sábado, 4 de março de 2017

O quê vai sobrar depois da Odebrechet?

A destruição da economia, da política e do social

Quando a sociedade não atua organizadamente, sempre aparece algum bonapartista. Alguém ou um setor da sociedade que se sobrepõe aos demais e impõe uma "ordem', normalmente não democrática.

O Brasil, pós ditadura de 1964 a 1985, vinha sendo construído tomando por base a Constituição de 1988. Um Brasil pluralista, de economia de mercado, competitivo interna e internacionalmente, laico e "cheio de amor para dar".

Viveu a experiência aventureira de Collor, viveu a experiência neoliberal e privatista de FHC, viveu a experiência messiânica de Lula, viveu a experiência "sem cintura" de Dilma e acabou voltando ao passado com um novo golpe, desta vez um golpe somente civil e manipulado ostensivamente pela imprensa e pelo judiciário.

O judiciário passou a exercer a função bonapartista de "tutelar o Brasil"
, atuando articulado com a imprensa, as empresas multinacionais, parte do empresariado nacional e, principalmente, uma aliança oportunista com o PSDB, já que este não conseguia ganhar as eleições presidenciais contra Lula e o PT. Para a direita brasileira, um golpe a mais não mata ninguém, apenas suspende a democracia temporariamente, depois volta a ter eleições normais sob uma nova hegemonia conservadora.

O quê não se esperava era que o judiciário
estivesse à serviço de um projeto neoliberal e elitista, isto é, atuasse articulado com os interesses econômicos do PSDB e dos Estados Unidos. O judiciário passou a ser o braço político do PSDB. O PMDB e demais partidos são apenas coadjuvantes e merecedores de parcelas das benesses do aparelho público, incluindo financeiro.

A destruição de empresas como a Odebrecht
, mais a destruição da política democrática e o verdadeiro golpe contra os trabalhadores e a transferência de benefícios para as empresas, incluindo a destruição do que resta do "Estado de Bem Estar Social" e a transformação do Brasil numa Índia, com sua pobreza, seus milhões de desempregados estruturais e sua passividade religiosa e social.

A imprensa teve e tem o papel principal
neste processo golpista, sem ela o judiciário não teria legitimidade para ignorar a Constituição e os direitos individuais.

A Folha, que apoiou o golpe desde o início, depois da vitória golpista, cede espaço para posições não golpistas, talvez com a tentativa de passar uma imagem pluralista. Mesmo sendo golpista, ainda é um espaço importante na luta democrática.

Um dos seus articulistas, André Singer, é uma das raras autoridades em democracia e respeito à liberdade.
André Singer andava sumido, hoje voltou com um artigo que é uma grande pergunta. "Quem vai sobrar?"

Leiam a íntegra do artigo de André Singer, professor da USP e que escreveu o melhor estudo sobre Lula e o Lulismo.

Quem vai sobrar depois da delação de Odebrecht?


André Singer – Folha de S.Paulo
04/03/2017

Quando o sigilo for levantado, conviria ler o depoimento integral do empresário Marcelo Odebrecht ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na Quarta-feira de Cinzas juntamente com um bom perfil dos lobistas Jorge e Bruno Luz, presos em pleno sábado de Carnaval. Somadas, a longa delação do megaempreiteiro e a biografia da família cujo pai é considerado o decano do lobismo no país —atuava desde o governo Figueiredo (1979-1985)—, devem revelar o quadro mais completo de como funcionava o financiamento da grande política nas últimas quatro décadas.

A delação de Odebrecht —assim como a teia dos Luz— distribui culpas de maneira democrática. Dilma, Temer, Aécio, Marina, por exemplo, são envolvidos no recebimento de dinheiro ilegal para as suas últimas campanhas. Os personagens, em uníssono, negam qualquer ilicitude; as contribuições solicitadas seriam oficiais.

O capitalista concede que, nas conversas que manteve com os principais atores, os valores específicos e a forma de pagamento eram deixados de fora. Cabia a "executivos", dos dois lados (pagadores e recebedores), acertar tais detalhes. O expediente, plausível, abre uma válvula de escape jurídica, pois, quem sabe, não seja possível provar que as lideranças tivessem conhecimento do caráter criminoso dos recursos utilizados.

Porém, perante o tribunal da opinião pública, já estão condenados. Tome-se o caso de Temer, hoje o mais poderoso dos acusados. Ao dizer que jantou com o então vice, falou de dinheiro, mas não acertou um valor específico, o empreiteiro enfraquece a acusação de pagamento de propina direta ao presidente. Mas ao confirmar encontro na residência oficial, no qual foi tratado aporte para o grupo do peemedebista, cauciona a convicção de que Temer chefiava esquema doloso.

O elo extralegal do sistema fica reconhecido nas palavras do advogado José Yunes, amigo muito próximo e ex-assessor especial de Temer no Planalto. Cerca de 15 dias atrás, em depoimento espontâneo à Procuradoria-Geral da República, Yunes afirmou ter recebido em 2014 um pacote a pedido do atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, embrulho o qual teria sido retirado de seu escritório em seguida. O ex-deputado Eduardo Cunha, preso em Curitiba, dá a entender que o "pacote" continha dinheiro e foi entregue por um doleiro.

Como a confirmar a veracidade da acusação de Cunha, Padilha, hoje o principal articulador do governo, se licenciou em seguida do palácio sem data para voltar. Parece evidente que o "pacote" era forma ilícita de contribuição, acertada genericamente no jantar do Jaburu com Odebrecht.

Amparado em detalhes judiciais, Temer poderá até permanecer no cargo, mas quem restará, em qualquer dos partidos importantes, para sucedê-lo em 2019?

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