sexta-feira, 14 de junho de 2019

Um jornalista de uma geração

Quem viveu sob a ditadura militar teve lado

Muitos estudantes foram de esquerda, poucos foram de direita assumida e a maioria apenas usufruía do "milagre brasileiro", independente de seus mortos, torturados e censurados. Muitos que foram de esquerda, viraram conservadores e muitos que foram conservadores, viraram "democratas" aliados dos conservadores.

Clovis Rossi e muitos outros passaram por muitas destas opções...

Este depoimento de Patricia Campos de Mello é um dos casos positivos do papel de um bom modelo para os jovens e para o Brasil. Juca Kfouri também fez uma boa síntese, como Ricardo Kotscho deve ter escrito algo sob as lágrimas... Até Lula deve ter chorado ao saber da morte de Clovis Rossi.

Rossi, era mais do que um jornalista, era um modelo de vida e de relação política com a vida. Leiam o belo depoimento de Patrícia...

Mais do que o jornalista,
quero me tornar a pessoa Clóvis Rossi


Todo estudante de jornalismo quer ser como ele quando crescer, e comigo não era diferente

14.jun.2019 às 11h49 – Folha - Patrícia Campos Mello

Todo estudante de jornalismo quer ser o Clóvis Rossi quando crescer. Eu não era diferente.
Quando soube que dividiria minha primeira cobertura com o Rossi —ele pela Folha, eu pelo Estadão, na época em que eu era correspondente em Washington— fiquei em pânico.

Primeiro, porque ia conhecer o mito Clóvis Rossi. Segundo, porque estava morrendo de medo de levar um furo.
Era setembro de 2009, em Pittsburgh, nos EUA, e começava a primeira reunião de cúpula do G20, o grupo das maiores economias do mundo criado após a crise financeira de 2008.

Centenas de jornalistas do mundo todo se acotovelavam na sala de imprensa e tentavam pescar algo nas entrevistas coletivas, mas sabíamos que as verdadeiras notícias só sairiam dos bastidores —e isso, só o Rossi ia conseguir fazer.

Vi o Rossi falando com uma fonte importante. Cheguei perto, neurótica, com medo de levar um furo — jargão jornalístico usado quando o concorrente publica uma informação importante antes de você.

A fonte estava bem mal-humorada comigo, porque eu havia acabado de escrever uma reportagem de que ele não havia gostado. A fonte foi bem ríspida —“Com essa aí eu não falo”.

O Clóvis Rossi nem me conhecia. Eu era uma fedelha do jornal concorrente que tinha chegado junto no meio da conversa dele. O que ele fez?
“Essa aí é uma jornalista que deve ser respeitada”, disse o Rossi. Ele não estava preocupado se iria de indispor com a fonte dele, perder acesso a informações.

Ele me defendeu, e nem me conhecia. E eu era a fedelha do jornal concorrente.

Foi naquele momento que me dei conta de que eu não queria ser apenas a jornalista Clóvis Rossi quando crescesse.

Eu queria ser a pessoa Clóvis Rossi quando crescesse.

Já passei dos 40, e ainda estou muito longe disso. Mas vou continuar tentando. É o mínimo que eu devo a ele, depois de tanto que ele me ensinou e me ajudou.


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