sábado, 28 de março de 2020

O Brasil não conhece o Brasil, a China também não

 Como entender o Brasil?

Depois de o jornal Valor publicar uma resposta do chefe do Itamaraty ao ensaio de Philip Yang sobre a China - eu não comentei antes por considerar a resposta governista muito fraca - fui surpreendido com novo texto/artigo sobre o Brasil e a China. O autor desta vez é do diplomata que morou 12 anos na China Marcos Caramuru de Paiva. 

Marcos Caramuru de Paiva:

Como entender a China

Fatores principais que impulsionaram o país asiático foram alto nível de poupança, empreendedorismo e bom governo

Por Marcos Caramuru de Paiva — Para o Valor
27/03/2020 05h01 

Nos meus 12 anos de vida na China, ouvi frequentemente a pergunta: por que o Brasil, tão rico em recursos, não deslanchou? Sempre enxerguei nos que me indagavam a expectativa de que eu lhes oferecesse uma resposta direta e simples. Impossível.

Os chineses são de uma objetividade arrasadora.

Frequentemente procuram explicações concisas para dúvidas que não comportam concisão. Além disso, como vivem numa sociedade com elevadíssima uniformidade de valores e abraçam a ideia confucionista de que no governo comanda uma elite - se ela não operar satisfatoriamente, muda-se a elite -, têm dificuldade de entender a diversidade em outras realidades e explicar por que razão outros países não conseguem ter o êxito do seu.

Encontrei a mesma pergunta, em diferente versão, num artigo denso e bem estruturado, assinado por meu colega Philip Yang, publicado no Valor (“O que o Brasil Quer da China?”, 14/2).

A indagação central dele é: “O que terá impulsionado o crescimento econômico tão excepcional da China e tão pífio do Brasil” nas últimas décadas?

Se tivesse a concisão chinesa, responderia que os três fatores principais que impulsionaram a China foram alto nível de poupança, empreendedorismo e bom governo. No Brasil, o primeiro e o terceiro fator deixaram a desejar.

Não creio, contudo, que um comentário simples seja esclarecedor neste caso. Tampouco tenciono oferecer resposta a Philip Yang. Desejo apenas ressaltar cinco de muitos pontos que, em meu juízo, ajudam a entender a China e como ela se diferencia de nós. Em seguida, comentarei brevissimamente o outro tema tratado por Philip: a cooperação China-Brasil.

Eis os cinco pontos:

1 - A China opera de baixo para cima

O processo de transformação na China está, em larga medida, na mão dos gestores locais. É essencialmente deles a tarefa de mudar a realidade. Administrar bem uma prefeitura é requisito central para ascender na vida político-partidária. Por isso, os prefeitos estão sempre atentos ao que fazem outros prefeitos, literalmente seus concorrentes. Quem toma a iniciativa de uma obra ou de um projeto é, via de regra, a autoridade local. Em alguns casos, há autorizações de instâncias superiores, mas a iniciativa local está na essência da gestão pública.

Os governos provinciais não têm, como os Estados no Brasil, o papel de executores de projetos. Eles guardam uma visão mais ampla da realidade. Entram, aqui e ali, em parceria com as municipalidades, mas não põem a mão na massa.

Os tributos na China são coletados pela subprefeitura: o bairro. Este retém a parcela que lhe cabe e remete o restante aos níveis superiores. Além disso, é da municipalidade a receita da venda da terra para empresas e construtoras. Ou seja, as municipalidades têm um elevado grau de independência financeira.

2 - A China acredita em competição entre empresas públicas

As estatais exercem um papel central na economia, mas o Estado não tem a prática de criar estatais monopolistas. Os bancos concorrem entre si, as empresas de petróleo também e assim por diante. Quando a China resolveu iniciar uma indústria aeronáutica, fundou duas empresas: a AVIC1 e a AVIC2.

As estatais podem ter ramificações em diferentes províncias e as ramificações de uma mesma empresa podem concorrer para a execução de projetos. Além disso, muitas vezes é uma ramificação de uma grande empresa - não a sede - que encontra e opera oportunidades no exterior.

Paradoxalmente, não há grande objeção à formação de monopólios ou oligopólios no setor privado.

3 - A China não teme o risco

O Ocidente tornou-se obcecado com avaliação de risco e mapeamento das realidades. Os chineses têm maior flexibilidade. As empresas entram em muitos projetos mais focadas no negócio do que atentas ao risco. A poupança elevada dá espaço para isso.
O governo, por sua vez, deixa novas iniciativas florescerem livremente, para apenas regulá-las mais adiante. A regulação não se antecipa à experiência.
Veja-se o caso recente das fintechs: os reguladores adotaram uma atitude bastante liberal, deixando que abrissem sem ou com baixo controle. Mais de 3 mil fintechs chegaram a operar. Muitas delas entraram em colapso ou tiveram uma gestão fraudulenta, prejudicial aos poupadores que nelas investiram. O número reduziu-se a algo em torno de 700.

O governo, então, passou a um processo de monitoramento caso a caso, de modo a disciplinar o negócio. Mais recentemente, distanciou o poupador individual das fintechs - os investidores devem ser fundos e instituições financeiras - e está buscando conduzir os bancos locais de menor dimensão a realizar o trabalho originalmente executado pelas plataformas P2P.

4 - O setor público lança usualmente iniciativas pilotos antes de tomar rumos definitivos

A ideia de experiência piloto é central nas políticas públicas. Se funcionar bem, será replicada. Exemplo: há alguns anos, o governo resolveu autorizar uma nova zona de livre-comércio em Xangai, que operasse sem as regras de controle de capital vigentes no país. Tiradas as conclusões da experiência, ela foi introduzida em diversas outras cidades.

Experiências pilotos não funcionam em países onde as políticas costumam precisar de aprovação legislativa e onde experimentos governamentais são rejeitados por princípio. Os chineses entendem que nem sempre é possível ex ante conhecer o impacto de políticas e ações governamentais. Convivem bem com isso.

5 - A China soube fazer uma releitura do marxismo-leninismo, adaptá-lo aos tempos modernos

O país acredita dispor de um modelo em execução, sem respostas para todos os desafios, mas com uma mistura inovadora de disciplina e liberdade. Acima de tudo, a China se vê destinada a um papel de liderança global. Para isso, precisa ousar.
Há tempos, ouvi de um acadêmico renomado chinês que a América Latina não formulou um projeto próprio. Buscou copiar o mundo desenvolvido. A política de substituição de importações, em sua visão, é um exemplo clássico disso.

Os chineses, por sua vez, identificaram suas vantagens comparativas e seu potencial para produzir uma realidade nova. O comentário é um tanto reducionista, mas carrega algo de verdadeiro.

O fim dos anos 1970 foi o período em que a China começou sua transformação. No Brasil, nesse mesmo período, iniciou-se a modernização da agricultura com a abertura de fronteiras no Centro-Oeste. É interessante observar como, de um lado, o exitoso agronegócio brasileiro e, de outro, a China moderna acabaram criando uma conexão. Ela não foi projetada. A realidade a construiu.

O Brasil foi o primeiro país do mundo com quem a China estabeleceu uma parceria estratégica, em 1993. A modernização da China e o fortalecimento de seus interesses na esfera mundial, assim como os sucessivos solavancos da vida econômica brasileira foram levando a parceria a se tornar mais uma referência do que uma realidade.
Nosso relacionamento bilateral é focado em pontos pragmáticos: comércio e investimentos. Guarda relevância para os dois países: exportamos bens essenciais para a China, a China investe em segmentos essenciais para nós, como o setor elétrico. Detém o controle de uma empresa energética com o peso da CPFL.

É claro que podemos fazer mais e melhor, atentos, sobretudo, aos segmentos inovadores como tecnologia digital, cidades inteligentes, inteligência artificial.

Como na China o Estado costuma desenvolver uma visão do futuro e tem a capacidade de transformar pensamento em ação, muitos tendem a crer que na nossa relação bilateral requer mais planejamento. Difícil para o um país como o nosso, com pequeno espaço para refletir sobre o longo prazo. De baixa prioridade para a China, que administra uma teia de relações internacionais bem mais complexa do que a nossa.

O que precisamos é saber operar bem uma agenda tão densa como possível, moderna e dinâmica, com expectativas realistas de resultados. Manter com as autoridades chinesas um diálogo frequente, razoavelmente estruturado, aberto e isento de visões pré-concebidas ou de influência ideológica.

Marcos Caramuru de Paiva é ex-embaixador em Pequim, sócio e gestor da Kemu Consultoria


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