sábado, 18 de abril de 2020

A entrevista do ano: Governo Bolsonaro não tem capacidade de liderar

Compartilhamos o mesmo Brasil, o mesmo planeta, a mesma pandemia

Leiam importante entrevista!
Vejam que forma interessante de pensar o Brasil e o mundo.

Se o Datafolha fizer uma pesquisa nacional perguntando o que o povo acha das afirmações desta entrevista, com certeza mais de 70% dirão que concordam com o que é dito nesta entrevista.

Como "o milagre é mais importante que o santo", vocês verão que, neste caso, tanto o milagre como a santa são importantíssimos.

Leiam, leiam e comentem depois.

‘Governo Bolsonaro não tem capacidade de liderar’

“Em 2019 houve uma desqualificação de áreas fundamentais no Brasil:
- desqualificação da educação, desqualificação das universidades, desqualificação da ciência, desqualificação das áreas de proteção social, do meio ambiente, das populações tradicionais e indígenas”...

Há um vácuo político deixado pelo Executivo tem sido ocupado pelo Congresso, por alguns governadores e prefeitos e por políticos de diversos partidos que estão buscando dialogar e encontrar pontos de convergência.
“Fiquei muito feliz com a iniciativa do Itaú Unibanco de doar R$ 1 bilhão em iniciativa de apoio à saúde no combate à crise anunciada esta semana, mas afirma que “só isso não resolve”.

Defendo a necessidade de políticas públicas em saúde, educação e proteção social, além do apoio continuado do setor privado depois que o pior tiver passado.

“As pessoas estão passando fome e vão continuar passando fome depois.”
Fim do isolamento requer estratégia de saída, diz especialista · Na área da educação, a preocupação também é com o momento da volta às aulas. Serão necessários programas de reforço escolar e de aceleração da aprendizagem para alunos da rede pública.

Várias soluções emergenciais estão sendo pensadas para ajudar famílias na periferia que têm pouco crédito em seus celulares e não têm acesso a internet boa e gratuita. “Estão se buscando alternativas com a TV aberta. Se as teles abrissem a banda larga para o acesso na periferia seria de grande ajuda”.

O mundo pode se tornar mais xenófobo, mais controlador e mais totalitário com a pandemia. “Mas está mais forte a consciência de que nós somos totalmente interligados. E que dividimos um planeta comum. Se não olharmos para isso estamos condenados.”.
Você menciona nunca ter visto uma mobilização empresarial como esta antes, no Brasil. O que motiva o setor privado neste momento?

Nunca vi esta movimentação em 30 anos de atuação na área social. Muitas pessoas que não estão ligadas a nenhuma organização institucionalizada estão tentando contribuir. É um aporte muito maior de recursos.
O Brasil tem uma tendência de se mobilizar nos dramas, nos deslizamentos, nas enchentes. Mas agora, como todos se sentem pessoalmente atingidos, a resposta é muito diferente.

Há uma demanda grande por cestas básicas. Já há muita gente passando fome? Quem são essas pessoas?

Há uma demanda emergencial, que é assistencial, por cestas. Um degrau a mais em termos de cidadania são os cartões, porque é uma maneira de dar autonomia às famílias e movimentar a economia local. Ambos são válidos e é preciso fazer isso.

Quando se veem os vídeos das pessoas que recebem estas doações, são pessoas miseráveis, infelizmente. As pessoas já estão passando fome e ao sair desta crise irão continuar a passar fome.

O Estado tem que ser forte o suficiente para dar políticas públicas nas áreas de saúde, educação, proteção social”

Os empresários continuarão a apoiar na retomada?

O setor privado não pode se abster de continuar com esse processo de reduzir a fome e ajudar na saúde e na educação. Mas se o setor privado tem papel muito importante, o maior papel é do Estado.

Fico muito feliz com a doação de R$ 1 bilhão do Itaú Unibanco esta semana, mas R$ 1 bilhão não vai resolver o problema da saúde no Brasil. Foi importantíssimo, uma grande decisão, mas só isso não resolve.

O que vai resolver é que o Estado tem que ser forte.

Não é maior, menor, mínimo, não é isso. O Estado tem que ser forte o suficiente para dar políticas públicas nas áreas de saúde, educação e proteção social.

Como vê a atuação do governo Bolsonaro nesse sentido?

