quinta-feira, 27 de julho de 2017

Mino Carta e o Sofrimento do Brasil

Vocação para mediocridade?

Para um ilustre jornalista italiano, residente no Brasil, que passou pelos melhores e maiores meios de comunicação nacional, constatar o retrocesso e a desmoralização pública do país é de cortar o coração e de sentir-se impotente ante tanta passividade de parcela majoritária da população.

Vejam a mensagem de Mino Carta,
depois de uma ressaca sem escrever Editoriais...

“Fosse este país aquele que haveria de ser,
os brasileiros teriam paralisado o Brasil
desde a noite do dia 11,
sem arredar pé das ruas e praças até o momento.

Em um punhado de horas, o Senado enterrou a CLT, garantia de trabalho oferecida por Getúlio Vargas à classe operária, um tribunal inspirado nos ditames do Santo Ofício para sentenciar os hereges aos autos de fé condenou sem provas o presidente mais amado do Brasil.

Uma manifestação fluvial se esticaria do Oiapoque ao Chuí, cheia de som e fúria, significando tudo.O Brasil não é, porém, o país que mereceria ser por mil razões, a começar pelas infinitas dádivas recebidas da natureza. De fato, é terra de predação há cindo séculos, dos quais três e meio foram de escravidão.

E casa-grande e senzala continuam de pé, donde a facilidade de entender por que a maioria de um povo que ainda traz nos lombos a marca da chibata não lota ruas e praças e põe a tremer o solo pisado e o coração dos senhores.

É exatamente nesta inércia, nesta apatia, neste fatal alheamento, que a casa-grande aposta, na ignorância de quantos, repito, a maioria, não têm a consciência da cidadania. Daí haver explicações, mas não consolam. Além do mais, os senhores contam com porta-vozes munidos das melhores armas da comunicação, os pseudo jornalistas da mídia nativa, assim como não hesitam em recorrer às soluções mais torpes, aos ardis mais velhacos, para impor seus interesses e garantir sua hegemonia.

Em 1964, apelaram para os generais,
dispostos a comandar um exército de ocupação
para o sossego da casa-grande e de Tio Sam.

Agora, no estado de exceção a resultar do golpe de 2016,
elegem à condição de jagunços os próprios poderes da República,
entregues a quadrilhas mafiosas.

Mesmo nos mais sombrios pesadelos, imprensado entre súcubos e íncubos, jamais imaginei que o País pudesse precipitar em uma situação tão aviltante, e vergonhosa para todos os cidadãos de boa vontade. E aqui, sim, refiro-me à minoria.

Ao longo da vida, expus à luz do sol minha fé de indivíduo e de jornalista, uma só, a bem da verdade. No final de 2005, ao entrevistar Lula no Palácio do Planalto em meio à crise do chamado mensalão, lá pelas tantas o presidente disse textualmente: “Você sabe, eu nunca fui de esquerda”.

Retruquei para evocar uma lição de Norberto Bobbio, a remontar à queda do Muro de Berlim, destinada a contestar quem pretendia decretar o falecimento das ideologias: ser de esquerda significa, antes de tudo, empenhar-se pela igualdade. E Lula corrigiu-se: “Se for assim, sou de esquerda”.

Quando nasceu o PT, 37 anos atrás, fiquei muito satisfeito
, surgia, no meu entendimento, um bastião da luta pela igualdade, primeiro e maior problema a infelicitar o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, graças à inextinguível prepotência da casa-grande.

Imaginava um confronto de larga duração, direto e áspero, e longo porque sem esperança de conciliação, no Brasil possível somente entre os moradores da mansão senhorial por ocasião de divergências extemporâneas. Chance de negociar com a casa-grande só haveria depois de abrir os olhos do povo humilhado e prostrado, a começar pelos trabalhadores.

É uma pressão popular cada vez mais consistente que leva os senhores a desguarnecer os dedos de alguns anéis. É evidente que nestes 37 anos nada mudou, ou melhor, mudou para pior, e muito.

Mantenho com Lula uma sólida amizade de quatro décadas
e me orgulho de ter sido o primeiro jornalista
a lhe perceber o extraordinário carisma e QI elevado.

O único, autêntico líder popular brasileiro.

Talvez surjam outros, embora seja grave que não tenham assumido até agora a ribalta. É hora, tal é minha visão de jornalista e de cidadão, de mergulhar em um profundo exame de consciência, desabrido e sincero, entre o fígado e a alma.

Carta Capital, leitoras e leitores sabem, apoiou Lula na eleição e na reeleição, e o apoiaria hoje, por ter sido, inclusive,
o melhor presidente que o Brasil teve.

Nem por isso deixei de escrever neste espaço que, no poder, o PT portou-se como todos os demais pseudopartidos brasileiros. E que não soube combater dignamente a batalha do impeachment de Dilma Rousseff.

E que, de modo geral, portou-se de forma tíbia nos momentos cruciais. O próprio Lula não enfrentou a ameaça da Inquisição com o peso da sua liderança, como não lhe percebesse a extraordinária dimensão, ou confiasse cegamente na negociação de bastidor.

Fico pasmo, hoje, ao me perguntar onde estão aqueles 90% de eleitores que choraram com Lula, quando, em companhia de Marisa, desceu pela última vez a rampa do Planalto para cair nos braços do povo aglomerado na Praça dos Três Poderes.

E, na minha dolorosa perplexidade, pergunto aos meus botões:

onde está o erro?


