segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O melhor sobre as Eleições no Chile

Avanço da Esquerda no Chile

A Folha mais uma vez comeu bola e o Valor continua sendo o melhor jornal do Brasil.
Vejam o melhor artigo já publicado no pais. A autoria é de um profissional do Financial Times, de Londres, e publicado no Valor de hoje. Os melhores historiadores geralmente são os ingleses. Por isto que defendo abrir o mercado de rádio, jornal e televisão para o mercado internacional. Afinal, se nossa imprensa defende a lei da concorrência internacional no Brasil, que esta concorrência internacional também sirva para todos os setores da mídia. Não há meio capitalismo. Como não há meia democracia. Ou meia liberdade.

Leiam este belíssimo artigo sobre o Chile.

Avanço da Esquerda no Chile
altera tradicional equilíbrio de poder


Por Benedict Mander - Financial Times – Valor 25, 26 e 27/Nov/2017.

Envergando um boné de beisebol, tênis e uma camisa sem enfiar na cintura, Giorgio Jackson não joga pelas velhas regras do Congresso do Chile, cujos corredores são agitados por homens de ternos escuros e grisalhos - a maioria pelo menos com o dobro de sua idade.

Mas os eleitores não parecem se importar com isso.
Pelo contrário, o ex-estudante de 30 anos de idade conquistou mais votos do que quase qualquer outro candidato ao Congresso nas eleições chilenas de domingo passado, contribuindo para o desempenho sensacional do bloco de esquerda Frente Amplio que subverteu a tradicional correlação de forças políticas.

Agora Jackson e seus companheiros preveem conseguir ditar algumas das novas regras.
Sem o apoio deles, argumenta ele, Alejandro Guillier, que representa a parte remanescente da dividida coalizão de centro-esquerda da presidente Michelle Bachelet, terá dificuldades para vencer o candidato de centro-direita, o bilionário empresário Sebastián Piñera, no segundo turno da eleição presidencial, marcada para dezembro.

"Será muito difícil para Guillier conquistar o apoio de todos os eleitores do Frente Amplio", diz Jackson, para quem o sucesso do candidato depende da possibilidade de ele poder lhes fazer uma oferta que valha o seu apoio: "Embora haja um grupo [entre nós] que é muito anti-Piñera e que vai votar em Guillier de qualquer maneira, precisaremos de mais do que isso para ganhar as eleições".

Ainda que Beatriz Sánchez, a candidata do Frente Amplio a presidente, tenha deixado por pouco de entrar para o segundo turno, o bloco emergiu como a terceira maior força política do Chile após ganhar mais que o dobro do número de cadeiras no Congresso do que o previsto nas pesquisas.

Fundado por ativistas estudantis, entre os quais Jackson, a ascensão do bloco tem raízes nas manifestações de massa de 2011 contra os altos níveis de desigualdade no Chile, e no crescimento da classe média durante o surto de crescimento das commodities de 2000 a 2014, que criou novas demandas sociais.

Entre elas estão apelos por uma reformulação radical do sistema de aposentadoria, visto como pouco generoso, e por uma Assembleia Constituinte para reformular a Constituição implementada na ditadura de Augusto Pinochet, e vista por muitos como ilegítima.

Identificado de maneira mais próxima com o Partido Podemos espanhol, de extrema esquerda - bem como com o senador americano independente Bernie Sanders e com Jeremy Corbyn, o dirigente de esquerda do Partido Trabalhista britânico -, o desempenho do Frente Amplio repercutiu em todo o sisudo sistema político chileno, dominado por dois blocos desde a década de 1990.

"O espaço eleitoral está mudando e as pessoas estão se manifestando de maneira diferente",
diz Sergio Bitar, um assessor próximo de Guillier, que destaca que 55% dos chilenos votaram em candidatos de esquerda nas eleições.

"Resta conferir se essa maioria poderá ser canalizada para apenas um candidato", reconhece ele, destacando, porém, que as perspectivas eleitorais de Guillier melhoraram muito. "É um campo aberto, podemos ganhar. Uma semana atrás era mais difícil dizer isso".

Até a próxima quarta-feira a Frente Amplio, ou Frente Ampla, deverá decidir se apoiará ou não Guillier. Mas dirigentes do partido deixam claro que não conseguirão fazer isso sem gestos claros sobre as questões mais importantes para o bloco dominado por forças estudantis, entre os quais a aposentadoria e a reforma constitucional.

Javiera Parada, uma figura destacada do Frente Amplio, diz que a legenda foi fundada para enfrentar a "exaustão" da estrutura política chilena, que não conseguiu se renovar e permitir o ingresso de políticos jovens - até agora.

"Somos uma nova alternativa política que não reage à relação promíscua entre os negócios e a política.

‘Queremos romper a lógica neoliberal que imperou no Chile nos últimos 50 anos,
imposta pela ditadura [Pinochet], mas que foi amplamente mantida", diz ela.

No entanto, a frente é feita de uma associação de grupos muito diferentes - cerca de 13 partidos, no total. Isso levou a uma confusão em torno do que exatamente ela representa, com opiniões contrastantes sobre o quanto o governo do líder venezuelano Nicolás Maduro é democrático, por exemplo. "Não sabemos, na verdade, o que é o Frente Amplio - eles são muito diferentes entre si", diz Bitar.

Alfredo Moreno, o ministro das Relações Exteriores de Piñera em seu governo de 2010 a 2014, destaca que há muito há eleitores desiludidos no Chile que não optaram por nenhum dos principais partidos.

O candidato "outsider" Marco Enríquez-Ominami, por exemplo, ganhou 20% dos votos nas eleições de 2009 - quase o mesmo que Beatriz Sánchez no 1º turno.

"Esse voto sempre existiu.

Mas [em 2009] foi em uma pessoa, não em um movimento", diz ele. Ele observa, porém, que as reformas eleitorais de Bachelet, que introduziram a representação proporcional, permitiram que o Frente Amplio aproveitasse seu apoio e despontasse com um bloco significativo no Congresso:

"Hoje há a possibilidade de que eles estejam aqui para ficar".


No entanto, o desempenho do Frente Amplio no domingo passado pegou a todos de surpresa - principalmente Jackson.

"É como na roleta, quando você joga todo o seu dinheiro em um número", diz ele. "Você sabe que tem chance de ganhar, mas que não é tão provável, por isso é claro que vai gritar [de contente] quando ganha".

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