Infelizmente acho que esse governo não tem capacidade de liderar o que seria necessário em termos de políticas públicas. Demonstrou o ano passado inteiro que não tem, pelo contrário.

Em 2019 houve uma desqualificação de áreas fundamentais. Desqualificação da educação, das universidades, da ciência, das áreas de proteção social, do meio ambiente, das populações tradicionais e indígenas.

Ameaçou sair do Acordo de Paris e não saiu por conta de pressão externa, dos próprios ruralistas e da ministra de Agricultura, Tereza Cristina, que manteve firmeza nesse ponto. Então, a experiência de um ano mostrou que esse governo não tem capacidade de liderança para articular políticas públicas, que o Brasil precisaria em condições normais. No momento da crise, menos ainda.

Mostrou-se completamente impotente e sem liderança para assumir as decisões e orientações que o país precisa neste momento.
Então enfrentamos a maior crise desta geração em um país com graves desigualdades e sem liderança?

Neste momento acredito que vamos depender de governos estaduais, das Prefeituras das grandes capitais. E de alguns ministros, como foi na atuação de Mandetta [Luiz Henrique Mandetta, demitido ontem por Bolsonaro]. Ele teve questões, desfez o Mais Médicos [programa lançado pelo governo Dilma e que levou 11 mil médicos cubanos em áreas carentes de profissionais] mas não vou entrar neste mérito.

No momento que foi necessário, Mandetta teve liderança forte, clara e firme. Fez um trabalho sério e comprometido, com ótima comunicação. Não conheço Nelson Teich [o novo ministro da Saúde)], sei apenas que é oncologista, então não posso emitir opinião. Mas espero que continue o trabalho do ministro Mandetta.

A crise atual diluiu a polarização política dentro do setor privado?

Diria que sim. Mas não sei dizer se empresários mais de apoio bolsonarista estão contribuindo com alguma coisa. Não vi, mas não quero ser injusta, eu não sei.

O que posso dizer é que não vejo politização nas doações.

Teme-se convulsão social?

Sim. É bom lembrar que antes disso tudo - parece ter sido em outra era - havia as manifestações no Chile. Os empresários estavam atentos àqueles movimentos. E aqui não faço nenhum julgamento de valor: tem gente que contribui e faz doações por uma questão humanitária e de solidariedade, e há outros que o fazem por uma questão pragmática, para que não haja risco de invadirem “a minha casa, o meu supermercado”.

Tem crescido o debate em torno da taxação das grandes fortunas, há projetos tramitando no Congresso. O que pensa disso?
Falei isso publicamente, em 2014.

É um ponto de vista completamente pessoal: eu sou publicamente a favor da tributação das grandes fortunas, a favor da tributação de dividendos, a favor de uma reorganização progressiva do Imposto de Renda, que é regressivo. Também acho que essa é uma discussão dentro de um quadro maior. Mas não dá para de um dia para o outro fazer isso, porque em alguns países que fizeram assim, as grandes fortunas foram embora.

Eu acho isso urgente, mas não sou da área de economia.

É preciso ter uma visão do todo da tributação e ir fatiando, porque talvez o pacote todo não possa ser votado de uma vez.

O imposto progressivo irá atingir a classe média também.

O que quero dizer é que sou a favor, é urgente mas tem que ver quais os impactos e as consequências.
Dividimos/compartilhamos um planeta. comum. Humanos, árvores, animais. Se não olharmos para isso estamos condenados”

O espaço da política é onde se consegue fazer mudanças mais estruturantes.

Hoje o que vemos é uma falta de liderança do Executivo.

O Congresso, que se diz que é formado por políticos todos ruins e medíocres, acho que é um reflexo da sociedade. E foi quem conseguiu, desde o ano passado, tomar uma direção e onde se conseguiu estabelecer diretrizes para o país.
Estamos vendo algumas articulações de um grupo de conservadores liberais para a esquerda. Políticos de diferentes partidos estão buscando alguma conversa neste vazio político.

O que está acontecendo hoje com os estudantes do ensino público?

Escolas que atendem a classe média e a classe alta tiveram que se reinventar. Os pais estão mais perto das crianças menores e dos jovens e também passaram a valorizar mais os professores, perceberam que não é fácil. Tem que ter muita ajuda dos pais. Falo isso pra mostrar a quase impossibilidade de a gente transformar este modelo para as populações mais vulneráveis.
Está havendo um grande esforço, das fundações, dos secretários de educação, do Conselho Nacional de Educação e outros para oferecer algo aos alunos.

