sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Brandão, Bradesco e Brasil. Tudo a vê!

Texto imperdível sobre a História do Brasil e um dos maiores protagonistas

O texto é longo, mas vale a pena. Não conheço o autor, mas é primoroso.

Um monge na Cidade de Deus: Lázaro Brandão

Jornal Valor – 13/10/2017 – William Salazar

"Cheguei me enfronhando no serviço. Tinha que ter alguém cuidando do curso dos procedimentos, dos controles. Criei a inspetoria para crivar os procedimentos, o desempenho, a qualificação do pessoal. E tinha o comando de inspetores, para ir na agência e sempre inspecionar e ver se estava tudo em ordem, tudo bem com os controles."

Cuidar dos procedimentos, dos controles, dos custos tem sido o princípio e o norte da carreira de Lázaro de Mello Brandão desde que, aos 16 anos, em 1942, entrou como escriturário na Casa Bancária Almeida & Companhia, em Marília, instituição que, no ano seguinte, se transformou no Banco Brasileiro de Descontos, atual Bradesco.

A ideia original era ficar pouco tempo lá, até prestar concurso para o Banco do Brasil. Só que Brandão nunca mais saiu da instituição. De Marília, foi para Lins, e logo mudou para São Paulo, a nova sede do banco. Daí para a Cidade de Deus, o centro administrativo criado pelo mítico Amador Aguiar em 1953, no município de Osasco.

As mais de sete décadas que dedicou ao Bradesco tiveram seu capítulo final nesta semana quando Brandão, aos 91 anos, decidiu renunciar à presidência do conselho de administração do banco. Mas isso não significa o fim de sua história com a instituição. Ele permanece no conselho de administração das sociedades controladoras do banco. Filho do administrador de fazendas José Porfírio Bueno Brandão e dona Anna Helena Mello, Lázaro Brandão nasceu na cidade de Itápolis, interior de São Paulo, em 1926.

"Com 12, 14 anos", já pensava em trabalhar em banco, a fim de ter "uma vida muita mais controlada, confortável", com "estabilidade, respeito da comunidade", contou ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV - "Lázaro de Mello Brandão - Senda de um Executivo Financeiro", título escolhido por ele mesmo).

Brandão "se enfronhou" tanto no serviço que apenas dois anos depois de iniciar a carreira foi promovido de escriturário a subchefe e logo a chefe da seção que ele próprio criara: a lendária Inspetoria Geral do Bradesco. Nela, pontificou pelos 20 anos seguintes, até galgar a diretoria-executiva, em 1963, e colocar-se como "sombra" de Amador Aguiar - o homem que fez da modesta casa bancária o maior banco privado brasileiro.

Sua atuação como inspetor geral antecipou em três décadas a preocupação mundial com a regulação bancária prudencial, a supervisão e as melhores práticas do mercado financeiro. Esse foi o escopo do Comitê de Supervisão Bancária da Basileia instituído em 1975, como reação à turbulência provocada nas finanças internacionais pela quebra do banco Herstatt, e que resultou na criação de organismos de controles internos e compliance, hoje obrigatórios nos bancos de todo o mundo. Com Luiz Carlos Trabuco Cappi, ao passar o bastão de "chairman" do banco Brandão tem muito poucos amigos.

Mal sai de casa, não vai a cinema, não tem vida social. Seu fim de semana resume-se a uma visita ao sítio em Itatiba, 80 km a noroeste de São Paulo, voltando a tempo de almoçar em casa. Eventos, festejos, solenidades, só se têm sentido profissional, referentes ao banco ou ao sistema bancário, como as reuniões do Sindicato dos Bancos ou da Associação de Bancos do Estado de São Paulo (Assobesp), de onde nasceria a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Foi nessas entidades que Roberto Konder Bornhausen conheceu Brandão, na década de 1960, quando era o principal representante do Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina, conhecido como Banco Inco. Foi com Brandão que Bornhausen tratou os termos da aquisição do Inco pelo Bradesco, em 1968. "Redigimos o contrato nós dois, sozinhos, sem advogados", sublinhou Bornhausen.

"No Bradesco, com seu conhecimento profundo da atividade, por sua origem como bancário de banco comercial, Brandão foi ganhando espaços aos poucos, até assumir plenamente as funções de Amador Aguiar. É o Brandão quem bate o martelo no Bradesco!" E bate três vezes!

"Na minha época, o pessoal dizia assim: Olha, quem precisa aprovar isso aqui são três pessoas, o Lázaro, o Mello e o Brandão! Tudo, tudo passava por ele. Ele examinava tudo", relembra Alcides Lopes Tápias, que deixou a vicepresidência do Bradesco em 1996, depois de trabalhar 49 anos no banco, 15 deles compartilhando com Brandão o famoso mesão da diretoria-executiva na Cidade de Deus.

