domingo, 6 de setembro de 2020

FHC, a reeleição e a conveniência...

Até para fazer autocrítica FHC usa o PT como pretexto. E mente.

FHC tem sido o intelectual orgânico da aristocracia paulista. Professor habilidoso, político com trânsito, soube construir a candidatura para presidente do Brasil, bancado por todos os setores empresariais e amplo apoio da classe média para cima.

Não sei porque, FHC gosta de “adequar a história à sua conveniência”. FHC quis ser ministro de Collor, com o impeachment de Collor e a posse de Itamar Franco, virou ministro, e o usou o cargo para se credenciar a ser candidato a presidente.

Coordenou o Plano Real, e isto foi o melhor que fez na vida. Apesar da grosseria em esconder o apoio de Itamar Franco, como presidente, deu à elaboração do Plano Real. Que foi, sem dúvida, um sucesso. Apesar de desindustrializar o Brasil.

Aqui, FHC força a barra no artigo de hoje no Estadão.

Em 1994, o povo não votaria nele porque era contra Lula. Nesta eleição, o povo votou em peso nos apoiadores de FHC porque o Plano Real foi um sucesso.

Quanto à reeleição, FHC queria e brigou para aprová-la e ser candidato.

Aqui aparece também um outro erro histórico “das elites brasileiras”.

Em vez de fazer política por conveniência e por projeto personalista, deveríamos fazer uma Constituinte, fazer uma Constituição sintética e abrangente, e defender um bom parlamentarismo com governo participativo amplo.

O sistema político brasileiro está falido, ultrapassado, desacreditado, com 35 partidos políticos inoperantes e teimosos...

Além da reeleição, FHC fez outro erro. FHC defendeu e aplicou uma aliança servil aos Estados Unidos, com a implantação do neoliberalismo, a destruição do Estado do bem estar social e com a entrega da soberania nacional. O grupo de FHC defendia que o Brasil fosse economia complementar à americana, em vez de ser uma economia competitiva mundialmente como era até então.

Agora, FHC vem com o voto distrital... mais uma vez para evitar que o PT volte a ganhar eleições.

Devemos colocar o povo e o Brasil em primeiro lugar.

Vejam a parte do artigo de FHC que fala da reeleição, publicado no Estadão de hoje.

Reeleição e crises

É ingenuidade imaginar que os presidentes
não farão o impossível para se reelegerem

Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S.Paulo
05 de setembro de 2020 | 21h00 -

O governo atual não teve sorte.

São de desanimar os fatores contrários: a pandemia, logo depois de uma crise econômica que vem de antes, com o produto interno bruto (PIB) crescendo pouco (se é que...), e uma “base política” que depende, como sempre, mais do “dá lá toma cá” do que da adesão popular a algo grandioso. Ganhou e levou; mas mais pelo negativo (o não ao PT e aos desatinos financeiros praticados) do que pelo sim a uma agenda positiva.

Agora se tem a sensação (pelo menos, eu tenho) de que o presidente não está bem acomodado na cadeira que ganhou. É difícil mesmo. De economia sabe pouco; fez o devido: transferiu as decisões para um “posto Ipiranga”. Este trombou com a crise, pela qual não é responsável. Não importa, vai pagar o preço: tudo o que era seu sonho, cortar gastos, por exemplo, vira pesadelo, terá de autorizá-los.

E pior: como é economista, sabe que a dívida interna cresce depressa, e sem existir mais a alternativa da inflação, que tornava aparentemente possível fazer o que os presidentes querem – atender a todos ou à maioria e ganhar a reeleição. Só resta o falatório vazio. Este cansa e é ineficaz num Congresso que, no geral, também quer gastar e igualmente pensa nas eleições.

Cabe aqui um “mea culpa”.

Permiti, e por fim aceitei, o instituto da reeleição. Verdade que, ainda no primeiro mandato, fiz um discurso no Itamaraty anunciando que “as trevas” se aproximavam: pediríamos socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Não é desculpa.

Sabia, e continuo pensando assim, que um mandato de quatro anos é pouco para “fazer algo”. Tinha em mente o que acontece nos Estados Unidos. Visto de hoje, entretanto, imaginar que os presidentes não farão o impossível para ganhar a reeleição é ingenuidade.

Eu procurei me conter. Apesar disso, fui acusado de “haver comprado” votos favoráveis à tese da reeleição no Congresso. De pouco vale desmentir e dizer que a maioria da população e do Congresso era favorável à minha reeleição:

Temiam a vitória... do Lula.

Devo reconhecer que historicamente foi um erro: se quatro anos são insuficientes e seis parecem ser muito tempo, em vez de pedir que no quarto ano o eleitorado dê um voto de tipo “plebiscitário”, seria preferível termos um mandato de cinco anos e ponto final.

Caso contrário, volto ao tema, o ministro da Economia, por mais que queira ser racional, terá de fazer a vontade do presidente. Não há o que a faça parar, muito menos um ajuste fiscal, por mais necessário que seja. E tudo o que o presidente fizer será visto pelas mídias, como é natural, como atos preparatórios da reeleição. Sejam ou não.

Acabar com o instituto da reeleição e, quem sabe, propor uma forma mais “distritalizada” de voto são mudanças a serem feitas. Esperemos...

SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBICA

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