinar profissionais da saúde em paralelo à fase 3. A China faz algo semelhante com seus militares. Dmitriev, por sua vez, falou em início de imunização em outubro ou novembro. A modulação de discurso veio com anúncio de que a fase 3 contaria com 40 mil voluntários.

Nesta quarta, o governo anunciou que 31 mil já haviam sido arrolados e que os testes começaram. Mais importante, houve enfim a publicação dos primeiros dados sobre a Sputnik V na prestigiosa revista científica britânica "The Lancet".

Ali se mostra um imunizante 100% eficiente e com efeitos colaterais negligenciáveis. Mas mesmo os otimistas do Gamaleya ressaltam, no texto, que é preciso mais testes para saber a extensão da imunização e descartar riscos.
Cientistas criticaram dados das fases 1 e 2 Mas mesmo esse estudo sobre as fases 1 e 2 foi questionado por um grupo de cientistas em uma carta aberta ao Gamaleya e à "Lancet" divulgada na segunda. Segundo eles, há resultados estranhamente duplicados entre participantes dos testes.

Denis Lugonov, principal autor da pesquisa, disse que não foi questionado pela "Lancet", e a revista por sua vez afirmou que estimula o debate. Mas o que vale, ao fim, é a política da vacina.

Do ponto de vista estritamente dessa disputa, há uma enorme coincidência no "timing" tanto da divulgação do comunicado das farmacêuticas, antes de o primeiro problema sério de Oxford ser divulgado, quanto da crítica dos russos. Isso sem falar no anúncio do acordo russo com o México.

A previsão é de que as entregas comecem a ser feitas em novembro de 2020, caso as autoridades locais aprovem a vacina. A distribuição vai ser feita com a farmacêutica mexicana Landsteiner Scientific.

Os russos dizem que 40 países já os consultaram sobre a vacina.

No Brasil, há um acordo para testagem a ser realizada no Paraná com o governo do estado, e a Bahia também está fechando arranjo semelhante. Aqui, a disputa política em torno da vacina se desenhava entre aqueles que já protagonizavam antagonismo na condução do combate à pandemia: o presidente Jair Bolsonaro e seu viés negacionista e o governador João Doria (PSDB-SP), com discurso pró-ciência.

Ambos associaram entes sob seu comando a uma das vacinas. O governo federal fez um acordo para produzir 100 milhões de doses da vacina de Oxford na Fiocruz, enquanto o paulista fez parceria com a chinesa Sinovac para a mesma quantidade via Instituto Butantan. Apesar do investimento, Bolsonaro tem estimulado um discurso ambíguo sobre o eventual imunizante, ressaltando que ninguém será obrigado a receber a vacina.

Assim, é incerto o impacto de um eventual problema maior com o imunizante de Oxford para a imagem do presidente. Doria, por outro lado, virou garoto-propaganda da vacina chinesa, fazendo postagens otimistas sobre seus testes em redes sociais. Tanto o tucano quanto Bolsonaro tiveram covid-19, assintomática para o governador e leve para o presidente.


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