sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Jovens e Negros são os mais prejudicados com a crise

O Valor viu os jovens, não viu os negros

Costumo ler todos os fins de semana o caderno EU&fim de semana, do jornal Valor. A capa para este fim de semana está cheia de fotos de jovens e o título é:

"A crise tem rosto de jovem"

O tema da capa saiu como primeira reportagem, dando grande importância.
Já a entrevista principal é com Rodrigo Maia,
presidente da Câmara e membro do DEM, partido herdeiro da Arena e do PFL.
Como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra.

Quando fui ver a matéria sobre "A juventude encalacrada",
surpreendeu-me que nas fotos de São Paulo, os jovens eram todos... NEGROS.

Surpreendeu-me mais ainda o fato de eles serem negros não ser apresentado na matéria. Ato falho?

São jovens que estudaram, fizeram faculdade, viveram o boom do Real e dos governos Lula-Dilma, e agora estão vivendo o drama da crise econômica do governo ilegítimo de Temer e seus aliados golpistas. O sonho acabou?

"Além de moradores de periferia de grandes metrópoles e da energia própria da juventude, os dois compartilham com tantos outros uma mesma história:

Estudaram, se prepararam, mas o mercado de trabalho lhes fechou as portas."


Além da redução da renda familiar, há o desemprego e a redução do faturamento, quando são microempreendedores.
"Enquanto a perda de renda do trabalho da média da população foi de 1,77%, entre 2015 e o primeiro trimestre de 2017, a dos mais jovens, entre 15 e 19 anos, caiu 10,94%.

O jornal diz: "A cara e o endereço: NA PERIFERIA."

"Esta crise está jogando fora uma geração. Tivemos em 1980 uma década perdida, agora vamos ter outra", afirma José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas.

No final da terceira página da reportagem, aparece pela primeira vez a palavra NEGROS.
"Segundo o estudo do Observatório de Favelas, do Rio, que fez pesquisa sobre os últimos números do índice de homicídios de adolescentes, apurados em 2014, isto nas cidades com mais de 300 mil habitantes,

"os homens correm um risco 13 vezes maior de serem vítimas de homicídio do que as mulheres e OS NEGROS têm uma probabilidade quase três vezes maior que a média".

No final da reportagem que aborda os jovens da periferia em São Paulo,
há um belo relato da advogada Monique Godoy.

Monique trabalhou em um banco, estudou na Unifiel de Osasco, sem precisar de cotas. Passou na OAB, entrou num grande escritório, onde trabalhava 11 horas por dia. O serviço que fazia não era o que imaginava da advocacia. Pediu demissão e tentou ganhar a vida como autônoma.

Conheceu a Educafro, entidade dirigida em São Paulo pelo franciscano frei David, patrocinador de inúmeras ações públicas e judiciais relacionadas a cotas e à inclusão social.

Agora Monique está começando a organizar UM COLETIVO DE MULHERES NEGRAS
e quer fazer um documentário sobre protagonismo dos NEGROS na mídia.

E assim, no final da matéria, aparece o assunto negros pela segunda e terceira vez.

Continuo gostando muito do jornal Valor, mas esta prioridade em ver apenas jovens enquanto jovens da periferia e não registrar que, além de jovens que moram na periferia, eles e elas são negros e negras, me incomodou muito.

No Brasil a maioria da população é negra e as mulheres são maioria em relação aos homens.

Já é hora de todos nós aceitarmos esta realidade e contribuir para que todos sejam iguais perante a lei e perante a vida.

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