quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Deu no NY Times: A imprensa ERROU


Nossa imprensa golpista deve aprender com o NY Times

Fazer autocrítica transmite credibilidade à imprensa.

A imprensa brasileira, de vez em quando diz que "errou", mas não faz autocrítica com a qualidade que vemos abaixo. 

Esta tradução da matéria do NY Times saiu na UOL, que pertence à Folha. Ambos precisam aprender com o NY Times...

"Na opinião dos eleitores, o governo não funciona, o sistema econômico não funciona e, como ouvimos com muita frequência, a mídia noticiosa tampouco funciona. Bem, algo certamente não está funcionando. É possível consertar o que há de errado, mas devemos fazê-lo já e resolver o problema de vez."

Mídia dos EUA volta a medir de forma errada o pulso do eleitor

JIM RUTENBERG
DO "NEW YORK TIMES"
09/11/2016  12h32

Toda a deslumbrante tecnologia, os sistemas big data e a sofisticada modelagem estatística que as redações noticiosas dos Estados Unidos empregam para cobrir a política presidencial, uma empreitada fundamentalmente humana, não conseguiram salvar o jornalismo norte-americano de uma vez mais não conseguir acompanhar a história e o restante do país.
A mídia noticiosa acabou por ignorar aquilo que estava acontecendo ao seu redor, e era uma dessas histórias que só se vê uma vez na vida. Os números não eram apenas uma má orientação quanto ao panorama eleitoral –eles na verdade se deslocavam na direção oposta àquilo que estava de fato acontecendo.

Ninguém previu uma noite como essa – que Donald Trump conquistasse uma vitória inesperada sobre Hilary Clinton e, com ela, a Presidência dos EUA.

O erro da noite da terça-feira (8) foi mais que um erro de pesquisa. Foi o erro de não capturar a raiva fervilhante de uma grande porção do eleitorado norte-americano, que se sente excluído de uma recuperação econômica seletiva, traído por acordos de comércio internacional que essas pessoas encaram como ameaça aos seus empregos, e desrespeitado pela elite de Washington, por Wall Street e pelos grandes veículos de mídia.

Os jornalistas não questionaram os números das pesquisas quando estes confirmaram seu instinto de que Trump jamais conseguiria vencer, nem em um milhão de anos. Os partidários de Trump que ainda acreditavam nas chances de seu candidato eram retratados como pessoas que haviam perdido o contato com a realidade. Mas o resultado final demonstrou o oposto.

Apenas alguns meses atrás, grande parte da mídia europeia não previu o resultado da votação que decidiria a saída britânica da União Europeia. E a eleição presidencial de 2016 terminou do mesmo modo que o plebiscito do "brexit".

A eleição foi precedida por mais de um mês de declarações de que a disputa era acirrada, mas estava, para todos os efeitos, decidida. E essa avaliação se manteve mesmo depois da notícia surgida no final de outubro, de que o FBI estava revisando um novo lote de e-mails associado ao servidor privado usado por Hillary quando ela foi secretária de Estado.
A vitória dela seria "substancial, mas não esmagadora", reportou o Huffington Post, depois de garantir aos eleitores que a candidata "tem tudo sob controle". Era uma previsão que mais ou menos batia com a da seção Upshot, do "New York Times", que no começo da noite de terça-feira estimava as chances de vitória de Hillary em 84%.

E então veio a completa virada, quando as grandes organizações noticiosas saíram correndo para apanhar o ônibus que havia acabado de atropelá-las. Por volta das 22h30 (1h30 no horário de Brasília), a projeção da seção Upshot havia se invertido, e mostrava probabilidade de vitória de 93% para Trump.
Outros sites também reverteram suas previsões de uma provável vitória de Hillary para uma provável vitória de Trump. John King, da CNN, proclamou à sua imensa audiência da noite de eleição que, nas duas semanas anteriores, "a conversação que vínhamos mantendo estava dissociada da realidade", com base no mapa de resultados que ele tinha diante de seus olhos, segundo o qual Trump tinha chance clara de chegar à Casa Branca.

Foi uma admissão extraordinária: 
se a mídia noticiosa não estava apresentando um cenário político baseado na realidade, ela estava fracassando no cumprimento de sua missão mais fundamental.

A inesperada virada nos cômputos eleitorais imediatamente despertou questões sobre o valor das modernas pesquisas eleitorais. Será que elas ainda podem capturar com precisão a opinião pública, agora que tantas pessoas são difíceis de contatar por usarem celulares cujos números não constam de listas?
"Acho que as pesquisas foram uma porcaria", me disse Stanley Greenberg, especialista democrata em pesquisas eleitorais, na noite da terça-feira. "Mas acho também que boa parte do erro aconteceu na interpretação dos números".