"Ele sempre foi uma pessoa muito observadora, muito atenta às coisas e sempre teve a confiança absoluta do sr. Amador Aguiar, tanto é que quando o 'seu' Amador ficou adoentado, ele passou a presidência para o 'seu' Brandão." Aliás, a mudança do nome Banco Brasileiro de Descontos para Bradesco só foi possível com a colaboração de "seu" Brandão.

"Discutíamos na diretoria-executiva que os clientes não chamavam o banco pelo nome completo, mas preferiam a denominação do endereço telegráfico Bra-Des-Co. Mas quem tinha coragem de dizer isso a 'seu' Amador, que dizia que nome de banco não se muda?" Os diretores levaram a proposta a Brandão. Ele orientou que discutissem à exaustão, até não sobrar dúvida de que a mudança era para melhor. No dia que foram tratar com Aguiar, "seu" Brandão disse que os diretores estavam trazendo uma proposta para ele analisar e deu a palavra a Tápias.

"Alguém tinha que por o guizo no gato. Eu me prontifiquei. 'Seu' Amador ouviu, ouviu e, finalmente, acatou: 'Olha, acho que é uma boa ideia que vocês tiveram!'" Juntamente com a atenção aos interlocutores e à discrição, é unânime a impressão da enorme capacidade de trabalho e da dedicação monástica ao Bradesco.

"Brandão sempre foi muito espartano, chegando todo dia no banco às 7h, mesmo quando já estava na presidência, fosse da diretoria, fosse do conselho. Quando queria falar com ele, chegava antes das 8h, porque era um horário mais tranquilo", descreve Gabriel Jorge Ferreira, o vice-presidente jurídico do Unibanco que forjou a fusão com o Itaú.

"Brandão é um ser humano especial, a quem você poderia chamar de tudo menos de banqueiro. É simples, humano, até humilde. Fez uma carreira sem grandes impulsos, sem grandes arroubos. É uma pessoa extremamente discreta, extremamente reservada. Nos congressos dos bancos, nos anos 60 e 70, suas intervenções eram feitas de forma extremamente singela, conciliatória, ouvia tudo muito atentamente antes de emitir uma opinião."

Brandão sucedeu Aguiar, primeiro, em 1981, como presidente-executivo e depois como presidente do conselho de administração, em 1990, acumulando os dois cargos ao longo da década. Em 1999, entregou a presidência executiva a Marcio Cypriano, diretor da rede de agências do Bradesco que então presidia o Banco de Crédito Nacional (BCN), adquirido em 1997.

Agora, passou a presidência do conselho de administração para Luiz Carlos Trabuco Cappi, que acumulará temporariamente a função com a presidência executiva do banco. "Ele não é só testemunha - é ator da evolução que os bancos experimentaram nos anos 1960"
No ano de sua indicação como presidente, ao lado do fundador Amador Aguiar A aquisição do BCN pelo Bradesco ficou marcada na memória do deputado Ricardo Berzoini (PT), que confrontou "seu" Brandão do outro lado da mesa de negociações como presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região.

"O sindicato queria que o Bradesco se comprometesse a manter o quadro, evitar demissões. Ele deu sua palavra de que não haveria demissões e, de fato, cumpriu praticamente 100%; não houve demissões em massa, só o movimento de simplesmente cortar redundâncias", diz.

Mas custos "seu" Brandão sempre cortou sem dó. Essa obsessão levou a decisões comprometedoras para os negócios do banco, como fechar os postos de atendimento bancário (PABs), a fim de reduzir o quadro de pessoal. Só que os PABs eram um substituto para as agências de vantagens ponderáveis: geravam receitas das contas correntes, cartão de crédito, pagamento de contas, empréstimos dos funcionários das empresas em que se instalavam, sem imobilizar capital em agências, nem pagar aluguel, água, luz ou telefone.

Outra decisão nessa linha foi proibir a liberação de cheques no mesmo dia - isso na década de 1980, no tempo da hiperinflação de taxas de 80% ao mês. As empresas, principalmente as maiores, reclamaram. Brandão fez os diretores visitá-las, em todo o Brasil, para explicar a posição do banco.

As empresas retrucaram que, se o Bradesco não liberava cheque, a concorrência liberava.

Sob pressão da concorrência, que mantinha seus PABs e liberava cheques, o Bradesco teve que se adaptar - assim como fizera com o Documento de Ordem de Crédito (DOC), que Amador Aguiar detestava por sua fragilidade a fraudes, mas teve que ceder ante o uso disseminado por outras instituições financeiras.

