quinta-feira, 30 de março de 2017

Folha: Novo projeto editorial e velhas gafes

Seria bom se fosse verdadeiro

Quando houve o golpe de 1964, a Folha (da época) o apoiou. Durante a ditadura militar, a Folha da época, não só apoiou os torturadores, como cedeu veículos e espaço nos seus jornais.

Mais tarde, quando a Folha liderou jornalisticamente a campanha das Diretas Já, cresceu e se credenciou como o principal jornal brasileiro na época. As gerações dos anos 70 e 80 acreditaram que, com a redemocratização, o Brasil teria um jornal com padrão internacional.

Com a conquista de eleições diretas para presidente, a Folha em vez de satisfazer as expectativas dos milhares de leitores e assinantes, resolveu priorizar a defesa do Neoliberalismo e a criticar quem era contra o neoliberalismo. Isto é, a economia passou a ser mais importante do que a política. E a própria verdade...

A partir deste período a Folha passou a praticar uma regra terrível:

A versão era mais importante que o fato.
O fato deixou de ser registrado pelo jornal,
passando a existir somente a versão.

O seu principal concorrente na época, O Estadão,
continuou publicando os fatos, mesmo quando fazia uma interpretação conservadora. Mas publicava o fato e a versão, deixando ao leitor a escolha. Na Folha a escolha tinha deixado de existir. Atualmente, na política, Estadão copia a Folha.

Com estes dois jornais noticiando de forma conflitivas, acabei tomando a decisão de assinar os dois. Depois passei a ler também os jornais Valor e O Globo. Estava cada vez mais difícil saber a verdade na democracia brasileira. Ainda bem que surgiu a internet e as redes sociais...

Para matar de tristeza os assinantes e leitores mais à esquerda, a chamada grande imprensa brasileira, que apoiou o golpe de 1964, não satisfeita com o novo período de democracia, resolveu patrocinar um novo golpe. Só que, em vez de ser um golpe militar, fizeram um golpe civil, parlamentar e jurídico. Uma nova moda lançada no mundo pelos governos ocidentais. Golpes legais,porém, ilegítimos. A verdade faz mal à nossa imprensa?

Hoje, quando fui pegar os jornais, tive duas surpresas:

- a primeira foi que, em vez de receber dois jornais, nós recebemos QUATRO! Dois de cada. Depois vi que era propaganda...

- a segunda surpresa
foi o destaque dado pela Folha ao seu Novo Projeto Editorial. Fiquei animado e fui ler com atenção para ver se, depois do golpe atual, a Folha voltaria a tentar ser democrática e pluralista. O discurso é muito bonito. Diz já na primeira linha da capa: "O compromisso de distinguir notícia de falsidade". Isto é, distinguir a versão do fato.

Talvez ainda por falta de aplicabilidade, ao chegar no caderno "Mercado", deparo-me com relevante notícia, na parte superior da página A29:

"PF não foi responsável, afirma Kátia Abreu"

Parei perplexo. A senadora Kátia Abreu recuou da acusação de que a Polícia Federal fez um estardalhaço político com as empresas de carne brasileiras para beneficiar a concorrência estrangeira e destruir seus proprietários?

Já no primeiro parágrafo a matéria diz:

"Ex-ministra da Agricultura no segundo mandato de Dilma Rousseff, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) AFIRMA QUE FALTOU RESPONSABILIDADE da Polícia Federal na Operação Carne Fraca."

Faltar responsabilidade é bem diferente de "PF não foi responsável". Por mais que a língua portuguesa permita a dubiedade na frase "não foi responsável", o jornal ou foi displicente ou agiu de má fé. Qualquer que seja a alternativa será negativa para o jornal. Sem contar com a insistência do jornal em querer comprometer a autoridade da senadora por ter sido ministra da Agricultura de Dilma Rousseff.

Será que a Folha está querendo "limpar" a imagem da Polícia Federal?
Será que a Folha faz parte da campanha para denegrir a imagem da senadora Kátia Abreu?
Será que a Folha concorda com a campanha que a PF fez contra as empresas nacionais?

Como o novo Projeto Editorial foi lançado publicamente hoje
, eu, como leitor e assinante da Folha desde os anos setenta, mesmo sendo chamado de "leitor idiota por assinar este tipo de jornal", vou manter minha assinatura e continuar lendo o jornal.

Talvez isto revele um lado masoquista da minha parte, mas eu prefiro ter que ler muitos jornais como forma de formar minha opinião, a ficar com ideias dogmáticas e, muitas vezes, desestimuladoras da democracia e da liberdade.

A Folha diz que defende a democracia representativa, eu defendo a democracia participativa. Eu, mesmo sendo de esquerda, cursei a faculdade de Administração de Empresas da FGV-SP por achar importante que o Brasil seja um país pluralista, de economia de mercado e de inclusão social. O Brasil tem tudo para ser uma grande Nação. O que atrapalha é a nossa estrutura conservadora e o medo que se tem da pluralidade e da participação.

Praticar a democracia, respeitar a liberdade individual e coletiva, respeitar a decisão do povo e valorizar os acertos e os erros como aprendizagem é muito difícil. Mas, como dizia Betinho, se cada um fizer sua parte, a gente muda o Brasil para melhor.

Vou morrer tentando ver o Brasil como um país de democracia sólida e de economia competitiva internacionalmente.
Vou morrer tentando ver o jornal Folha de S.Paulo ser igual ao New York Times.
Vou morrer tentando ajudar à esquerda ter uma rede de rádio, TV, blogs, jornais e revistas no Brasil.

Sem a esquerda não tem a direita.
E sem a direita não tem a esquerda.
Uma sem outra, só existem ditaduras.
O resto é conversa mole.

Que tal fazermos parte de uma grande campanha por DIRETAS JÁ?



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