quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Faltando 61 dias para eleições americanas, banqueiros começam se organizar

Banqueiros começam a se preparar para a queda do dólar

Vejam artigo publicado no jornal Valor de hoje, com os comentários dos profissionais do “mercado”...

Eleição americana começa a entrar no radar de gestores

Vitória de Biden pode abrir caminho para a queda do dólar e a valorização de moedas emergentes

Valor - Por Lucas Hirata — De São Paulo 03/09/2020 05h01

Principal evento do mundo político neste ano, a disputa eleitoral americana já começa a entrar no radar dos gestores brasileiros.

Mesmo sem descuidar do conturbado cenário doméstico, os profissionais de mercado afirmam que uma eventual vitória do democrata Joe Biden contra o atual presidente, Donald Trump, pode abrir caminho para a queda do dólar e a valorização de moedas emergentes, com possível efeito por aqui - embora a situação do Brasil seja mais complicada, devido ao problema fiscal e à proximidade entre o governo de Jair Bolsonaro e Trump.

De acordo com pesquisa do Bank of America (BofA), as eleições americanas são consideradas o terceiro maior risco de cauda - aquele com maior impacto possível - na avaliação de gestores da América Latina.

O evento fica atrás apenas de uma desaceleração da China com queda de commodities e de um enfraquecimento da economia dos EUA.

A pandemia do coronavírus ficou atrás desses fatores, na quarta colocação. A expectativa de parte do mercado é que Biden, líder das pesquisas no momento, tenha uma postura menos agressiva contra os parceiros comerciais americanos, reduzindo o nível de tensão que persevera desde o começo do governo de Trump.

Essa visão mais global resultaria em enfraquecimento do dólar e valorização de commodities, o que, em tese, beneficiaria ativos emergentes.

Já a reeleição de Trump significaria a continuidade de políticas de estímulos, dando sustentação à moeda americana e às ações em Wall Street.

Ao mesmo tempo, a leitura é que o mercado seguiria enfrentando ondas de volatilidade devido a declarações controversas em redes sociais e atritos explícitos com parceiros comerciais.
Para Fabricio Taschetto, diretor de investimentos da ACE Capital, o cenário mais benéfico para o mercado local seria a eleição de Biden com manutenção do status quo no Congresso - ou seja, maioria democrata na Câmara e republicana no Senado.

“Assim, veríamos uma amenização da guerra comercial - ao menos, ela não escalaria. Além disso, a política fiscal que está em vigor não seria tão afetada.” Taschetto alerta, por exemplo, que uma possível vitória dos democratas nas duas casas do Congresso, além da Casa Branca, elevaria a aversão ao risco nos mercados globais.

Na avaliação do gestor, o risco é que Biden consiga reverter os estímulos fiscais aplicados por Trump e reforce a regulamentação em setores como energia e tecnologia, sem enfrentar grande oposição parlamentar.

Nesse caso, o dólar se enfraqueceria apenas contra moedas fortes, e não emergentes. “Isso seria negativo para os mercados, porque as bolsas enfrentariam uma realização de curto prazo”, afirma Taschetto.

Por ora, a ACE evita se posicionar para um resultado final da eleição, dado que a campanha eleitoral ainda vai começar. De todo modo, a gestora carrega posições compradas em dólar no exterior e em bolsas na expectativa de um acirramento da disputa presidencial.

De acordo com pesquisa recente feita pelo Grinnell College e divulgada pela Bloomberg, o candidato democrata lidera a disputa presidencial com oito pontos percentuais de vantagem. Para Alexander Carpenter, sócio da Trafalgar Investimentos, uma vitória de Biden deve representar queda do dólar e valorização da maioria de moedas de outros países, independentemente da composição do Congresso.

Ele refuta a ideia de que Biden possa rapidamente apresentar mudança radical na política tributária se garantir a maioria de cadeiras democratas no Senado. Isso porque a possível diferença para os republicanos na casa ainda seria pequena e parte dos democratas novos no Senado teriam perfil mais conservador.

“Mesmo se já tivermos uma vacina, a prioridade de Biden ainda vai ser enfrentar a crise do coronavírus, principalmente em Estados que continuam sofrendo com a crise”, afirma.

“Um aumento de impostos só deve vir quando a crise do coronavírus estiver bem endereçada e na contrapartida de grandes projetos de investimentos em infraestrutura, por exemplo. Não é tão simples dizer que será negativo para os mercados”, diz. Com esse cenário em mente, a Trafalgar mantém posições contra o dólar e a favor de outras moedas.

No caso do real, a situação acaba sendo um pouco mais complicada, por causa da situação fiscal do país - não pela conjuntura externa que vai se formando.

Os analistas do Citi afirmam que a eleição de Biden pode beneficiar a classe de emergentes, após uma reação inicial negativa. No entanto, o Brasil ainda corre o risco de ficar para trás em relação aos seus pares.

“O temor é que um governo Biden retarde o progresso existente em direção aos acordos de livre comércio que estão sendo negociados com o governo Trump. E as críticas a respeito das políticas ambientais também podem aumentar. Mas essas mudanças também podem permanecer no radar do mercado”, dizem em relatório.

Gestor do Opportunity, Marcos Mollica avalia a corrida eleitoral sob um prisma um pouco diferente. Para ele, a disputa pode trazer volatilidade, mas a estrutura institucional americana impede que ocorram mudanças econômicas abruptas no país - seja quem for o presidente.

Além disso, mais especificamente sobre o Brasil, ele vê muita retórica em torno da relação entre Bolsonaro e Trump, que não se converteu em benefícios claros para o país. Assim, o profissional afirma que são outros fatores que determinarão os rumos dos ativos por aqui.

O primordial para o mercado de câmbio seria a questão fiscal, o que deixa qualquer outro assunto em segundo plano. Ele afirma que o norte para o mercado global será dado pelas bolsas americanas. E nesse caso, a vitória de Trump seria mais favorável a Wall Street, num movimento que ecoaria nas ações por aqui e no resto do mundo.

“A postura mais globalista do Biden parece ser mais retórica, não acho que vai trazer grandes benefícios para o Brasil. O que vai determinar no curto prazo é o ambiente para ativos americanos e Trump sempre foi bastante pró mercado”, explica.

Segundo relatório do banco suíço UBS, diante das diferenças em estratégias de temas geopolíticos e a abordagem da política comercial americana, os ativos que podem sofrer maior impacto de acordo com o resultado das eleições americanas são o dólar - o que afetaria o mercado cambial tanto para emergentes como para moedas fortes - e ações de setores específicos, como de automóveis, serviços públicos (“utilities”) e energia.

“Esperamos que o dólar continue enfraquecendo, independentemente do resultado da eleição. Mas assumimos que o resultado de uma vitória democrata ou republicana afetará a velocidade da depreciação em vez da direção do dólar”, afirmam no relatório o chefe de investimento do UBS para Europa, Oriente Médio e África, Themis Themistocleous, e a chefe de investimento para Américas, Solita Marcelli.

Para eles, um “cenário de onda azul”, com vitória de Biden e uma possível tomada do Senado pelos Democratas, aceleraria o processo de queda do dólar e apreciaria principalmente o euro e a libra.

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