sexta-feira, 10 de julho de 2020

"É preciso ser antirracista" diz Alexandra Loras ao Valor - Entrevista Histórica

O Brasil é o que mais discrimina negros

Como mudar este Brasil?

Como fazer a revisão de todo material escolar, atualizar a mídia, obrigando a ter participação de negros e mulheres em toda grade?

O Brasil tem vergonha de sua história e de seu passado. É preciso criar coragem e superar nossos erros e nossas imperfeições. É preciso mudar.

Na TV americana e também na maioria dos filmes, encontramos a presença do branco, do negro, do hispânico e do asiático, valorizando assim sua origem de país de imigrantes de todas as etnias.

Segue abaixo a entrevia ao jornal Valor, da francesa Alexandra Loras. Um documento histórico que deve ser reproduzido, lido e discutido em todas as entidades e instituições, inclusive nas igrejas, sinagogas e mesquitas.

É um entrevista longa, mas quanto mais você vai lendo, mais vai gostando...


À Mesa com o Valor - Alexandra Loras: ‘É preciso ser antirracista’

Para Alexandra Loras, ex-consulesa da França, Brasil é o que mais discrimina negros, o que vitimou o adolescente João Pedro e inúmeros outros

Por Daniel Salles — Para o Valor, de São Paulo
10/07/2020 05h01 Atualizado há 10 horas

Sem pausas na fala, Alexandra Loras vai direto à questão do preconceito racial no país: “Sempre me perguntam se já fui vítima de racismo. Deparo com o racismo ao ligar a TV, ao enfrentar os algoritmos do Google. Pesquise por imagens de bebês negros - e vão aparecer quilômetros deles. Tire a palavra negro - e não aparecerá mais nenhum, só brancos. Ora, bebês negros também são bebês.

O Brasil tem a segunda maior população negra [do mundo].
Mas tente achar um super-herói negro em qualquer loja de brinquedos, seja de Salvador ou Curitiba. Isso é racismo velado? Não - é escancarado. Acham que racismo é só alguém me chamar de ‘macaca’. Não - é não permitirem que eu me veja representada de maneira justa.”

Palestrante e consultora especializada em diversidade, afroconsumo, “empoderamento” negro e liderança feminina, a francesa Alexandra Loras, de 43 anos, resume sua trajetória neste “À Mesa com o Valor”, um café da manhã movido a quitutes do “delivery” do BotaniKafé, estabelecimento especializado em brunch.

A entrega é feita na edícula de uma casa térrea no Jardim Europa, em São Paulo. No imóvel com paredes brancas, janelas azuis e muros cobertos de hera mora seu marido, Damien Loras, de 50 anos, que exerceu o cargo de cônsul-geral da França no Brasil entre 2012 e 2016.

Foi para acompanhar Loras, então conselheiro para assuntos ligados à Rússia, à Ásia Central, à Europa Oriental, à região do Cáucaso e às Américas, que ela trocou a França pelo Brasil. Deixou para trás uma carreira de jornalista na televisão francesa que incluía dois programas (um de debates, do qual era uma das âncoras, e um show musical, cujo comando partilhava com três apresentadores).

Alçada a anfitriã da residência oficial do cônsul da França, uma mansão também no Jardim Europa, Alexandra não demorou a cair nas graças das colunas sociais e a se ver cercada pela alta roda paulistana.

Alexandra relembra sua história, entre fatias de pães de fermentação artesanal com ingredientes como pasta de avocado, cogumelos, molho holandês, ovos poché e salmão curado. No “delivery” do BotaniKafé, cada item vem em um recipiente próprio, e a montagem fica por conta dos clientes.

Suco de laranja com pitaya e de acerola com cenoura e laranja complementam a entrega. A anfitriã providenciou itens como os minipães de queijo integrais e o café coado.

Hoje, Alexandra mora em outro endereço, em uma casa no Jardim Europa, mas tem passado o período de isolamento social sob o teto do marido, com o filho do casal, Rafael, um menino de 8 anos de cabelos dourados e a mesma cor de pele do diplomata.

“Também cedi ao embranquecimento, à ideia do príncipe encantado. Sou bombardeada pela mesma narrativa que todo mundo”, afirma Alexandra. “Mas, olha, vou dizer. Até o ano passado, 77% das mulheres negras no Brasil não haviam se casado oficialmente. Então, não foram só os homens brancos, mas também os negros que não as quiseram.”

