segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Itaú escolhe novo presidente e agita a economia e a política

Quando o Itaú fica gripado, o mercado pega pneumonia... O maior banco brasileiro tem uma tradição de atuar politicamente. Foi assim com Olavo Setúbal, que foi ministro e prefeito, e também foi assim com Roberto Setúbal durante o tenso período brasileiro com a derrubada do governo Dilma, com Temer e agora com Bolsonaro. Com Bracher o Itaú tem sido mais “reservado”, isto é, as entrevistas são mais técnicas que políticas, e com menos aparição pública. Com Bracher o fato mais importante na era da pandemia foi a doação de um bilhão de reais e o relevante apoio na ação social no combate ao vírus. Bingo! O silêncio de Roberto Setúbal não significa que ele está longe da escolha, Roberto sabe que sua participação é decisiva para que o banco continue banco e crescendo nacional e internacionalmente. Quem fica parado é poste. Vejam a boa matéria do jornal Valor de hoje: Itaú escolhe presidente sob desafio tecnológico Executivo sucederá Bracher, que deixa cargo em abril Por Talita Moreira, Valor — São Paulo 20/09/2020 O Itaú Unibanco define nas próximas semanas quem será o sucessor de Candido Bracher na presidência do maior banco da América Latina. O executivo virá dos quadros da própria instituição, e terá pela frente o desafio de aprofundar — muito — a transformação digital já em curso. Estão na disputa os quatro nomes que formam, ao lado de Bracher, o comitê executivo do Itaú: os diretores-gerais do atacado, Caio Ibrahim David, e do varejo, Márcio Schettini, e os vice-presidentes André Sapoznik (tecnologia) e Milton Maluhy Filho (finanças e riscos). David, de 52 anos, é frequentemente apontado como o candidato mais forte por pessoas que conhecem o banco, e tem a confiança dos controladores. Porém, não há um “superfavorito”. As cartas estão embaralhadas e os quatro executivos têm perfis complementares. Schettini, 56, há anos é visto como um possível presidente do Itaú e tem experiência acumulada em diversas áreas da instituição — um ponto a seu favor. Sapoznik, 48 anos, ganhou importância por estar à frente de tecnologia, área vital para o futuro do banco. Maluhy é o mais jovem deles — tem 44 —, mas foi presidente do Itaú CorpBanca e é considerado um executivo assertivo e de opiniões firmes. A escolha é esperada para novembro, embora a data não esteja prevista em nenhum documento. Os candidatos são avaliados pelo Comitê de Nomeação e Governança Corporativa, e o novo presidente assumirá o cargo em abril de 2021, após ser submetido à aprovação do conselho de administração. Dificilmente surgirão nomes de fora. O próprio Bracher afirmou, em agosto, que seu substituto viria do comitê executivo. “Minha sucessão vai ser decidida nos próximos meses pelo conselho de administração e tudo indica que será um dos meus colegas”, disse na ocasião. Bracher está de saída porque completa em dezembro 62 anos, idade limite para ocupar a presidência, conforme o estatuto do banco. O executivo assumiu o cargo em 2017 e fez uma transição suave da gestão de Roberto Setubal, que ficou mais de duas décadas à frente do Itaú. Sabendo que teria um mandato de apenas quatro anos pela frente, Bracher manteve boa parte dos executivos que já estavam na diretoria com Setubal — e este, agora na condição de copresidente do conselho de administração, continua sendo uma figura muito presente no dia a dia do banco. A marca da gestão de Bracher tem sido manobrar um transatlântico de R$ 2,075 trilhões em ativos rumo a um futuro digital sem provocar rachaduras no casco. Não é tarefa simples. Se nesses últimos quatro anos o Itaú se tornou o maior banco do país em crédito, com uma carteira de R$ 811,3 bilhões em junho, também foi nesse período que a instituição viu concorrentes como XP Investimentos, Stone e PagSeguro comerem parte de suas receitas de serviços. O mantra do atual presidente do Itaú sempre foi o de que a transformação deve ser encarada como um “estado permanente” — e essa é a mensagem que ele vem tentando incutir nos funcionários para ajustar o banco aos novos tempos. O executivo costuma dizer que o banco enfrentou diversas mudanças de cenário ao longo de sua história e não tem por que ser diferente agora. A instituição escolheu o caminho de se digitalizar de dentro para fora em vez de criar um banco digital, como fez o Bradesco com o Next (que acaba de ser cindido em uma empresa à parte) e, agora, com a carteira digital Bitz. Hoje, há quem questione se a decisão foi a melhor. “O banco está apanhando muito em algumas áreas”, diz uma pessoa que conhece bem o Itaú, citando as áreas de investimentos e cartões. Em qualquer cenário, o próximo presidente terá de acelerar esse processo de transformação diante da queda das barreiras de entrada no setor proporcionada tanto pela tecnologia quanto por mudanças regulatórias. O Banco Central (BC) definiu para o fim deste ano a estreia do open banking e do Pix, meio de pagamentos instantâneos, duas inovações que podem intensificar a concorrência aos grandes bancos. A depender da aceitação dessas novidades pelos clientes, talvez o transatlântico tenha que dar um cavalo de pau. A emergência de consumidores mais digitais na pandemia pode acabar ajudando. Os grandes bancos vinham até agora dosando o ritmo de fechamento de agências, que ainda são fonte importante de receitas. Com a queda drástica da utilização da rede física na crise, pode fazer sentido acelerar a transferência das contas para agências digitais. Outras questões que o próximo presidente do Itaú terá de enfrentar dizem respeito ao legado tecnológico. Há um investimento pesado dos bancos tradicionais na modernização de seus sistemas, num uso mais sofisticado de análise de dados, inteligência artificial e computação em nuvem, mas ao mesmo tempo as instituições ainda convivem com mainframes. A herança do passado gera ineficiências — como a necessidade de atualizar vários sistemas quando há uma mudança de taxa de juros. Com as inovações no setor em ritmo acelerado, o Itaú vem tateando investimentos que o ajudem nessa travessia. O banco adquiriu, em novembro, o controle da empresa de transformação digital Zup IT e, na semana passada, foi anunciado entre os participantes de uma rodada de captação da fintech Quanto, que desenvolveu uma plataforma para o open banking. Do ponto de vista financeiro, a instituição também marcou um gol quando investiu na XP, em 2017, gastando pouco mais da metade do que pagou para fechar o capital da Rede cinco anos antes. Para uma fonte que conhece bem a casa, a troca de comando será uma oportunidade também de revisitar a estrutura de cargos, de forma a dar mais autonomia para os gerentes e, assim, tornar as decisões mais ágeis. “O Itaú precisa seguir o exemplo da Microsoft, que relutou, mas conseguiu romper com o legado”, diz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário