quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Brasil que deu certo e o Brasil atual

Convivendo com as incertezas

Tenho lido os jornais e não consigo achar coisas agradáveis para ler. Nem nos cadernos de cultura. Predominam notícias ruins ou tendenciosas. E as pessoas me perguntam porque gasto dinheiro assinando jornais conservadores, manipuladores e repetitivos - até nas fotografias e capas. Gosto de responder que, mesmo só tendo jornais ruins no Brasil, precisamos nos manter atualizados principalmente com a economia, a cultura e o mundo.

Tinha uma livraria em São Paulo, se não me engano na Rua Aurora, no tempo da ditadura, onde se lia na parede e nas embalagens:

- Quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê.

Acompanhar as redes sociais também anda difícil. Tanto pela quantidade, como pelo conteúdo. A esquerda critica a direita e a direita critica a esquerda. Tudo isto parecendo disputa de time de futebol. Tem algo mais chato do que disputa de corintiano com palmeirense e vice versa? Chega ao irracional. Mas conhecer o que os dois lados falam sempre foi importante.

O que sentimos é que o Brasil atual está vivendo uma das piores experiências que já teve. Um país sem carater, um governo desmoralizado, corrupto e serviçal das multinacionais e dos bancos. Os políticos na maioria assumem seu lado mercenário e o povo acompanha tudo com muita desconfiança. Não consegue acreditar muito, nem na oposição e muito menos no governo e seus aliados.

Quando a montanha se moverá?
Quando deixaremos de ficar "deitados eternamente"?
Confesso que não sei.

O que sei é que, ante o medo do presente, também estamos passando por boas experiências.


Nossa geração, que anda entre 60 e 75 anos de idade,
mesmo passando pela tristeza de ver o Brasil tão desmoralizado,
vê seus filhos e filhas se casarem e saírem de casa para trabalhar em outras cidades.

Como reagir ao ver os filhos cumprindo um ritual de passagem
que vivemos como filhos e agora estamos vivendo como pais?

Vejam dois exemplos:

1 - Casamento no interior


Na semana passada estivemos em Bilac, Birigui e Fernandópolis, no casamento de uma sobrinha. Aproveitamos para ir até Bilac, cidade onde morou meu sogro quando chegou ao Brasil em 1926. Veio trabalhar na lavoura de café, como milhares de japoneses e demais imigrantes. Bilac continua uma pequena cidade, mas que consegue emocionar todos os meus cunhados e cunhadas quando chegam à casa onde nasceram e viveram a primeira parte da vida, antes de se mudarem para Birigui. A casa continua igual ao que era em 1945. O ano em que a segunda guerra mundial acabou, afetando a economia cafeeira e a vida dos brasileiros...

Quando a família do meu sogro chegou em Bilac, interior de São Paulo, não tinha escola nem para brasileiros, quanto mais para japoneses recém-chegados. Meu sogro, mesmo morando no campo no Japão, lá frequentava escola, aqui... nada. Eles fundaram escola de japonês e depois conseguiram escolas brasileiras. Meu sogro teve onze filhos e todos fizeram faculdade, incluindo quatro que se formaram em medicina.

Agora seus netos e netas já estão se casando, fazendo os pais chorar de emoção e de incertezas. A festa foi muito bonita e voltamos para casa alegres por ter encontrado muitos amigos e parentes.


2 - Se formar, conseguir emprego, deixar a casa dos pais e deixar de viver em frente ao mar...


Se os japoneses de Bilac, Birigui e Fernandópolis tiveram mais um casamento, nossas japonesas que vivem em Salvador também estão passando por mudanças de vida. Nossa sobrinha, que nasceu em Nagoya, no Japão e veio morar no Brasil, acabou de se formar em engenharia. Com a recessão, não conseguiu um bom emprego em Salvador como gostaria, mas conseguiu um bom emprego em Minas Gerais, lá no interior, onde estão as fábricas de minérios.

De repente, aquela japonezinha que toca, que canta, que conta histórias e estórias, vai deixar a casa dos pais, vai deixar de ver diariamente o mar da Bahia e vai viver nova experiência, vai trabalhar numa multinacional.

Hoje, ao ver a mensagem deixada por ela no facebook, filmando o avião levantando voo e o mar ficando distante, fiquei emocionado. Nossas filhas e filhos estão cumprindo suas missões e nós estamos ficando velhos.

Ter filhos e criá-los antigamente era mais fácil do que atualmente. Hoje ter dois filhos já significa muito gasto, imaginem se fossem onze, como meu sogro, ou mesmo sete, como nossos pais?

De 1945 até hoje, o Brasil cresceu muito,
deixou de ser um país rural para ser um país urbano. De repente, vivemos a sensação de que estamos desistindo do Brasil como país rico e promissor. A impressão é que estamos aceitando ser um país pobre e sem futuro.

Minha forma de passar esperança para as pessoas que reclamam do Brasil atual é comparar com a Europa do início da segunda guerra mundial e comparar o Brasil com os países ocupados pelos nazistas. Imaginem o desespero e o medo. Na Europa morreram mais de 40 milhões de pessoas e as bombas destruíram quase tudo. No entanto, das ruínas das casas e dos prédios, e das cinzas humanas renasceu uma Europa mais moderna e mais democrática.

Hoje há nova crise na Europa, como há no Brasil e no mundo.
Mas a degeneração no Brasil é mais forte. Vivemos um impasse na ética, na transparência, no respeito as diferenças e na falta de tolerância.

Da mesma forma que se demorou para perceber a dimensão da destrutividade das ditaduras nos ano 30 do século passado, ainda não conseguimos perceber em que parte da mudança estamos no Brasil e no mundo.

Só sei que, apesar da vida mais simples que nossos pais tiveram, eles tiveram mais certezas do que temos atualmente. E as incertezas geram angústias e medos, que geram guerras e violências.

Como já estamos velhos, o que mais podemos fazer é torcer para que nossas filhas e nossos filhos consigam impedir que a violência se sobreponha ao respeito, as diferenças e à Democracia.

Como ainda temos muitos anos de vida pela frente, vamos torcer para que a paz se sobreponha à guerra, e que a ética se sobreponha a falta de escrúpulo. Afinal, o todo é mais do que a soma das partes.

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