quinta-feira, 21 de março de 2019

Quando as casas novas ficam velhas

Quando não entendemos as mudanças na vida

A casa da nossa infância é "a casa verde", de perto do cemitério. Uma casa com três quartos, térrea, com fogão à lenha e "banheiros" no fundo do quintal. Pagávamos aluguel e não tinha água própria ou encanada. Foi onde passamos longos anos descobrindo a vida, as ruas, os bairros e a própria cidade de Serrinha, que ainda não tinha luz elétrica, mas tinhas boas escolas públicas...

Quando mudamos para "a casa nova", construída por nosso pai e um equipe de pedreiros, alguns irmãos já tinham ido morar fora e outros estavam chegando ao tempo de partida, embora eles, como eu, ainda não soubessem disto...

A casa nova era maior que a "casa verde", mas faltavam alguns filhos ou faltavam os filhos para dormir em suas camas. Foram partindo, como ave de arribação. O mais velho passou no concurso do Banco do Brasil e, por um tempo, ficou morando em Rui Barbosa para depois ir morar em Brasília. Os demais irmãos fomos morar em São Paulo.

Depois de quase 50 anos de deixar de morar na "casa nova", hoje vi uma foto desta casa que, embora enfeitada por palmeiras e outras plantas, deixou de ser "a casa nova" e passou a ser a casa de nossos pais. Cada um de nós passou a ter "a sua casa nova". Nesta semana, de forma meio assustadora, quase tivemos que trocar de moradia, deixando de morar na nossa casa florida para ir morar em apartamento.

Sabemos que temos que fazer esta transição - da casa para o apartamento - mas, como podemos aceitar tão de repente a mudança de casa, se ainda sequer nos acostumamos de ver a filha casada e morando em outro bairro? É claro que a casa ficou mais espaçosa. Mas, cada cômodo da casa tem uma ou mais história, tem seus barulhos e suas luminosidades, além de seus livros.

A nossa casa na Vila Madalena continua nova, porque a pintamos regularmente. Mas nossa vida, depois do casamento da filha, já sinaliza que estamos ficando mais velhos. Principalmente quando chegamos aos 65 anos de vida. Nesta idade também aparecem as doenças e os cansaços. E nem sempre temos pique para subir ou descer as nossas belas escadas da nossa bela casa iluminada e bem ventilada.

O Brasil está ficando velho. São Paulo anda mais tensa e esburacada. Nosso bairro ainda consegue manter as árvores e as flores. Só não sabemos se somos nós que estamos ficando velhos ou se é nossa casa que não tem o mesmo significado que tinha quando nossa filha estudava e morava na nossa casa. A casa que teve muitos significados positivos para ela, nossa principal alegria.

No fundo, nós tendemos a gostar das casas velhas... principalmente àquelas onde moramos por algum tempo.


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