domingo, 19 de novembro de 2017

João Guimarães Rosa morreu há 50 anos, neste dia 19 de Novembro de 1967.

Ainda estamos aguardando sua biografia definitiva

Não achei nada na Folha de hoje sobre os 50 anos da morte de Guimarães Rosa.
O quê anda acontecendo com a Folha? Como esquecer Guimarães Rosa?

Já o Estadão, mesmo reacionário na política, na cultura e na internacional continua melhor que a Folha
O Estadão deu capa ontem e dois artigos exemplares, um de Guilherme Sobota e outro de Silviano Santiago sobre 0s 50 anos da morte de Guimarães Rosa.

Depois de publicar ontem e hoje o brilhante discurso do médico, escritor, voluntário, homem de mídia e brilhante brasileiro DRAUZIO VARELLA, não poderia esquecer a bela homenagem do Estadão a Guimarães Rosa.

Leiam este belíssimo artigo de Silviano Santiago:

'Grande Sertão: Veredas' continua tão moderno como outro clássico nacional, 'Os Sertões'


Silviano Santiago, ESPECIAL PARA O ESTADO
18 Novembro 2017

O francês Roland Barthes e o italiano Giorgio Agamben
se encontram em definição de caráter histórico e filosófico que explica a magia atemporal do romance Grande Sertão: Veredas e ainda salienta seu significado inesgotável. Barthes e Agamben sustentam que “o contemporâneo é o inatual”.

No Brasil a vibrar com a construção de Brasília no planalto central e, posteriormente, com a abertura da Transamazônica em plena selva, nada mais inatual artística e socialmente e, no entanto, mais contemporâneo, que o monstruoso romance escrito por Guimarães Rosa em meados do século 20 e publicado em 1956.

Recordemos a década de 1950.

João Cabral de Melo Neto tinha anunciado o credo minimalista dos anos 1950. Poetar com 20 palavras, sempre as mesmas. Os irmãos Campos e Décio Pignatari reduzem o verso e até o poema a uma única palavra. A primeira Bienal de São Paulo (1954) abole a figura humana e favorece como atual o abstracionismo geométrico da escultura de Max Bill e da tela de Ivan Serpa. As rádios adotam o singelo, doce e nostálgico balanço da bossa-nova, tão cool quanto o jazz moderno que o vocábulo inglês qualifica tão bem.

Lembram “do barquinho a deslizar no macio azul do mar”
(Roberto Menescal)? Os exemplos se sucedem e todos desautorizam o atrevido e descomunal Grande Sertão: Veredas como modelo da temática e escrita comprometidas com a atualidade brasileira em plena modernização cosmopolita.

O romance é incompreendido.

Faltam-lhe leitores. O monstro não se entrega sem as transgressões e asperezas estilísticas da vida cotidiana num enclave perdido no Alto do São Francisco. Incomoda e não seduz. Numa série de entrevistas curtas publicadas na revista Leitura, romancistas e poetas destacados se reúnem para falar mal. A matéria ganha título explícito e demolidor:

“Escritores que não conseguem ler Grande Sertão: Veredas”.

Autor do originalíssimo A Luta Corporal, Ferreira Gullar declara: “Li 70 páginas do Grande Sertão: Veredas. Não pude ir adiante. A essa altura, o livro começou a parecer-me uma história de cangaço contada para os linguistas”.

Compete a uma jovem e já notável geração de críticos literários, com destaque para Antonio Candido, assumir a tarefa de demonstrar o valor e o significado do romance. Apesar da inatualidade do texto ficcional de Rosa, eles se entusiasmam com o ineditismo da sua prosa e se entregam ao trabalho de amansar o bicho selvagem para o leitor. Há que torná-lo palatável ao gosto dos mestres romancistas e do leitor comum.

Por que não inseri-lo numa tradição de épicos brasileiros que facilitaria a compreensão do texto e interesse pela trama, evidenciando, ainda que de modo ligeiramente falso, sua atualidade?

Gera-se um consenso.

Grande Sertão: Veredas é tão moderno e atual quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Os grandes críticos presentes no pioneiro número 8 da revista Diálogo saem de mãos dadas: ainda que inatual, o romance de Rosa é, no entanto, tão genial quanto a obra-prima de Euclides. Assassina-se a letra; salva-se o espírito?

Constitui-se uma tradição de leitura
do Grande Sertão: Veredas que hoje nos incomoda e perturba. Haja vista o recente espetáculo apresentado no Sesc de São Paulo, dirigido por Bia Lessa. A qualidade selvagem do romance - sua wilderness - tinha sido domesticada. É ela, no entanto, que agiganta a originalidade de Grande Sertão: Veredas na América Latina e na literatura ocidental.

Desdomesticá-la, eis a nova proposta.


A fatura do romance de Rosa não é histórica nem simbólica. Pouco ou nada tem a ver com os fatos que levam a história do Brasil a transitar do período monárquico ao republicano pela dramatização da revolta dos conselheiristas na Bahia. Não há data no romance. Riobaldo não menciona uma só vez o nome da capital federal.

A fatura do romance é alegórica e paradoxal.

Quando é que quisemos ser modernos e terminamos por gerar regiões mais atrasadas do que as mais atrasadas? Desde sempre. Ou melhor, na história da nação brasileira, é assim que os administradores agem de maneira intermitente. Os governos dialogam com a história social e econômica da nação, despreocupando-se com o destino dos menos favorecidos. Somos fantásticos na construção civil e desastrados no planejamento habitacional das cidades.

Gestamos enclaves selvagens.


No período pós-escravidão africana, quisemos ser modernos na construção da Avenida Central, no Rio de Janeiro, e erigimos as favelas nos morros da capital federal. Em tempos de Vidas Secas (refiro-me aos candangos), quisemos construir nova e moderníssima capital federal e deixamos ao lado, no Alto do São Francisco, um enclave onde a anarquia feroz dos jagunços se assemelha à encontrada hoje nas penitenciárias das metrópoles. Em tempos de Carandiru, quisemos armar sistema de controle de enclaves, afinado com o moderno saber das ciências sociais, e nos tornamos tão ou mais irascíveis que Zé Bebelo.

Modernizamos e segregamos.


Afirma Agamben que ser contemporâneo não é ser atual. O contemporâneo é aquele que se descola das luzes do presente em que vive para perceber o escuro da realidade em que vivemos todos. O artista contemporâneo neutraliza as luzes sedutoras que norteiam sua época para enxergar as trevas, de que são inseparáveis.

Só é contemporâneo quem recebe no rosto o facho de trevas - e não de luzes - que provém do seu tempo.

Recebe o facho de trevas no rosto e, no entanto, enxerga.

Escreve o romance Grande Sertão: Veredas.

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