É de uma regra transcendente caber a um partido de esquerda despertar o povo e ao sindicato defender seus representados até o derradeiro alento. Não foi o que se deu, donde a necessidade instransponível de um mea-culpa.

Na minha visão, insisto, de jornalista e cidadão, é hora de encarar a realidade, repensar em táticas e estratégias, voltar aos propósitos originais. É hora de autocrítica e renovação, para despir-se corajosamente da tola aposta em algum gênero de acordo com a casa-grande, a qual não é, definitivamente, de direita, é simplesmente o poder diante de uma nação ignara e aturdida. Por outro lado, com raras e honrosas exceções, quem se disse de esquerda mentiu.

Tempos atrás decidi parar de escrever
o que repetia à exaustão, vencido pelo desalento.

Os eventos me forçam ao retorno.

Na selva imersa em negrume, dois raios de luz.

Seis senadoras
assumem à força as cadeiras da presidência na sessão do dia 11, encabeçadas pela nova presidente do PT, Gleisi Hoffmann: elas sabem que qualquer tentativa de negociar com os prepostos da casa-grande destina-se ao fracasso.

Dias antes, ouço da boca do presidente da CUT, Vagner Freitas, sentado na plateia do auditório paulista da entidade, a seguinte sentença: “o PT esteve no poder por 13 anos e meio, e não soube, ou não quis, aplicar a própria Constituição para domar a Globo e o resto da mídia”. disse ainda ter às vezes pensado que o PT gostava mesmo era do plim-plim.
É bom introito para uma desassombrada autocrítica.”


Nota do blogueiro, um dos fundadores do PT e da CUT.


1 - Primeiro é importante destacar que Lula nunca foi militante de esquerda ideológica. Lula sempre foi vinculado à militância da Igreja Católica e, principalmente, o maior líder de massa que o Brasil já teve. Lula é intuição, sensibilidade e coração.

2 - O PT nunca foi um partido marxista, nem marxista-leninista. O PT é um partido que nasceu principalmente da base católica organizada a partir da Teologia da Libertação, da classe média funcionária pública e de Estatais espalhada por todo Brasil, dos exilados e cassados pela ditadura militar, e, minoritariamente de militantes de pequenas organizações de esquerda, esta sim, marxista, mas sem ser de massa e sem feeling para converter o partido de massa em partido orgânico e militante.

3 - O sistema eleitoral brasileiro, combinado com as regras de governabilidade, como herança da ditadura militar, foram criados para IMPEDIR que a esquerda ganhe e governe com legalidade e legitimidade. Um dos maiores erros da Constituinte e do próprio governo Lula, foi acreditar que o Ministério Público, que a Policia Federal e que o Judiciário, serviriam com principal mecanismo de defesa da governabilidade, da legitimidade e do Estado de Direito. Ledo engano. A burocracia sentindo-se respaldada pela direita nacional e internacional, aceitou fazer o papel que antes era dos militares, servindo como instrumento de combate ao PT e ao próprio Lula.

4 - Governar no Brasil significa compor-se com dezenas de partidos fisiológicos e corruptos como forma de ter maioria no legislativo, requer abrir mão da ética, da transparência e consolidação de um país livre e soberano.

5 - Outra importante característica no Brasil foi a Igreja Católica ter sido obrigada pela Igreja Internacional a EXTINGUIR a Teologia da Libertação do território nacional, submetendo-se ao crescimento competitivo e desigual das Igrejas Evangélicas Pentecostais. Os bispos e pastores evangélicos tornaram-se a principal base de apoio populares golpistas, tanto no legislativo, como nas camadas mais pobres.

6 - Finalmente e não menos importante, como gostam de falar os ingleses, tanto Lula como os dirigentes do PT, sempre cultuaram ter acesso à mídia conservadora e golpista brasileira. Como a Folha participou da campanha das Diretas Já, acreditou-se que ela tivesse desistido de participar de novos golpes. Mais um engano. Bastou o PT ganhar quatro eleições presidenciais, para, mesmo sendo governos conciliadores e submetidos, a imprensa coordenar e incendiar o país, pregando o ódio, a mentira e a manipulação. Quando tentamos criar imprensa vinculada à classe trabalhadora, parte significativa dos dirigentes petistas achou que era melhor ser aliada da grande imprensa, em vez de gastar dinheiro e tempo construindo uma rede de imprensa alternativa.

Convivendo com todas estas dificuldades, enfrentando até a própria burocracia partidária, os trabalhadores conseguiram criar, pela primeira vez no Brasil, várias Centrais Sindicais que, fortalecidas em função da unicidade sindical e o imposto sindical, tornaram-se efetivos instrumentos de resistência ao golpe do impeachment e às reformas destruidoras da Soberania Nacional e do Estado do Bem Estar Social.

O Brasil voltou a antes de 1930
exatamente no ano que completou um século
da primeira greve geral realizada no país.

Nunca na história deste país, vimos o ódio de classe estar tão presente em tudo e em todos. Talvez, da mesma forma que depois da primeira e da segunda guerras mundiais no século passado, o mundo presenciou uma grande primavera de melhoria de qualidade de vida e de liberdades democrática, quem sabe este sofrimento sirva de estímulo para que o povo brasileiro saia da letargia que se encontra e finalmente transforme este país numa Nação?

Antes tarde do que nunca!

O Brasil merece respeito,
os brasileiros coragem!

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