sábado, 18 de novembro de 2017

Temos muitos DRAUZIO VARELLA no Brasil

Ah, se ouvissem mais o Drauzio Varella...

De vez em quando a Folha tem uma recaída, das boas, e faz uma boa reportagem. Daquelas que lembra à Folha de antigamente, quando também lutava pela redemocratização do Brasil.

Hoje resolveu dar duas páginas inteiras, não à propagandas de bancos e empresas que apoiaram e se beneficiam do golpe do impeachment. Resolveu dar duas páginas às sábias palavras do cidadão e médico brasileiro DRAUZIO VARELLA.

Vou reproduzir a primeira metade da reportagem. Bonita, informativa, emocionante.


Para nós que temos 40 anos de formados e de serviços prestados ao Brasil,para nós que lutamos contra a ditadura militar e contra golpes de Estado, para nós que acompanhamos os artigos e o trabalho social de Drauzio Varella, para nós que temos médicos na família, dá uma alegria danada ler cada palavra escrita por Drauzio Varella.

Além de revolucionar o Brasil quando escreveu sobre Carandiru
, o presídio de barbárie em pleno centro de São Paulo e depois escrever sobre AS PRISIONEIRAS, as mulheres no cárcere, esta nova obra de arte de Drauzio e, porque não, também da Folha, merece ser mostrada a todos os brasileiros.

Se, em vez de só mostrar a bandidagem, priorizarmos a mostrar os brasileiros e brasileiras, como Dona Zilda Arns e tantos outros, veremos que, mesmo lentamente, estamos construindo uma NAÇÃO.

Leiam esta primeira parte da reportagem especial da Folha, com Drauzio Varella:

Drauzio Varella faz retrospectiva
de 50 anos da medicina no Brasil


DRAUZIO VARELLA
COLUNISTA DA FOLHA - 18/11/2017

Ao comemorar o jubileu de ouro de sua formatura na Faculdade de Medicina da USP, no mês passado, o médico e colunista da Folha Drauzio Varella, 74, tomou de novo o palanque que assumira 50 anos antes como orador da turma.

Diante dos colegas da 50ª leva de formados da instituição, fez, no último dia 27, no teatro da faculdade, na zona oeste de São Paulo, um "resumo do resumo, coisa despretensiosa" sobre as transformações pelas quais a atividade passou desde aquela fala na cerimônia "ilegal" no Theatro Municipal, em 1967.

Naquele ano, a escolha do paraninfo, Luiz Hildebrando Pereira da Silva (1928-2014), demitido e expulso do país pela ditadura, levou a direção da faculdade a renegar o evento.

A criação do SUS (Sistema Único de Saúde) é a maior das revoluções deste meio século, disse à Folha, com ênfase: "O SUS é uma conquista definitiva. E um processo em andamento."

No discurso, reproduzido aqui na íntegra, não minimiza os desafios que se antepõem: levar as novas tecnologias a toda a população "exigirá a reinvenção de um SUS que ainda nem conseguimos implantar com a abrangência necessária".
*
AS PALAVRAS DO CIDADÃO E MÉDICO DRAUZIO VARELLA

Cinquenta anos atrás, no Theatro Municipal, fui o orador de nossa turma. Naquela ocasião, a escolha do professor Luiz Hildebrando como paraninfo foi considerada uma afronta pela direção da faculdade, que houve por bem não participar nem considerar oficial a cerimônia de formatura.

Eram tempos de ditadura. Ao escolher um professor que fazia parte de um grupo de docentes demitidos da universidade por razões puramente ideológicas, fazíamos um protesto veemente contra o autoritarismo militar e sua influência na academia.

No final do discurso, eu dizia com ardor juvenil:


"A ninguém assiste o direito de exigir que nos transformemos em seres amorfos dentro da sociedade, reduzidos unicamente às funções de estudar e calar. Nosso silêncio poderá ser cômodo às classes dominantes, para a pátria, porém, representaria gravíssima traição".

Meu pai depois diria ter tido certeza de que eu seria preso no final da cerimônia. Não era preocupação descabida, perdemos colegas de faculdade e amigos, desaparecidos nos porões da repressão. Ao contrário da maioria dos universitários de hoje, tínhamos sonhos grandiosos naquele tempo. Queríamos combater a miséria, acabar com a esquistossomose, Chagas, varíola, poliomielite, tuberculose e a desnutrição das crianças. Ao mesmo tempo, sonhávamos com a criação de universidades, metrópoles como Brasília, cidades novas pelo interior e em alfabetizar todos os brasileiros.

Não vamos esquecer, no entanto, que a memória é editora falaciosa, especialista em deletar experiências desagradáveis. Em matéria de costumes éramos bem mais atrasados do que os jovens de agora. Não tínhamos consciência do nosso machismo: em nossa turma de 100 alunos, havia apenas 15 mulheres, espécie de cidadãs de segunda classe na faculdade, no intervalo das aulas, recolhidas nas salas do departamento feminino.

Quando ouço falar da revolução sexual provocada pela pílula nos anos 1960, lamento ela ter acontecido onde eu não estava. O racismo da sociedade brasileira se refletia em nós. Não achávamos estranho haver em nossa turma os dois únicos estudantes de ascendência negra entre os 500 alunos da faculdade.

Colegas homossexuais eram alvo de chacotas grosseiras. Pertencíamos a uma elite estudantil que, ao receber o diploma da USP, julgava garantida a ascensão social. Apesar da gravidade dos problemas de saúde pública com os quais convivíamos no Hospital das Clínicas, a faculdade nos formava para ganharmos a vida como profissionais liberais. Pouquíssimos de nós imaginavam que um dia dependeríamos de empregos formais para sustentar a família.

Vamos lembrar que naqueles dias os pacientes sem condições financeiras para arcar com os custos médicos ficavam limitados ao antigo INPS. Os demais eram rotulados como indigentes, portanto dependentes da caridade pública.

Apesar da formação inadequada para as necessidades do país, nossa geração de médicos esteve à frente da maior revolução da história da medicina brasileira: a criação do Sistema Único de Saúde. Na Constituição de 1988, escrevemos "Saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado".

A despeito da demagogia do slogan que não garante os meios para cumprir tal dever e infantiliza o cidadão, ao retirar dele a responsabilidade de cuidar da própria saúde, foi de fato uma revolução.

Nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes
ousou oferecer saúde gratuita a todos, sem exceção.

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