quinta-feira, 15 de agosto de 2019

E Deus criou Miles Davis e o Blue...

Deus também criou o homem à sua semelhança

Depois os homens criaram as guerras, as migrações e as escravidões...

No caso dos negros e negras que foram para os Estados Unidos, ante a violência dos brancos, depois ajudou os negros a criarem o Blue e o Jazz, obrigando assim,os brancos a reconhecerem que há gente que sabe mais que outra, cabendo a cada um ser bom conforme sua história de vida. Os negros conquistaram o direito de criar e mostrar sua arte, sua história... sem precisar entrar pela porta do fundo.

Hoje, num dia de notícias ruins nos jornais impressos, o Caderno 2 do Estadão, como sempre, trás um belo artigo sobre os 60 anos do disco brilhante de Miles Davis. Leiam o belíssimo artigo de Alberto Bombig.


‘Kind of Blue’, obra-prima de Miles Davis,

completa 60 anos como álbum mais vendido do jazz
Tal sucesso, em grande parte,
decorre da simplicidade e apelo juvenil da obra

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo - 15 de agosto de 2019 | 07h00

Na manhã do dia 17 de agosto de 1959, o pianista Warren Bernhardt, então estudante da Universidade de Chicago (EUA), estava ansioso: “Eu me lembro de me plantar na loja de discos (...) Ficamos, eu e um bando de caras, esperando que os discos fossem descarregados do caminhão. Compramos no minuto em que foi lançado”. Desde então, há exatos 60 anos, Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis, vem influenciando corações e mentes e abrindo o portal mágico do universo do jazz para milhões de jovens.

O depoimento de Bernhardt, que acabaria por seguir a vida nos (des) caminhos do jazz, do pop e da música clássica, está no livro do jornalista americano Ashley Kahn sobre o lendário álbum de Miles, gravado em março e abril de 1959 em Nova York e lançado no verão americano daquele ano pelo selo Columbia Records. Na ocasião, a revista Down Beat, uma das mais respeitadas publicações de gênero, saudou assim a novidade: “Este é um álbum fora do comum”. Profética.

Os feitos do “sessentão” são impressionantes: é o disco de jazz mais vendido da história (cerca de 5 milhões de cópias), com lugar assegurado em todas as listas dos melhores de todos os tempos. Neste aniversário, Kind of Blue (um “tipo de melancolia”, em tradução livre) celebra mais uma façanha, a de permanecer no topo durante o apogeu e glória de três plataformas de reprodução de música, o vinil, o CD e, agora, o streaming.

Tal sucesso, em grande parte, decorre da simplicidade e apelo juvenil da obra. “Miles sempre quis atingir os jovens, em todos os momentos de sua trajetória”, afirma o crítico e historiador musical Zuza Homem de Mello. Em linhas geralistas, Kind of Blue é a obra mais palatável (e agradável) do jazz ao lado de Time Out (também de 1959), de Dave Brubeck.

Miles entrou no estúdio naquele outono americano disposto a fazer história. Para isso, havia montado um sexteto de monstros sagrados, tendo ele à frente, no trompete: John Coltrane, no sax tenor, Cannonball Aderly, no sax alto, Jimmy Cobb, na bateria, Paulo Chambers, no contrabaixo, Bill Evans, ao piano, e Wynton Kelly (no lugar de Evans em uma das faixas), ao piano.

Nas sessões de gravação, o genial e genioso trompetista foi perspicaz ao deixar os músicos à vontade para captar o clima espontâneo das sessões. Segundo depoimento de Evans, Miles fez os arranjos horas antes de a gravação ter início.

O álbum é o ápice de Miles em sua fase “cool’ e, para muitos críticos, marca a maior revolução do panorama musical protagonizada pelo trompetista, a criação do “jazz modal”. “Trata-se de um jazz muito lógico e ligado às raízes do blues, que é a grande invenção da música americana”, diz Zuza. O guitarrista Lupa Santiago o resume assim: “É o estilo do menos é mais”.

Em 1957, Zuza estudava música nos EUA. Segundo ele, naquele ano, a cena americana do jazz dava sinais de uma busca pela simplicidade. O próprio Miles tinha enveredado por essa toada com os álbuns Birth of Cool e Round About Midnight. O crítico e historiador brasileiro afirma que o conceito do jazz modal já havia aparecido no trabalho e em palestras de George Russel. “Isso não é mera coincidência. É a sagacidade
do Miles em achar um poço de petróleo”, diz Zuza.

Lupa Santiago, hoje um dos mais respeitados instrumentistas do Brasil
, se apaixonou por Kind of Blue no final da década de 90, quando também estudava música nos EUA. “Definitivamente, foi uma porta de entrada para mim e para muita gente. Nunca mais deixei de ouvir o disco. Se você tiver de ter um único disco de jazz, que seja Kind of Blue”, diz. Ele, que também é professor de música, utiliza a obra em seus ensinamentos. “Todos os meus alunos precisam aprender a tocar as músicas do disco.”

A edição original de Kind of Blue trazia cinco faixas: So What, Freddie Freeloader, Blue in Green, All Blues e Flamenco Sketches. Todas sucessos absolutos, com destaque especial para a primeira delas. “É um tema em 32 compassos que resume o jazz modal”, afirma Zuza. Algumas lendas e polêmicas envolvem o disco. A maior delas é a participação de Kelly somente em uma faixa. “Foi um coisa política, Evans era branco e não podia, naquela altura, tocar o blues do disco. Por isso, Miles usou o Kelly”, afirma Lupa. Kelly toca piano na faixa Freddie Freeloader.

Dos participantes de Kind of Blue, apenas Cobb está vivo neste aniversário tão especial. O baterista é uma das principais fontes do livro de Kahn (Kind of Blue – A História da Obra-Prima de Miles Davis), lançado no Brasil em 2007 pela editora Barracuda. “Wynton vinha do Brooklyn (até o estúdio em Nova York) de táxi porque ele não suportava o metrô. Aí ele vê Bill sentado ao piano e fica pasmo! Eu respondi: ‘Espere antes de ir embora, você também está escalado para a gravação’”, contou Cobb ao jornalista americano.

Bill Evans é coautor com Miles de duas faixas, segundo pesquisadores. Blue in Green e Flamenco Sketches, porém, quando o disco foi lançado, apenas Miles aparecia como autor dessas duas joias. Somente anos mais tarde o “erro” foi reparado. Por tudo isso, o aniversário de 60 anos de Kind of Blue é mais uma oportunidade para Miles Davis e seu sexteto abrirem as portas do jazz para velhos fãs e futuros amantes.

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