A porcentagem foi apontada por uma pesquisa do Instituto da Mulher Negra, o Geledés. “Meus namorados negros não me pediram em casamento”, diz. “Se bem que hoje, por ser uma feminista escancarada, eu não ia permitir que ninguém me pedisse em casamento, até porque nem acredito mais nessa instituição. Mas continuo casada, desconstruindo certas coisas.”

No período em que Loras era cônsul-geral, Alexandra habituou-se a organizar festas na residência oficial e a receber uma média de 6 mil pessoas a cada ano. Muitas, afirma, só se davam conta de que a anfitriã era ela quando a viam pegar o microfone para agradecer a presença de todos. Não que não a tivessem visto na entrada, à espera de cada convidado, como manda o protocolo da diplomacia francesa.

“Era comum me considerarem a ‘hostess’ ou empregada, mas esse tipo de micro-humilhação eu podia equilibrar com o microfone”, diz ela, chamada de “consulesa” mesmo sem cargo oficial. “Soube aproveitar o poder que me deram, inacessível à maioria da população negra.”

Quatro anos atrás, quando Loras foi comunicado de que teria de assumir outro cargo no Canadá ou nos Estados Unidos, ele deu adeus à diplomacia para que a família continuasse no Brasil. Desde então presta consultoria para empresas interessadas em atuar no país e foge dos holofotes.

“Fiquei surpresa com a coragem dele de abandonar o corpo diplomático para que eu pudesse continuar meu trabalho”, diz Alexandra, naquela época já militante do movimento negro. “Ele virou pró-feminista aqui, percebeu que um casamento não se resume à carreira do marido. Por alguns anos, me deixou ser a protagonista. E agora nem quer voltar a ser, mas vamos ver.”

Da rotina consular diz não sentir a menor falta. “Aprendi muito naquela posição, mas fiquei feliz de recuperar minha liberdade de expressão. Era preciso me encaixar num perfil diplomático.” Alexandra resume a experiência da seguinte maneira:

“De uma hora para outra passei a ser tratada com respeito e entrei em um mundo repleto de privilégios. Daí entendi: ah, é claro que ninguém quer dividir esses privilégios todos. É muito confortável, muito gostoso, se acostumar a eles é muito fácil. Mas a realidade é diferente”.

O preconceito se impôs a Alexandra em diversos momentos.

Certa vez, estava hospedada em um hotel em Salvador, mas foi barrada por um segurança - que só voltou atrás ao notar o leve sotaque francês que ela conserva até hoje.

Em outra ocasião, não conseguiu entrar com o filho no clube do qual era sócia, por ter esquecido a carteirinha. A atendente não achava o nome dela na lista de associados - estava consultando a relação de babás. “Não vou pagar para enfrentar preconceito na hora de relaxar”, diz, ao relembrar o caso. A família decidiu trocar de clube.

Em 2017, Alexandra lançou o aplicativo Protagonizo, espécie de LinkedIn só para negros. “Foi uma resposta aos RHs que alegam que não os contratam por falta de candidatos capacitados”, diz. “É claro que não encontram negros no LinkedIn, seus algoritmos também são racistas. Ele não conversa conosco - é feito para brancos engravatados de um certo nível social.

Só quem estudou em faculdades como PUC, USP e Mackenzie se destaca. A plataforma precisa contratar gente com expertise no assunto para compreender por que reproduz o racismo estrutural.” Procurado pela reportagem, o LinkedIn não se manifestou.

Alexandra repete algumas das considerações que endereça aos RHs que recorrem a ela. “O ‘empoderamento’ de um homem branco lhe dá a coragem de afirmar que ele é fluente em inglês mesmo não sendo, enquanto um negro com baixa autoestima talvez não vá mentir”, diz. Segundo ela, não dá para entrevistar os dois da mesma forma.

“Para um branco, tudo bem perguntar o bairro em que ele cresceu, qual é o emprego dos pais. Perguntar o mesmo para um negro é cutucar uma ferida que pode minar sua autoestima. Porque a mãe dele talvez tenha sido empregada doméstica e o pai, ausente. Às vezes é só reformular as perguntas que as resiliências vêm à tona. ‘Como foi chegar à universidade com tantos desafios? Quais foram os pilares do seu ‘empoderamento’?’. Deixe que todos contem a melhor versão de si mesmos.”

Por meio do Protagonizo, Alexandra conseguiu empregar em multinacionais 458 pessoas - 7 mil negros com mestrado e doutorado se cadastraram. Finalista do Prêmio Tela Viva Móvel de 2018 na categoria utilidade pública/inclusão social, o aplicativo saiu do ar por falta de patrocínio.

“Tenho vontade de chorar quando lembro desse projeto”, diz. Seriam necessários R$ 300 mil para os ajustes finais e outros R$ 600 mil a cada ano, para custear uma equipe de dez pessoas.

A empresa da qual mais se orgulha, entre aquelas para as quais prestou consultoria, é o Carrefour. “É a única companhia no Brasil na qual 58% dos funcionários são negros e 18% dos cargos de liderança pertencem a eles”, afirma.

“Não é o caso do Grupo Pão de Açúcar, em cujas unidades tem sempre um segurança atrás de nós. Há um trabalho urgente para ser feito nessa rede”, emenda, lembrando do jovem negro que foi morto no ano passado em uma loja carioca do Extra, que pertence ao grupo, asfixiado por um segurança.

Procurado, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) informa, em nota, que não orienta os times de segurança para atitudes discriminatórias ou desrespeitosas e as condena em seu Código de Ética e na política de diversidade e direitos humanos do grupo.

“Em casos de denúncias sobre condutas ilegais ou antiéticas, o GPA possui um canal de ouvidoria, responsável por realizar a apuração completa do tema, garantindo, inclusive, o anonimato do denunciante”, conclui.

Segundo ela, 55,8% dos brasileiros se autodeclaram negros ou pardos, o que hoje corresponde a 117 milhões de pessoas.

“Consumimos no Brasil R$ 1,9 trilhão por ano, mas a família que faz a propaganda da margarina não é negra”, diz. “Isso demonstra o quanto algumas empresas preferem ser racistas a capitalistas. Escolhem falar só com uma parcela da sociedade.”

De acordo com uma análise da consultoria McKinsey, companhias que abraçam a diversidade étnica e cultural costumam faturar até 33% a mais. “Se você deixar o desenvolvimento de produtos e o marketing só nas mãos de homens brancos, jamais vai dialogar com a verdadeira população brasileira.”

Lidar com os preconceituosos, afirma, virou sua expertise. “Tenho muita paciência com eles porque acredito que não há ninguém que não seja racista. Todos fomos criados numa sociedade patriarcal, machista e discriminatória, e precisamos desconstruir nossos preconceitos diariamente.” Alexandra se inclui nessa sociedade.

Não muito tempo atrás, encontrou no sofisticado JK Iguatemi, em São Paulo, uma maquiadora negra a cujos serviços já havia recorrido. Papo vai, papo vem, perguntou se ela trabalhava no shopping. “Não, continuo no mesmo endereço”, ouviu, sem ter onde enfiar a cara.

“Fui preconceituosa, estava supondo que uma negra no JK Iguatemi devia ser uma funcionária do shopping, e não uma cliente”, afirma. “Não é porque discuto essa temática o tempo todo que não sou impactada pela imaginário que nos cerca.”

Nas últimas semanas, Alexandra tem dedicado parte de seu tempo à amiga Gloria Coelho, acusada recentemente de desmerecer modelos negras - a estilista também se opôs a cotas para elas em desfiles da São Paulo Fashion Week. “Ela reconheceu as atitudes preconceituosas e que precisava de alguém com expertise para ajudá-la a ingressar nesse novo mundo”, diz.

Erra quem imagina que Alexandra pega leve com a amiga. “Meu trabalho não é deixar a poeira baixar, passar pano na cabeça. É apontar onde está o racismo estrutural e ajudar a transformá-lo”, diz. “A Gloria não se acha racista.

Mas está fazendo o mesmo que o Karl Lagerfeld [1933-2019, estilista alemão], um continuador da obra do Hitler [1889-1945], criador do transtorno da anorexia, do padrão da mulher loira de olhos azuis, que corresponde a uma porcentagem ínfima da população mundial. E todo mundo batendo palma nos desfiles.” Gloria não comentou as declarações de Alexandra nesta entrevista.