Mike Murphy, estrategista do Partido Republicano, disse ao canal de notícias MSNBC que "minha bola de cristal foi completamente esmigalhada", porque sua projeção apontava para o resultado oposto. "Esta noite marca a morte da análise de dados", ele acrescentou.
Independentemente do resultado, ficou claro que as pesquisas eleitorais e as projeções subestimaram a força eleitoral de Trump e do movimento que ele construiu, o qual vem desafiando todas as previsões e expectativas desde que ele anunciou sua candidatura, no ano passado.

E é por isso que o problema que emergiu na noite de terça-feira implica em bem mais que más pesquisas. Ficou claro que há algo fundamentalmente defeituoso no jornalismo, que se provou incapaz de acompanhar o clima de oposição às elites tradicionais que está virando o mundo de cabeça para baixo.

Política não gira só em torno de números; dados nem sempre capturam a condição humana, que é o sangue da política norte-americana. E a reportagem política não tem como função única dizer quem vai ganhar e quem vai perder. Mas essa questão –a corrida eleitoral– muitas vezes obscurece tudo mais, e termina por inevitavelmente influenciar outras áreas de reportagem.
É preciso questionar o quanto a cobertura poderia ter sido diferente se as pesquisas e as análises estatísticas não previssem como quase certa a vitória de Hillary. Talvez houvesse uma exploração mais profunda das forças que estava propelindo Trump à vitória, já que boa parte de seu comportamento teria torpedeado a campanha de qualquer um dos candidatos que o precedeu.

Talvez tivéssemos descoberto muito mais sobre como o plano de Trump para construir um muro na fronteira sul do país se sairia no Congresso, ou quais seriam os termos de seu projeto de lei para facilitar processos contra jornalistas. E quanto ao seu plano para bloquear a entrada de pessoas vindas de países ligados ao terrorismo?

E houve a queda mundial dos mercados de ações mundiais na noite de terça-feira, que não representou apenas números em uma tela, mas riqueza desaparecendo. As expectativas estavam desalinhadas, e Wall Street lida mal com expectativas desalinhadas.

O que é espantoso é quantas vezes a mídia noticiosa optou por desconsiderar os movimentos populistas que vêm abalando a política dos Estados Unidos desde pelo menos 2008. Ela inicialmente não percebeu a ascensão do Tea Party, que resultou na onda republicana das eleições de 2010 e 2014, que supostamente seriam os anos nos quais a elite do Partido Republicano retomaria o controle sobre sua insurgência interna.

E em seguida, é claro, veio a inesperada ascensão de Trump à candidatura de seu partido. E depois de cada fracasso, vem a promessa de aprender a lição, e não permitir que o erro se repita. E no entanto as lições não foram aprendidas com rapidez suficiente para acertar no momento mais importante.

Em uma coluna anterior, citei o escritor conservador Rod Dreher, que declarou que a maioria dos jornalistas é cega ao próprio "preconceito contra a religião conservadora, preconceito contra as pessoas do campo, e preconceito contra a classe trabalhadora e os brancos pobres".

Não importa qual fosse o resultado da eleição, decerto ouviríamos os executivos das empresas de notícias repetindo que precisam enviar seus repórteres ao coração do país, para que compreendam melhor os cidadãos.

Mas isso não bastará para capturar algo de essencial: 
o chamado "território visto do avião" não é um lugar. Ele está em parte, em Long Island, Queens e em boa parte de Staten Island (em Nova York), em certos bairros de Miami e até em Chicago. E, sim, são regiões habitadas principal mas não exclusivamente por brancos de classe trabalhadora.

Essas pessoas acham que há algo de tão errado com o país que todas as mentiras contadas por Trump este ano, as incontáveis reportagens sobre suas falsidades –que ele proferiu em quantidade maior do que Hillary– e a vigorosa investigação de suas transgressões pessoais e de negócios as incomodaram muito menos do que a percepção dos males nacionais que Trump estava apontando e prometendo curar.

Na opinião deles, o governo não funciona
o sistema econômico não funciona e, 
como ouvimos com muita frequência, 
a mídia noticiosa tampouco funciona

Bem, algo certamente não está funcionando. É possível consertar o que há de errado, mas devemos fazê-lo já e resolver o problema de vez.

Tradução de PAULO MIGLIACCI - UOL - Folha.


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