terça-feira, 7 de abril de 2020

Os mortos são pessoas, pais, avós, irmãos e filhos

Os números de mortos são menos importantes que as pessoas mortas

O virus mata mais que o câncer, que mata mais que outras doenças...

A fome também mata, o desemprego também mata, os ladrões também matam, o trânsito também mata, e tantas outras coisas... também matam.

Mas, quando eu vejo na TV os comentaristas falando dos números de mortos, fico com a sensação que eles estão falando de contas bancárias, tabela de futebol, e outras coisas triviais...

Eles não falam dos mortos como pessoas...

A Folha faz ótimas coberturas, mostra fotografias, conta histórias, mostra a Paraisópolis, que fica ao lado do "Palácio dos Bandeirantes", duas palavras fortes: Palácio e Bandeirantes. Nos palácios ficavam os reis - absolutistas, acima dos homens e acima de Deus; Bandeirantes, aprendemos nas escolas que "eram desbravadores paulistas que iam caçar índios para escravizá-los e que foram a base do progresso de São Paulo".

Os mortos ricos viram nomes de ruas e de cidades, os mortos pobres ficam apenas entre os familiares e os amigos... Os pobres moram nas periferias e estão morrendo menos do que os ricos, nesta fase do virus...

Mas, há um medo contido de que o virus caia sobre os pobres, matando milhões deles, dizimando famílias e comunidades. Os matemáticos e calculistas já fizeram várias projeções e o próprio governador vem usando algumas projeções para obrigar o povo a ficar em casa. Se ficar em casa de classe média, cumprindo quarentena já é um inferno, imaginem nas favelas, nos cortiços, nas periferias....

Os mortos dos ricos também merecem nossas preces e nossas condolências, mas não podemos deixar de lembrar que as dezenas, centenas e milhares de mortos SÀO PESSOAS... são pais, avós, irmãos, filhos e amigos...

Na semana passada perdemos João Felício, de câncer. Hoje, perdemos o contador da Bancredi, grande colega de trabalho, bom profissional, bom contador. Julio era um grande companheiro. Jovem, dia 23 deste mês completaria 43 anos, tem esposa e filho. Foi levado pelo câncer. Que aprendeu com o virus e levou Julinho num vapt-vupt...

Eu vi na Folha que o virus chegou em Nova Soure, cidade de 28 mil habitantes, no interior da Bahia. Cidade pobre mas que tem como filha ilustre a nossa colega Juvândia Moreira, presidente da Contraf-CUT e ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo. Uma grande liderança.

Quando Chico Mendes foi assassinado a mando dos latifundários o Brasil e o mundo se levantaram contra mais um assassinato no campo. Era na época da ditadura militar e o fato de existir a CUT e a Igreja progressista facilitou a defesa da vida de Chico Mendes.

Com a criação de organizações para representar os trabalhadores, os camponeses, os povos das florestas, os pobres, a classe média, enfim, TODOS PASSARAM A TER VEZ E VOZ.

Passaram a ser CIDADÃO. Passaram a ser lembrados por todos no Brasil e no mundo.

Portanto, vamos valorizar a ciência, valorizar a estatística, a física quântica, mas vamos lembrar que são as pessoas que descobrem as ciências e estas ciências precisam ser usadas para a vida e para a solidariedade.

Por isto, eu gosto de lembrar que a Folha está fazendo uma boa cobertura da crise. Por que, para a Folha, os números são fundamentais, mas as pessoas são imprescindíveis...

Isto é jornalismo.


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