Aos interessados em se despir de preconceitos, ela prescreve dois documentários didáticos da Netflix. “A 13ª Emenda”, que debate a correlação entre a criminalização da população negra dos EUA e o boom do sistema prisional do país, é um deles. O outro é “Alô, Privilégio? É a Chelsea”, no qual a comediante Chelsea Handler questiona o quanto a cor da pele abre e fecha portas.

“Antes de incluir, é preciso entender de que forma a exclusão foi feita até agora. É preciso se olhar no espelho - o que é muito doloroso. Soa radical, mas significa assumir que você é um supremacista branco, que compactua com muitos raciocínios nazistas”, afirma.

“Se 55,8% da população brasileira é negra, de que maneira essa porcentagem está representada na sua vida? Onde estão os 55,8% de negros no seu churrasco, no seu aniversário? Curtindo com você ou trabalhando? E na sua escola? E no seu trabalho? Com quantos negros você namorou? Quantos ‘likes’ deu no Tinder para eles? Para mudar o mundo, são essas reflexões que precisamos fazer”, diz.

As cotas, na sua visão, são humilhantes, mas necessárias. “Da mesma forma que os alemães de hoje não são responsáveis pelo Holocausto, os brancos de hoje não são responsáveis pela escravidão. Mas somos todos responsáveis por reparar essas duas injustiças.”

A ex-consulesa tem sido chamada para comentar os protestos deflagrados pela morte do afro-americano George Floyd, asfixiado pelo policial branco Derek Chauvin em maio. “Não precisamos ficar zen o tempo todo e deixar nossos irmãos sendo mortos, asfixiados, vitimados por balas perdidas.

E hoje não é só o negro que precisa ir para a rua - é também o branco.” Alexandra recorre a uma célebre frase da filósofa Angela Davis: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

Alexandra tem se emocionado com os paredões formados por brancos em alguns dos protestos para proteger os negros da ação da polícia e com as imagens de policiais americanos ajoelhados, em respeito à morte de Floyd.

“É o caminho a ser seguido, deve-se pedir perdão por tantos séculos de violência.” Para quem acha que os protestos passaram do ponto, Alexandra diz: “Se você está mais preocupado com coisas que são quebradas do que com vidas que são perdidas, você faz parte do problema”. Na sua visão, o racismo é mais letal que a covid-19.

Por que a morte do carioca João Pedro, de 14 anos, alvejado em casa por um tiro de fuzil durante uma ação policial não despertou a mesma revolta, entre tantos outros casos com vítimas negras no Brasil? “Aqui é mais difícil ir para as ruas porque a nossa polícia é muito mais violenta e não é processada pelos crimes que comete”, afirma.

Das 6.220 vítimas fatais de ações policiais no Brasil em 2018, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 75,4% eram negras. No mesmo ano, a polícia americana matou 996 pessoas, 20,9% das quais consideradas negras. “A violência contra a gente está normalizada no Brasil.”

“Quando um de nós morre, o imaginário coletivo conclui que devia ser um traficante ou raciocina ‘Que pena, ele estava na favela, e lá é violento’.” Outra razão, diz, se deve ao fato de que o Brasil é o país mais racista do mundo, segundo ela.

“Os Estados Unidos elegeram o Barack Obama, e há muitos negros na mídia e em postos-chave”, diz. “É o que permite que um episódio como a morte de Floyd repercuta no mundo todo e que um movimento como o Black Lives Matter consiga captar milhões para orquestrar ações. No Brasil, o genocídio da população negra é silenciado.”

Ela experimenta a dor do racismo desde o berço. Dos cinco filhos da professora de ioga Jocelyne, sua mãe, a única negra é ela. Os irmãos são todos loiros de olhos verdes e azuis. “Quando vou ficar igual à Odile?”,

Alexandra perguntou aos quatros anos, ávida pelos cabelos lisos e claros da irmã mais velha. Quando voltava da escola chorando por ter sido xingada de “chinetoque”, palavrão usado para discriminar chineses e talvez o único que os colegas conheciam, a mãe fazia pouco caso. “Você está se fazendo de vítima”, dizia.