De olho na concorrência, Brandão imprimiu um novo rumo ao banco na virada do milênio. Primeiro banco de massas do Brasil, dizia-se que o Bradesco atendia a Sadia, a padaria e a dona Maria, sem distinção. Tanto que foi um dos últimos, senão o último grande banco, a ter uma área dedicada a atender grandes grupos empresariais, o chamado segmento "corporate".

Brandão encarregou Cypriano, que trouxera a cultura e vários executivos chave do BCN para o Bradesco, de estruturar a segmentação dos negócios e da clientela, prática já corriqueira entre os bancos brasileiros.

Lázaro de Mello Brandão é o último remanescente da geração de banqueiros que viveu a transformação de um sistema bancário elitista, atomizado, fracamente capitalizado, de raio no máximo regional, para um sistema massificado, altamente concentrado, de expressão nacional e com musculatura para ensaiar sua internacionalização.

"Ele não é só uma testemunha da evolução - é um ator da evolução que os bancos brasileiros experimentaram nos anos 1960", sentencia Bornhausen.

Nessa época, as instituições bancárias totalizavam 350.

Em 1980, haviam caído para 111, resultado da deglutição das instituições menores e de caráter nitidamente regional pelas grandes instituições, concentradas em São Paulo, com o Bradesco e o Itaú à frente.

As incorporações, aquisições e fusões que transformaram esses dois bancos em conglomerados começaram já na década de 1940, logo após sua fundação.

Entretanto, o grande banquete dos tiranossauros Bradesco, Itaú e, em menor medida, Unibanco ocorreu efetivamente na segunda metade dos anos 1990, quando o Plano Real debelou a hiperinflação e desmamou um rosário de instituições que dependiam da desvalorização da moeda para sobreviver, incluindo os bancos estaduais.

Daí até quase o fim da década seguinte, o Bradesco digeriu nada menos do que 25 negócios, entre bancos, corretoras e carteiras de outras instituições, mantendo invicta sua liderança de quase 60 anos entre os bancos privados. Em 2008, porém, perdeu o título.
O Itaú, que até então havia se contentado com nove aquisições, fundiu-se com o Unibanco, que havia comprado apenas quatro (incluindo o Banco Nacional, que, em 1995, era o quinto no ranking dos privados).

Pareceu uma vingança do destino.

Amador Aguiar havia proposto a fusão ao embaixador Walter Moreira Salles, fundador do Unibanco, lá atrás, em 1972, quando eram o primeiro e o quarto maiores bancos privados do país. Se concretizada, a nova instituição ficaria atrás apenas do Banco do Brasil. Aguiar e Salles chegaram a assinar um compromisso. Mas o "choque das duas culturas", a "caipira" do banco de Osasco e a "cosmopolita" do banco do embaixador, se estranharam. A fusão morreu de inanição.

Décadas depois, os dois bancos voltaram a se aproximar, mas nunca chegaram a se entender, porque o Bradesco, com Brandão à frente, fazia questão de ter o comando da instituição resultante.

"O Itaú gosta de fusão", enquanto o Bradesco sempre comprou e ficou com o controle, justificou Brandão, que viu o Bradesco se tornar o principal banco brasileiro e perder a primazia, quando o arquirrival Itaú fez o que Aguiar e Moreira Salles haviam combinado: deixar o Unibanco com a presidência do conselho de administração e a diretoria-executiva com o Itaú.

Entregou os dedos para ganhar também os anéis.

Diz-se que o ambiente pesou no Bradesco quando a fusão Itaú-Unibanco, tratada como segredo de estado, foi noticiada. Ao CPDOC, Brandão minimizou o episódio. Argumentou que o Bradesco continuou à frente como conglomerado que atua na área de seguros (com 25% do mercado desde então) e bem à frente no número de agências (5.339 do Bradesco, incluído o HSBC, e 3.681 do Itaú, incluindo as do Citibank).

Fraco consolo numa época em que, como o próprio Brandão reconheceu, "o mundo dos bancos é cada vez mais digital".

Agora, em uma nova etapa, Brandão afirma que superou a preocupação de "entrar num vazio" com a aposentadoria. "Se recriou na minha cabeça a ideia de que se desligar e ter rotatividade para o conselho é importante", disse em entrevista a jornalistas na quarta-feira, após o anúncio de que renunciaria à presidência do conselho do banco. Brandão diz que, agora, fica com mais tempo disponível para a família e ao mesmo tempo continua próximo ao ambiente do Bradesco.

"Minha sala será mantida; o ambiente será parecido, mas sem a mesma carga de responsabilidade.

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