terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Brasil no vai e vêm econômico

Quantos Bresser-Pereira tem o Brasil?

Por mais que a esquerda radical critique o jornal Folha por ter participado do golpe do impeachment, é impossível negar a contribuição que este jornal dá ao publicar um artigo como esse do professor Bresser-Pereira. Isso faz parte da esquizofrenia da Folha. Reconhece-se de direita, mas não quer ser fascista, como tem sido o Estadão.

O Brasil é um país cheio de economistas teóricos que quando vão para os governos fracassam na aplicação de suas teorias. Depois que saem dos governos, principalmente se forem ex-ministros da Fazenda ou diretores do Banco Central, passam a ser consultores e considerados "sábios". Mesmo que fracassados fora da sala de aula e dos artigos nos jornais. Muitos viram diretores de bancos estrangeiros ou viram banqueiros de bancos de investimento.

O professor Bresser, como nós o chamávamos na GV, sempre foi bom professor. Exerceu cargo no Banespa na época de Montoro, depois foi ministro da Fazenda no governo Sarney. Não se destacou muito, mas, depois que resolveu deixar de ser militante do PSDB, voltou a ser um professor e analista brilhante.

Além de comprar seus livros mais recentes, leio com frequência seus artigos. O de hoje, publicado na Folha, deve ser guardado para estudos em todas as escolas, sejam de economia ou não. Bresser relata a História Econômica dos anos recentes do Brasil de uma forma ímpar.

Enquanto o Brasil e o mundo discutem a DEMISSÃO DO MINISTRO DA FAZENDA, da Argentina, publico o artigo de Bresser.

A desconstrução do Brasil
27/12/2016  02h00 Folha
Luiz Carlos Bresser-Pereira

A história das nações é uma história de construção política, mas hoje minha sensação dolorosa é a de que estamos desconstruindo o Brasil.

Desde 1980 a economia brasileira cresce pouco mais de 1% ao ano, per capita; nos dois últimos anos essa renda caiu cerca de 8,4%; o desemprego alcança índices inimagináveis; os resultados decepcionantes do PIB trimestral e da indústria sugerem que a recessão se estenderá por mais um ano.

O baixo crescimento está associado ao regime econômico liberal-conservador instaurado pelas "reformas": abertura comercial e financeira de 1990-92, as desnacionalizações e privatizações de 1995 e o "tripé macroeconômico" de 1999.

Nesse quadro, o crescimento teria que ser necessariamente baixo, porque duas das pernas do tripé impedem o investimento e o crescimento: juros altos ("meta de inflação") e câmbio apreciado no longo prazo ("câmbio flutuante").

E teria que ser entremeado de crises financeiras (1998, 2002, 2015), porque a moeda nacional apreciada e os correspondentes deficit em conta-corrente são desejados pela ortodoxia liberal, que os identifica com "poupança externa", a qual aumentaria os investimentos.

Na verdade, os deficit desejados apreciam o câmbio, aumentam o consumo e a dívida privada e levam o país à crise financeira.

Em 2003 Lula chegou ao poder. Em seus oito anos de governo manteve o regime liberal-conservador intacto; os rentistas continuando a capturar 6% do PIB graças a uma taxa de juros altíssima.

Lula apenas usou o excedente produzido pelo boom de commodities para aumentar o salário mínimo e as transferências aos pobres. Dessa maneira, rentistas e financistas, que já eram os grandes beneficiados do sistema, continuaram a sê-lo, mas agora a eles se juntavam os pobres.

E a classe média tradicional? Foi esquecida, tanto no período conservador (1990-2002) quanto no social-democrático (2003-2014). Frustrada e indignada com a corrupção generalizada, em 2013 a classe média fletiu para a direita liberal.

Antes disto, em 2011, Dilma Rousseff tentara mudar esse regime ao baixar a taxa de juros, mas o câmbio estava enormemente apreciado, e as empresas industriais, sem lucro, não investiram.

Não podiam investir. Como a baixa dos juros não foi acompanhada de ajuste fiscal, a inflação aumentou, a crítica generalizou-se, e o governo bateu em retirada.

Em 2013, já sem apoio na sociedade, decidiu adotar injustificável desoneração de impostos, que destruiu o equilíbrio fiscal que prevalecia desde 1999.

Reeleita, a presidente viu-se diante de crise financeira -a principal causa da recessão. Não uma crise de balanço de pagamentos, nem uma crise bancária, mas uma crise financeira das empresas, quebradas pelos juros altos e o câmbio apreciado.

Para enfrentá-la, acreditou na tese ortodoxa de que a falta de investimentos era problema de "confiança" e nomeou um ministro liberal, que, em plena recessão, realizou um ajuste fiscal. As empresas continuaram sem poder investir, a crise agravou-se.

Seguiu-se o impeachment. A ortodoxia liberal, agora no poder, só viu dois problemas: a inflação (já vencida) e a crise fiscal (que a recessão agravara). Enfrentados eles, novamente a "confiança" e os investimentos voltariam.

Continuou assim a manter os juros altíssimos e a cortar os investimentos públicos. Previsivelmente, a crise econômica aprofundou-se, já que as oportunidades de investimento deterioraram-se ainda mais, ao mesmo tempo em que o governo perdia apoio político. A desconstrução do Brasil está em marcha.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA é professor emérito da Fundação Getulio Vargas. Foi ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC)


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