Feminista engajada em causas sindicalistas, Jocelyne, hoje com 75 anos, formou sua família com quatro homens. Samuel, o pai da futura consulesa, nasceu na Gâmbia, no Noroeste da África. Quando o casal se conheceu ele trabalhava numa empresa de manutenção de helicópteros na França.

Alcoólatra, saiu logo de cena e morreu, sem um dos dentes da frente, quando a filha tinha 15 anos.

Quando viu o pai pela última vez, quatro anos antes, foi levada até a casa dele, onde encontrou um homem em situação tão precária, de cujo mau cheiro não esquece. “Estou ajudando ele”, Samuel explicou. Ao voltar ao endereço depois da morte do pai, encontrou o mesmo homem. E descobriu a verdade: “Esta é a minha casa. Quem estava sendo ajudado era ele”.

Da periferia de Paris, onde passou a infância, foi quase levada aos oito anos, quando o serviço social determinou a adoção dela e dos irmãos. “Minha mãe claramente não estava dando conta de criar tantas crianças sozinha”, lembra. “Ela também não parava em casa, estava sempre trabalhando, vendendo jornal comunista, tentando fazer a revolução.”

Desfeitas as ameaças de adoção, Alexandra foi matriculada em um internato de freiras, onde passou a conviver com meninas da elite. Uma delas, de pai milionário, às vezes a levava de Rolls-Royce até a casa onde Jocelyne morava, uma espécie de banca de jornal com um pequeno depósito transformado em dormitório perto do Mercado das Pulgas, em Paris.

No dia que a colega pediu para usar o banheiro, Alexandra fingiu esquecer do pedido e saiu em disparada - não admitia que a amiga descobrisse que seu banheiro era o chamado turco, aquele que se resume a um buraco no chão.
Mas não restam só lembranças doídas da época.

Na companhia da única vizinha negra da sua idade, se divertia tocando campainhas da vizinhança com o seguinte discurso: “Nosso gato entrou no seu jardim, podemos procurá-lo?”. “Não existia gato nenhum, era só uma história para conhecer a casa de outras pessoas”, lembra, aos risos.“

Tenho uma curiosidade antropológica desde pequenininha.” Aos 17 anos, por meio de um programa de Au Pair, foi morar na Alemanha e em seguida na Inglaterra e nos Estados Unidos. Diplomada em marketing e vendas, cursou o mestrado de gerenciamento de mídias na universidade francesa Sciences Po.

Já ao fim desta entrevista, Alexandra diz ser favorável às remoções de estátuas que homenageiam personalidades associadas ao racismo. “Acho ainda que deveríamos tirar os livros do Monteiro Lobato [1882-1948] das escolas e mudar o nome de vias como Castelo Branco [1897-1967]. Estamos dando protagonismo a pessoas que machucaram muito o Brasil”, concluiu.

Até as estátuas de Gandhi [1869-1948] estão na mira dos que defendem as remoções - o líder indiano escreveu palavras de cunho racista sobre negros da África do Sul, onde viveu. “Não estudei o suficiente para saber se ele merece perdão, mas às vezes não se deve jogar fora toda a jornada de uma pessoa. Talvez ele tenha evoluído”, afirma.

Alexandra lembra da exposição “Pourquoi Pas?” (Por Que Não?), de três anos atrás, que reuniu imagens assinadas por ela de personalidades como Gisele Bündchen e Silvio Santos - todas retratadas como se fossem negros. O intuito era questionar se os escolhidos, caso não fossem brancos, chegariam onde estão. Foi acusada de fomentar o “blackface”, e as críticas mais pesadas partiram de militantes do movimento negro.

“Sei que magoei muita gente e espero que me perdoem e não joguem no lixo tudo que fiz por algo que foi mal interpretado”, diz. “Fiquei 38 anos calada e sou muito grata ao Brasil pelo palco que ele me deu.” Alexandra usa uma antiga expressão: “Não jogue o bebê fora com a água do banho”.

Encerrada a entrevista, em que esteve vestida com calça preta, mocassins de couro da mesma cor e camisa branca de seda - além do par de brincos de ouro, de tamanhos e formatos diferentes, batom vermelho e um bracelete de madeira-, Alexandra posa para fotos. Antes, substitui o figurino por um vestido mostarda folgado. “Fazia tempo que não me achava bonita em uma foto”, diz.


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