sexta-feira, 19 de maio de 2017

Mônica de Bolle solta o verbo e exige saída de Temer

"O Temer não pode ficar onde está"

Quem utilizou a entrevista que saiu publicada no site do Estadão perdeu partes preciosas que foram publicadas no jornal impresso. No site do Estadão, ficamos com a impressão que parte da entrevista foi censurada. Quem diria, um jornal que lutou tanto contra a censura no Brasil, editar com cortes relevantes uma entrevista tão impactante como esta com as declaraçoes de Mônica de Bolle. E olhem que ela não é de esquerda.

Leiam a íntegra da entrevista de MONICA DE BOLLE, publicada no Estadão de hoje.

'Se ficar, Temer vai levar a economia para o buraco', diz economista

Para Mônica de Bolle, retomada da economia não justifica permanência do presidente no cargo.


Entrevista com Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo - 18 Maio 2017 | 17h18

Para a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, o presidente Michel Temer cometeu um erro ao insistir em permanecer no governo e a retomada da economia não é uma justificativa para segurá-lo. "Ele vai levar a economia para o buraco", diz Monica.

'É preciso fazer uma limpeza geral no governo', diz Monica

“É preciso fazer uma limpeza geral no governo”, diz Monica., Na avaliação da especialista, não apenas Temer tem de sair. É preciso também tirar da linha sucessória e do governo todos que sejam investigados na Lava Jato ou paire algum risco de envolvimento.

"O País precisa purgar isso. Na perspectiva de corrosão institucional, se ficar como está, o Brasil caminha para virar uma Venezuela", diz ela.

A seguir trechos da entrevista que concedeu ao Estado.


O impacto da denuncia contra o presidente foi forte. Quais serão os efeitos?

Acho que, no fim, pode ser bom para o país se souberem aproveitar a oportunidade para fazer a purgação total do sistema. Tira Aécio, tira Temer, tira todos os corruptos do governo. Purga. Acaba com essa historia de dividir tudo entre direita e esquerda, PSDB versus PT.

Ficou claro agora: está todo mundo envolvido nesse negócio. E precisa ampliar as ações para a próxima eleição. Quem está fora da política ou que está na política e a gente sabe que são pessoas idôneas, sérias, precisam se unir.

Precisam formar uma espécie de comissão de sábios, por assim dizer, daqui para a frente.
O Temer não pode ficar onde está.
Nem importa mais o que ele disse ou não disse.
O simples fato de ele saber (que a JBS pagava mesadas para garantir o silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro) já o compromete.

Como presidente da República, ele tinha obrigação de denunciar. Só aí ele foi conivente com esse crime – além de estar sendo conivente com vários outros. Ele tem oito ministros implicados na Lava Jato.

Temer não tem legitimidade para permanecer no governo. Agora, isso é um fato estabelecido.


Temer decidiu não renunciar. Qual o cenário?

O Temer deveria ter a hombridade de renunciar. Se ele quer se mostrar tão diferente da Dilma, se quer entrar para a história com alguma dignidade, ele tem que renunciar. Ele tem que fazer o que ela não fez. Não pode ficar nesse jogo de tentar acobertar, de dizer que é tudo mentira. Chega. Ninguém aguenta mais ouvir isso. Insistir é um erro. Precisamos purgar isso. Na perspectiva de corrosão institucional, se ficar como está, o Brasil caminha para virar uma Venezuela.

Temer argumentou que a economia estava se recuperando, as reformas caminhando e se sair, compromete a perspectiva dessa melhora.

A economia não pode ser a desculpa para ficar. O dano que essa gente provocou para o País não justifica fechar os olhos para isso. O que está em jogo aqui é o futuro institucional do Brasil. Isso é mais importante que a economia neste momento. Além do mais, não vai vir alívio para a economia com o governo podre.

Ele vai levar a economia para o buraco - para o buraco. Não tem saída nessa situação, entendeu? Não tem solução de canto. Ou a gente faz uma mudança de rumo agora ou perde a perspectiva de um futuro melhor. Temer não é ponte para o futuro. Temer é ponte para o passado.

É um cara da República Velha. Da república corrupta.
Não é o cara que vai fazer reformas.

Na linha sucessória está Rodrigo Maia, presidente da Câmara, outro investigado na Lava Jato, que vai convocar eleição indireta. Encarar esse rito não daria no mesmo a essa altura?


Não pode ser Maia. Tira Rodrigo Maia. Tira da linha sucessória todo mundo que tem implicação na Lava Jato. Tira do governo. Não pode ficar ninguém sobre o qual recaia alguma possível suspeita. Agora também não temos ambiente político, nem candidatos para fazer eleição indireta ou direta.

Precisamos de tempo para uma transição em que possamos ajustar a economia e a política. Tem gente de bem no Brasil. Tem gente que pensa. Essas pessoas precisam se juntar.

A travessia para 2018 é: coloca a ministra Carmem Lúcia (presidente do Supremo Tribunal Federal). Faz um pacto nacional com gente de bem. Eles precisam se aglutinar. Se unir. E precisa fazer uma limpeza geral no governo. Tira todo mundo que tem implicação na Lava Jato. Aí vamos ver o que acontece na eleição lá na frente.

A república velha, corrupta, ruiu. Acabou.

Mas, desmontar essa estrutura agora não seria mais prejudicial do que benéfico, dado essas pessoas estão comprometidas com as reformas, como a da Previdência e a Trabalhista, que você mesma considera essenciais?

O que estou dizendo agora sempre foi a minha linha de argumentação, desde o começo do governo Temer. Eu calei a minha boca um tempo porque ficou desgastante rebater pessoas que conheço e respeito que jogaram pedra em mim, alegando que moro fora do Brasil.

Acontece que morar fora te dá uma visão desapaixonada para encarar a realidade dos fatos. E a realidade é: esse governo nunca foi capaz de fazer as reformas do tamanho dessas que estão sendo propostas. Não tem a mentalidade moderna que eles exigem. /A.S.

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