Tem Whatsapp, criaram apps, e é verdade que todo mundo tem celular. Só que nas favelas e nas periferias, o crédito do celular é muito pequeno. Não dá conta de um vídeo de uma aula por mês.

Está se buscando alternativas com a TV aberta. Se as teles abrissem a banda larga para o acesso das escolas de periferia, seria de grande ajuda, mas não sei se isso é possível.

Há diversos modelos em estudo. Não dá para fazer o mesmo modelo do Amazonas para comunidades ribeirinhas com o pessoal do Rio Grande do Sul. Está tendo uma mobilização rápida, ordenada e coordenada.

Algumas prefeituras começaram a mandar lição de casa para os pais, queriam que imprimissem. Os pais não sabem ajudar e não querem usar o seu pouco crédito de celular para as lições das crianças.

Estamos preocupados com a volta às aulas. Está se pensando em programas de reforço escolar e de aceleração de aprendizagem.

O que há são grandes desigualdades educacionais.

A pandemia escancarou as desigualdades sociais.

O pesquisador Paulo Moutinho, do Ipam, disse em entrevista a “O Globo” que “desmatador não faz home office”. Os alertas de desmatamento do Inpe estão em tendência de alta.

Tem um desmonte que já vinha de governos anteriores, mas isso se acentuou de modo absurdo ano passado. Dá arrepio quando a gente olha e vê a destruição da Amazônia, a desqualificação das populações indígenas e a valorização do garimpo. É dramática também esta situação.

Povos indígenas, quilombolas, pessoas nas periferias estão mais vulneráveis porque não há política no momento para protegê-las. Mas eu queria falar também uma visão otimista.

Está mais forte a consciência de que nós somos totalmente interligados.

Não adianta subir muro porque o vírus vai ultrapassar.

A pandemia vai acelerar uma conscientização das mudanças climáticas, acredito.

Porque vai se perceber que uma coisa que aconteceu lá na China nos afeta aqui. O que acontece lá em Paraisópolis, também me afeta. Dividimos um planeta comum. Nós seres humanos, as árvores, os animais.
Tudo isso é parte de um sistema comum. Se não olharmos para isso estamos condenados. Espero que os ambientalistas também dialoguem mais com o ecossistema da economia.

Queremos que o Brasil se desenvolva, queremos uma sociedade mais inclusiva e para isso precisa economia e meio ambiente. Tem que ter a floresta em pé mas tem que ter a economia da biodiversidade.

O mundo pode se tornar mais xenófobo, mais controlador, mais totalitário. Isso está colocado. Há fechamento de fronteiras.
Mas o que eu quero falar é que a pandemia também traz um sentimento de pertencimento ao local onde se está, e isso é interessante.

Esta interessantíssima entrevista, que eu não identifiquei quem é a entrevistada para provocar os leitores. É muito comum a gente só ler artigos quando a gente conhece o autor, relevando o assunto...
Esta entrevista está publicada no jornal Valor, deste final de semana, 17/04/2020 e a entrevistada é Maria Alice Setúbal, conhecida como Neca Setúbal, socióloga, uma das herdeiras do Banco Itaú. Neca é presidente da Fundação Tide Setúbal e presidente do GIFE – entidade que representa 170 fundações empresariais. A jornalista Daniela Chiaretti, que a entrevistou está também de parabéns.

Muitos irão dizer que “dar entrevista é fácil, difícil é fazer”.

Imagino que, se a Datafolha fizer uma pesquisa nacional, perguntando se os brasileiros concordam ou não com as declarações de Neca Setúbal, com certeza 75% vão dizer que SIM.

Se sabemos o que o Brasil precisa, porque não podemos fazer uma “Trégua pela Vida, pela Saúde e pelo Brasil”, e constituímos comitês como foram feitos na Campanha contra a fome, organizada por Betinho, irmão de Henfil?

Para superar os impasses, alguém precisa dar o primeiro passo. Eu acho que Neca Setúbal, mais do que um passo, ela está disponibilizando uma vida para, juntos, construirmos um Brasil melhor... O Brasil dos nossos sonhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário