segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Os Montoro e as boas lembranças do Brasil

Depois do pai, da mãe, agora foi a filha

Lendo a Folha de hoje, vi no rodapé da página que fala sobre as MORTES POR COVID-19, uma pequena Nota de Falecimento:

"Mônica Franco Montoro - aos 63 anos, solteira, sábado 8/8 às 16:00h, Cemitério Gethsêmani - Moriumbi, Praça da Ressurreição, 1 - Vila Sônia, São Paulo- SP."

Olhei a nota e me perguntei: Será a Mônica, filha de Montoro e de Dona Lucy?

Entrei no Google e encontrei primeiro uma outra noticia de óbito: A morte de Dona Lucy, quando vinha do litoral para a capital, num acidente na rodovia, isto, se eu não me engano em 2002...

Depois da noticia do acidente, onde Dona Lucy faleceu e Mônica ficou levemente ferida, fui procurando e achei um artigo sobre o livro que Mônica lançou sobre o pai. Passado a Limpo - Ode a meu pai - livro de autoria de Mônica e quem assinava o artigo era Quartim de Moraes, jornalista da nossa época.

Numa época de tanta mediocridade na política, não podemos deixar cair no esquecimento pessoas e famílias como a de Montoro.

Conheci bem o senador nos anos setenta e oitenta. Estivemos juntos em várias reuniões, sempre na defesa da democracia, da liberdade e da pluralidade. Em função desta luta pela redemocratização do Brasil, conheci Dona Lucy, quando tivemos uma reunião na casa da família, perto do Ibirapuera. Quando estava na FGV, conheci Montorinho e mais tarde, conheci outro Montorinho, funcionário concursado do BNDES. Todos educados e agradáveis.

Montoro, além de ter sido Ministro do Trabalho, junto com Mário Covas, formava o tronco fundamental da política com ética e com respeito às pessoas e às instituições. Juntamente com, Barelli, fazíamos reuniões para conversar sobre economia e política. Montoro, como igrejeiro, também tinha um profundo respeito com Dom Paulo Evaristo Arns. Era o núcleo duro da Igreja democrática e comprometida com o social.

Em 1982, Montoro foi eleito governador de São Paulo e abriu às portas do Palácio dos Bandeirantes para os sindicalistas, os movimentos populares e o povo em geral.

Em 1983, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, embora agonizante.

No primeiro semestre, as manifestações de ruas contra a ditadura estavam crescendo e o movimento sindical brasileiro ensaiava criar a primeira central sindical do país. Antigos dirigentes sindicais conviviam com jovens sindicalistas como LULA, Olivio Dutra, sindicalistas rurais e jovens libertários oriundos do movimento estudantil.

Desde 1982, existia a Comissão Nacional Pró-CUT. Composta por sindicalistas de todas as tendências políticas e das várias regiões do Brasil. Depois da realização da Conclat em 1981, na Praia Grande, o próximo passo era a fundação da CUT,
entidade unitária para organizar a Classe Trabalhadora...

Em 1982 os dirigentes sindicais adiaram a realização do Congresso de fundação para 1983, para priorizar as eleições dos governadores. A oposição à ditadura militar ganhou de ponta a ponta.a

Em 1983, os dirigentes sindicais conservadores, ao perceberem que seriam minoria no Congresso, começaram a inventar medidas protelatórias, dificultando a realização do Congresso da CUT. Ante o impasse criado, tomamos uma importante decisão: Tiramos uma Comissão de Representantes do sindicalismo para conversar com os "CAPAS PRETAS", isto é, conversar com personalidades que apoiariam política e materialmente na organização do congresso.

A primeira pessoa que fomos pedir ajuda foi Dom Paulo Evaristo Arns. Eu, Lula e Meneguelli fomos conversar com Dom Paulo, e este, depois de ouvir as ponderações, olhou para Lula e perguntou: Lula, você se responsabiliza? E Lula respondeu que sim, que ajudaria. Dom Paulo respondeu: Então estaremos juntos. O Brasil precisa de uma Central Sindical para ajudar os trabalhadores...

Na semana seguinte fomos fazer reunião com o governador de São Paulo, Franco Montoro. A Comissão de sindicalistas chegou ao palácio e Montoro ouviu nosso pedido. Até porque, a ideia era fazer o congresso em São Bernardo, onde o prefeito era do MDB, mesmo partido de Montoro. Mesmo tendo declarado que apoiaria a realização do congresso, Montoro ponderou que era recomendável conversar com Dom Paulo. Ao ouvir que já tínhamos nos reunido com Dom Paulo e que este apoiou, Montoro foi claro: Se Dom Paulo apoia, também apoiamos.

Montoro, como um democrata cristão praticante, além de ter sido um bom Ministro do Trabalho, ao apoiar a fundação da CUT, dava mais uma contribuição fundamental para o avanço da democracia no Brasil.

Eu não conhecia o livro de Mônica Franco Montoro, sua filha que faleceu neste final de semana. Mas, tenho certeza que, além da ODE AO MEU PAI, Montoro merece um livro onde o Brasil e os trabalhadores reconheçam a grande contribuição à democracia e ao direito de os trabalhadores se organizarem livremente.

Mais do que uma notinha de rodapé comunicando o falecimento de Mônica, a Folha precisa fazer uma bela reportagem.

Afinal, os cristãos democratas conviveram bem com os católicos da Teologia da Libertação e, JUNTOS, criaram o PSDB e o PT, criaram a CUT - Central Única dos Trabalhadores e muitas coisas mais... Esta unidade de ação só acabou quando o neoliberalismo começou a ser implantado no Brasil já no governo de Fernando Henrique Cardoso. E aí, como dizia Covas: O nosso partido está deixando de ser social democrata, está se distanciando do povo e do nosso passado.

Contar os fatos e escrever a história deve fazer parte da responsabilidade tanto das instituições, como da imprensa e do sindicalismo.

Os Montoro nos trazem boas lembranças do Brasil. Sem medo de ser Feliz.

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