quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Guerra suja com diplomacia falida - ontem e hoje

Herança das Guerras Mundiais

Hoje a imprensa está noticiando as comemorações sobre as Guerras Mundiais. O encontro dos presidentes e primeiros ministros está acontecendo em Jerusalém - Israel. Falar dos 75 anos da libertação pelos russos do campo de concentração e extermínio, localizado em Auschwitz - Polônia, necessariamente tem que falar da importância dos principais países na luta contra o nazismo. Inglaterra liderou a resistência desde o primeiro momento; a França brincou de guerra, mas não suportou uma semana de batalhas e cedeu como já tinha cedido em 1870...

Os Estados Unidos no início "fingiu de morto", apoiou indiretamente a Inglaterra, mas teve que entrar na guerra, mesmo sem ter seu território bombardeado. A Rússia, que mais de uma vez teve sua importância estratégica destacada por Churchill, demorou de entrar mas quando foi invadida mostrou ao mundo como se podia derrotar ditaduras sangrentas. Morreram mais militares russos do que todos os judeus, o total de mortos russos foi o maior de toda guerra e o maior da história da Europa. Os alemães perderam vergonhosamente dos russos.

Depois da guerra mundial, veio a "guerra fria", com guerras de libertação, e guerras de dominação... Com a implosão do império soviético, os Estados Unidos passaram a reinar sozinhos e a ter seus prepostos em vários países, mesmo que tivesse que acabar com as democracias, em nome de se combater os inimigos comunistas... O Brasil teve, e tem, papel estratégico de apoio e subordinação aos americanos na América Latina.

Chegado ao trabalho, constatei que, no meu blog vários pessoas acessaram um texto publicado em 09 de junho de 2013, falando sobre o Brasil e Egito. Por curiosidade, li a íntegra e achei muito importante reproduzi-lo hoje...

Vale a pena ler de novo...


Brasil e Egito – Democracia de Conveniência

Ou o Voto vale ou o Voto não vale

Nos anos 70, em pleno auge da Ditadura Militar brasileira, quando estudava na FGV-SP, ao começar a atuar no Centro Acadêmico, um dos líderes perguntou-me que tipo de Democracia eu defendia. Eu prontamente respondi: Uma Democracia sem adjetivos!

Não existe meia democracia, ou a tal da democracia operária ou a democracia burguesa. Ou se aceita o voto universal onde todos têm direito de escolher livremente seus representantes ou não é democracia. É qualquer coisa, menos democracia.

Ainda na ditadura militar brasileira, eu sempre disse que não tinha medo nem de comunistas nem de fascistas. Numa democracia, ambos seriam relegados a votos minoritários e o centro seria amplamente vitorioso. A Democracia brasileira atual provou isto. Os partidos comunistas quase que não existem e os fascistas estão camuflados como DEM, PPS e outras preciosidades religiosas...

Mas o mundo está aí nos ensinando o tempo todo. Atualmente é o Egito que está pegando fogo. Tive que visitar meus pais, por motivos de saúde e aproveitei para levar dois livros para ler.

Curiosamente um era sobre o século vinte, “O Chalé da Memória” de Tony Judt, uma obra prima que comentarei em outra oportunidade. Mas o outro livro é mais antigo mas ironicamente é mais atual do que qualquer outro livro que tenho visto. É um livro que analisa “O Antigo Regime e a Revolução” Francesa de 1789 e o autor é Alexis de Tocqueville. Todo mundo deve ler. Parece que está falando do mundo atual, isto é, analisando 2013...

Voltando ao Egito e ao Brasil, leiam este bom artigo de Clovis Rossi. É a única pessoa na imprensa que está tendo coragem de abordar o assunto com seriedade. Os principais articulistas preferem o Golpe Militar e Civil no Egito à Democracia que elegeu pela primeira vez um muçulmano como presidente de um país islâmico.

No Brasil, e na imprensa, tem muita gente estimulando que também se dê um golpe, militar ou jurídico, para acabar com a hegemonia popular e voltar ao neoliberalismo onde os pobres voltarão a morar nas periferias e pararem de viajar de avião.

Clovis Rossi ainda vive e continua humanista. Pena que estamos ficando velhos...

A inaceitável caça ao islamismo

Interditar a via eleitoral a partidos islâmicos
só pode dar certo se se aceitar ditaduras

Folha – Clovis Rossi – 07/07/2013

O golpe no Egito reabriu a temporada de caça aos islamitas, do que dá prova a prisão não apenas do presidente Mohammed Mursi --presidente legítimo, é sempre bom deixar claro--, mas também de um punhado de lideranças de seu partido e da Irmandade Muçulmana, a matriz de todos os grupos islâmicos no Oriente Médio.

É não apenas condenável como cria o risco, se se estender, de marginalizar a participação político-eleitoral de mais ou menos um quarto da população mundial, a que é seguidora do islã.

No caso específico do Egito, movimentos islâmicos ficaram nos dois primeiros lugares na eleição parlamentar, a primeira democrática na história do país: o Partido Justiça e Liberdade, braço eleitoral da Irmandade, levou 43,4% dos votos, enquanto o mais radical Al-Nour recebeu 21,8% da preferência.

Portanto, dois terços dos egípcios confiam nos partidos de fundo islâmico. É verdade que o Al-Nour juntou-se aos protestos contra Mursi, mas não por discordar de seu islamismo e, sim, para aproveitar o desgaste do presidente para "tomar a dianteira junto ao segmento islamita da população", como escreve Nathan Brown, do Programa de Oriente Médio do Instituto Carnegie.

Derrubar Mursi pode ter sido festejado pelos liberais laicos que a ele se opunham, mas manter a Irmandade longe do poder só se alcançará se o Egito continuar sendo a ditadura que sempre foi, exceto nos últimos 12 meses.
Veja-se, por exemplo, a análise de Avi Issacharoff para o sítio "The Times of Israel", país que acompanha com lupa tudo o que ocorre nos vizinhos e, geralmente, tem uma percepção mais aguda do que no Ocidente mais distante:

"O movimento [a Irmandade Muçulmana] permanece o maior e mais forte corpo político no Egito. De fato, se outra eleição presidencial fosse realizada hoje, a Irmandade ainda teria a melhor chance de vencer."

Além de indecente, o golpe não resolve, como é óbvio, os problemas que minaram a gestão Mursi.
Escreve, por exemplo, Marc Lynch (George Washington University):

"Ninguém deveria celebrar um golpe militar contra o primeiro presidente egípcio livremente eleito, não importa quanto ele tenha fracassado ou quanto se odeie a Irmandade Muçulmana. Tirar Mursi do campo não chegará nem perto de enfrentar as falhas que infernizaram a catastrófica transição egípcia nos últimos dois anos e meio. A intervenção militar é uma admissão do fracasso de toda a classe política egípcia, e os que agora celebram provavelmente já sabem que eles podem logo mais arrepender-se do golpe."

Interditar o islamismo, teme o sítio geoestratégico Stratfor, pode levar grupos mais radicais "a abandonar a política convencional em favor da luta armada", como de resto aconteceu na Argélia, nos anos 90, em circunstâncias parecidas.
Tudo somado, a melhor lição do que é democracia vem justamente dos perseguidos islamitas, em editorial de seu jornal marroquino, "At Tajdid": "A história demonstra que os islamitas voltam sempre. A solução é dar aos cidadãos o direito de castigá-los ou premiá-los [nas urnas]".
crossi@uol.com.br



Postado por GILMAR CARNEIRO às 20:43

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