terça-feira, 24 de abril de 2018

Ricardo Semler e Bresser Pereira: duas boas lembranças

Empresários e professores democratas

Convivo com as ideias do professor Bresser Pereira desde a FGV nos anos setenta e tive a honra da presença de Ricardo Semler e esposa na nossa posse na diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo em 1988.

Outro dia, a Folha publicou um belo artigo de Bresser Pereira e hoje publicou o artigo de Ricardo Semler. Não consegui reproduzir o artigo de Bresser, mas aproveito o fato de Ricardo ser empresário e seu artigo ter mais peso na conjuntura atual.

Se fizermos um movimento unindo todos os verdadeiros democratas brasileiros, teremos condições de vencer a violência que tomou conta do Brasil.

O Brasil merece ser de todos, com todos e para todos.

Leiam o bom artigo de Ricardo Semler:

Somos caras de pau


Folha, 24 de abril de 2018

O Brasil não ficou corrupto há pouco, e a quase totalidade de leitores, como eu, comungou, silenciou e apenas resmungou enquanto assistia a tudo com senso falso de impotência

Tirar a tampa da caixa de Pandora não equivale a esvaziar o conteúdo. Descobrir, horrorizado, que este país é movido a malandragem não é um direito do nosso cidadão. As pessoas tiveram a obrigação de ter prestado atenção até aqui. Elas têm que admitir que incentivaram diretamente a bandidagem oficial e que optaram, sim, pelo "rouba mas faz".

Ninguém que esteve na avenida Paulista genufletindo perante patos e sapos está isento de ter ungido, em eleição indireta, Temer e seus 40 amigos. Não é aceitável dizer que era urgente sacar a Dilma, mesmo que significasse sair da frigideira para o fogo.

Para o mundo da grana, foi uma ponte para movimentos mínimos de arranjos estruturais. Necessários, sem dúvida. Mas no velho esquema —que nos trouxe até aqui— de sórdidos acertos por trás, de movimentos pelas sombras.

Culpa dos deputados, bandidos em sua maioria? Claro que não. Culpa genérica de um mau voto? Nem isso. Apenas uma confissão coletiva de um país que ainda tem a hipocrisia como colete à prova de balas.

Ou o pessoal da comunidade não sabia que tinha PM virando mafioso, e governadores sacaneando a torto e a direito? Depois votaram nos indicados deles, pasmem, por voto secreto!

Há 28 anos, quando eu era vice-presidente daquela mesma Fiesp na Paulista, fiz discurso afirmando que o incesto político-empresarial iria nos condenar à paralisia. Citei as empreiteiras e, em 2001, o próprio Emilio Odebrecht como fonte importante da relação mais emblemática desse tipo de Brasil.

Ou seja, eu sabia, a Fiesp sabia, e quase todo o país sabia o que estávamos fazendo.
Foi Dilma que deixou que tirassem a tampa da caixa. Foi ela que, diferente de todos os presidentes anteriores, incluindo Lula, deixou que tudo viesse à tona.

Podem querer dizer que foi contra a vontade dela, mas sinto que ela, tendo visto e se calado em relação ao estado de profunda corrupção do país, resolveu prestar um serviço —que ela não pode confessar em público até hoje, pois sabia que pegaria também o PT, em cheio.

Claro, Dilma também se assustou quando transbordou. E possivelmente deixou a persona de altiva presidenta subjugar o indivíduo Dilma. Ela sempre foi arrogante e inábil, e não tinha a menor condição para ser presidente.

O PT nem sequer é o partido que mais roubou nestas décadas. Os valores precisam ser comparados com Itaipus, pontes Rio-Niterói, décadas de roubo no INSS, Correios, estradas, aeroportos. E tudo indica que apenas algumas merrecas foram para o bolso.

Agora, temos um pântano de candidatos e uma vaga esperança de que a corrupção recebeu alguns golpes na cabeça. Não é o caso. É um trailer, talvez, do que o Brasil poderia fazer, se tivesse quatro ou cinco governos sérios em sequência.

Rouba-se tanto quanto antes, apenas com mais cuidado. A vasta maioria dos escândalos —cada qual igual ou maior do que o Lava Jato— vai ficar na caixa de Pandora. Não interessa a quase ninguém fuçar a caixa e levar uma picada de serpente. Fácil fazer uma lista de 30 Lava Jatos que ficarão no fundo da caixa.

A JBS só tem aumentado de valor na Bolsa, a Odebrecht ganhou obra nova de R$ 600 milhões nestes dias. Haja ingenuidade.

Procura-se, então, um centrista que apazigue tudo. Seja um Barbosa, um Huck, alguém que não soubesse de nada. Serviriam Silvio Santos, Justus e, se estivesse aqui, a presidenta idealizada, Hebe Camargo.

Ora bolas, sejamos claros. O Brasil não ficou corrupto há pouco, e a quase totalidade de leitores, como eu, comungou, silenciou, e apenas resmungou enquanto assistia a tudo com senso falso de impotência.

Essa inoperância cívica era conveniente —e será de novo com qualquer candidato que empurre a malandragem para trás das cortinas de novo.

Tem muita razão para o otimismo de uma gente brasileira tão formidável. Mas primeiro temos que parar de ser resmungões indignados. Tudo isso enquanto damos uma gorjeta para o guarda ou pagamos o médico sem recibo. Um exame de consciência é prévio a uma escolha de candidato. Afinal, verniz em cima de verniz não adere —vamos primeiro lixar a nossa cara.

Ricardo Semler
Empresário, é sócio da Semco Style Institute e fundador das escolas Lumiar; foi professor visitante da Harvard Law School e de liderança no MIT (EUA)

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