quinta-feira, 7 de julho de 2016

Iraque, Estados Unidos e as Guerras

Ditaduras, caos e guerras sujas

O jornalista da Folha, Clovis Rossi, apresenta um artigo interessante sobre a guerra que os Estados Unidos começaram com a invasão do Iraque e que se espalhou por todo Oriente Médio e áreas muçulmanas. Pena que Rossi não diga que a Folha e a  imprensa brasileira apoiaram a posição dos Estados Unidos. Mas isto não desmerece o artigo.

Ele aborda, entre outras coisas, as diferenças entre viver sob ditaduras, caos/anarquia ou guerras sujas como a que os países estão passando.

Enfim, antes tarde do que nunca. Um dia também veremos a Folha fazer autocritica em relação ao golpe do impeachment contra Dilma.

Leiam o bom artigo de Clovis Rossi.

Até que Saddam não era tão ruim
Folha - 07/07/2016  02h00
CLOVIS ROSSI

Diz a lenda que o chamado "chanceler de ferro" Otto Von Bismarck (1815-1898) cunhou a seguinte frase: "Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas."

O relatório de "sir" John Chilcot sobre o papel do Reino Unido na invasão do Iraque indica também que é melhor não saber como são tomadas decisões absolutamente relevantes —a de ir à guerra, por exemplo.

Foi um erro do começo ao fim, demonstra o relatório. 

Um erro que acaba sendo o resgate implícito do papel da ONU, essa instituição tão criticada por sua inação.
É razoável supor que, se a decisão de invadir o Iraque tivesse sido submetida à ONU —como manda, de resto, a legalidade internacional—, talvez pudessem ter sido evitados ao menos alguns dos erros apontados pelo relatório Chilcot.
Talvez se pudesse até ter evitado a guerra, que, como se viu depois, criou mais problemas do que resolveu, ao livrar o mundo de um tirano abjeto como Saddam Hussein.

O maior dos erros, se o olhar se voltar para o presente e o futuro, não para o passado, é o fato de que os planos do pós-guerra no Iraque foram "completamente inadequados".

Uma das consequências inexoráveis: o pós-guerra reabilitou a ditadura, como aponta Ben Wederman, da emissora americana CNN:
"Muitos amigos iraquianos se lembram dos velhos bons tempos de Saddam Hussein, quando atentados terroristas eram raros, (...) quando se podia viajar a praticamente todas as partes em Bagdá ou no Iraque, sem medo de ser alvejado ou sequestrado ou decapitado. Não havia liberdade de expressão, não havia democracia. A regra com que governava Saddam era o medo, mas ao menos havia uma regra. Quando você experimenta a anarquia, a ditadura não parece tão ruim".
Pois é, uma guerra mal planejada, mal executada e que não pensa no pós-guerra, apenas troca uma ditadura pela anarquia.

Ou pior: a anarquia abre espaço para uma versão ainda mais terrível do terrorismo do que a velha Al Qaeda, que se pretendia eliminar com a invasão do Iraque.
Diz o relatório Chilcot: "Entre 2003 e 2009, eventos no Iraque minaram a estabilidade regional, inclusive por abrir espaço para a Al Qaeda operar e por deixar inseguras as fronteiras através das quais seus membros podem se mover."
Completa o colunista David Gardner, do jornal "Financial Times":
"Um resultado do Iraque é o Estado Islâmico, uma repetição ainda mais selvagem da Al Qaeda, como vemos continuamente não somente em Raqqa e Mossul [tomadas pelo EI], mas de Dacca a Medina ou de Istambul a Bruxelas; há ainda carnificinas repetidas em Bagdá" [para relacionar apenas algumas das cidades atingidas mais recentemente por atentados reivindicados pelo Estado Islâmico ou atribuídos a ele].

Se o EI é um legado da guerra, cria-se um problema permanente para o mundo, a julgar pelo que disse ao jornal "Times of Israel" Shadi Hamid (Brookings Institution):
"O EI estabeleceu um padrão de ouro para grupos extremistas. Eles não só explodem coisas, eles também capturam território e, então, impõem seu modelo de governo". 


Nenhum comentário:

Postar um comentário