quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O câmbio está nos matando...

Cortar gastos é a única saída?

O jornal Valor de hoje, traz um artigo interessante sobre a desvalorização CAMBIAL e seus reflexos. A autora é a jornalista Maria Clara R.M. do Prado. Precisamos explicar melhor para a pessoa que não domina teoria econômica mas que sente no dia a dia a profunda crise que passamos.

Leiam o artigo do Valor: MALEFÍCIOS DO CÂMBIO

Malefícios do câmbio – Cortar gastos é a única saída...
Opinião - Valor Econômico – 19/08/2020 - Por Maria Clara R. M. do Prado - É jornalista e sócia-diretora da Cin - Comunicação Inteligente. Entre 1994 e 1995, foi coordenadora de Divulgação do Plano Real. https://valor.globo.com/opiniao/coluna/maleficios-do-cambio.ghtml

Cortar gastos é a única saída viável para resolver o imbróglio fiscal e dar fôlego novo à economia brasileira. Tal qual Mefistófeles, que se vale da aparência conveniente para esconder a ruindade, o câmbio pode matar, como dizia o brilhante economista, ex-ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen.

O forte e continuado processo de desvalorização do real tem potencial para causar estragos na economia e alguns já são percebidos.
A tendência à depreciação do real (4) acentua-se e ganha mesmo um caráter de imprevisibilidade na esdrúxula situação em que o país se encontra: (1) em meio a uma pandemia, (2) a uma encruzilhada fiscal e (3) a retração do investimento estrangeiro.

A taxa de câmbio tem sofrido os efeitos da escassez de dólares no mercado doméstico, necessários para cobrir as posições dos bancos, além de mover-se ao sabor das incertezas políticas e da inexistência de outro tipo de instrumento que garanta rendimento às aplicações financeiras. Aumentar impostos, é por aí que a área econômica caminha, uma vez que abunda a falta de coragem para cortar gastos

Essa combinação de fatores tem puxado para cima o valor do dólar no mercado doméstico com vantagens para os exportadores de commodities, o que certamente traz alívio para o balanço de pagamentos e este, pode-se dizer, seria o lado aparentemente bonzinho na associação com Mefistófeles.

Cruel é o efeito da taxa de câmbio sobre os preços internos das matérias primas e dos produtos primários que afetam o setor produtivo e também os consumidores.
Ontem, a prévia do IGP-M de agosto - relativa ao segundo decênio do mês - revelou nova alta, de 2,34%, levando o índice a acumular aumento de 9,22% no ano e de 12,58% quando medido no período de doze meses.
Como se sabe, o IGP-M cresce pelo efeito do IPA (índice de preços no atacado), que tem peso de 60% na apuração do total do índice e é completamente dependente da pressão do câmbio sobre os preços das commodities em geral. O IPA aumentou 3,15% no segundo decênio de agosto.

Ainda não há impacto sobre a evolução dos preços dos produtos vendidos ao consumidor no varejo, haja vista o crescimento de apenas 0,41% do IPC que compõe aquele índice da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com peso de 30%, mas quem trabalha no mercado atacadista diz que os produtos básicos, como o arroz, por exemplo, estão em alta, afetando a cesta básica dos mais pobres, para quem a inflação tem crescido.

O economista especializado em preços e decano do Centro de Ciências Sociais da PUC do Rio, Luiz Roberto Cunha, conhece bem o comportamento do IPA e dos IPCs (índices de preço ao consumidor).
É autor, junto com o economista Dionísio Dias Carneiro, também da PUC-Rio, já falecido, especialista em inflação e política monetária, e com Marcos Valpassos, de um estudo específico sobre aqueles índices elaborado há alguns anos. Foi publicado na Carta Galanto em 2002 com o título “Índices de Preços e Indexadores de Contratos de Longo Prazo”.

Ele comenta que “enquanto a atividade econômica estiver baixa e o hiato do produto for alto, tende a haver o descasamento entre o IGP/IPA e os IPCs, uma situação que já ocorreu no passado”, e explica que há diferenças importantes entre os dois índices, uma vez que o câmbio afeta drasticamente o IPA, ao passo que os IPCs (da FGV e de outras instituições) são muito impactados pelo componente salário, um preço que está em baixa nesta época de profunda recessão.

Também as tarifas públicas pesam nos IPCs.
No curto prazo, talvez o que mais preocupe sejam “as percepções para o futuro”, como bem nota Luiz Roberto.
Afinal, recorde-se de que câmbio em alta pode desestabilizar as expectativas, ainda que em cenário de inflação baixa.
A maior demanda da moeda americana no mercado interno, que leva o BC a vender dólar no mercado à vista e a atuar no mercado derivativo de swaps de câmbio, continua a afetar o nível das reservas internacionais do país.

Descontadas as operações de swaps (troca de risco), o Brasil tinha US$ 322 bilhões em reservas na posição de fim de dezembro de 2019. No dia 10 de junho deste ano, o total havia caído para US$ 289 bilhões, sem considerar os swaps, de acordo com o Relatório do Setor Externo 2020, divulgado este mês pelo FMI.

Não há dúvida de que o país possui uma quantidade confortável de reservas externas, reforçada ainda mais com a linha de crédito disponibilizada desde maio pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, para o Banco Central do Brasil, com facilidade de recompra, no valor de US$ 60 bilhões, e que pode ser sacada a qualquer momento em caso de necessidade.

A linha é parte de um pacote maior que o Fed ofereceu a outros oito países além do Brasil, no total de US$ 450 bilhões, com o objetivo de dar liquidez ao dólar americano. Recentemente, essa disponibilidade adicional de dólares teve o prazo prorrogado até março de 2021.
Com a pressão dos bancos brasileiros pela moeda americana e a resistência dos estrangeiros em voltarem a investir no país, é de se supor que as reservas acumulem mais perdas até o final do ano.

Mas a questão mais relevante a considerar agora é: (1) como a economia brasileira conseguirá recuperar-se, e (2) quando, uma vez que não há investimento do setor privado, seja pela falta de demanda interna, seja pelo alto custo das matérias-primas pressionadas pelo dólar, e muito menos do setor público, cujo cobertor mal dá para cobrir o auxílio aos invisíveis, aqueles 38 milhões de brasileiros de cuja existência ninguém no governo sequer suspeitava.

Com a dívida bruta do governo geral em 100% do PIB e um descolamento entre receitas e despesas públicas de cerca de dez pontos de porcentagem é difícil imaginar como se fechará a equação.
Aumentar impostos sempre se apresenta como o caminho mais simples e, por isso, o mais utilizado nos últimos anos. Diante da queda extraordinária do PIB, seria como dar novo tiro no pé do combalido setor privado. No entanto, por mais ilógico que pareça, é por ali que a área econômica caminha, uma vez que abunda a falta de coragem para cortar gastos, a única saída viável para resolver o imbróglio fiscal e dar fôlego novo à economia brasileira.

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro “A Real História do Real”, recém lançado também em versão digital, "A real história do Plano Real". Escreve mensalmente neste espaço.

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