segunda-feira, 6 de junho de 2016

Odebrecht e a Humilhação Pública

A rotina de um ‘príncipe’ no cárcere

O quê leva o jornal O Estado de S.Paulo a publicar artigos e matérias tão provocativas? Porque humilhar um dos maiores doadores de campanhas eleitorais de todos os partidos, principalmente do PSDB?

Teria sido um surto de honestidade? Se fosse, estaria faltando o principio da isonomia, isto é, tratar todos igualmente. Exigindo transparência e equidade tanto para acusar, como para provar e condenar.

O Estadão, de passado tão glorioso, talvez administrado por mãos que não sejam mais da Família Mesquita, está parecendo a Folha da Tarde, jornal do Grupo Frias, que era usado pelos torturadores da ditadura militar para divulgar as prisões e assassinatos dos presos políticos.

Vejam o artigo do Estadão deste fim de semana:

Delação de Marcelo pode determinar os rumos do grupo e da Lava Jato

Jornal Estadão – 05/06/2016

O mais rico e poderoso dos presos da Lava Jato parece resignado. 
Às vésperas de completar um ano de prisão e com negociação por acordo de delação premiada iniciado, Marcelo Bahia Odebrecht age como se só agora entendesse o recado subliminar do nome da fase da operação que o colocou atrás das grades: Erga Omnes – do latim “vale para todos”.

Na cela de 12 metros quadrados da Custódia da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, sem luz no teto e um buraco de latrina no chão, algumas convicções que Marcelo sustentou publicamente perderam solidez. “Para dedurar tem de ter o que dedurar”, disse a deputados da CPI da Petrobrás, três meses após ser preso, no dia 19 de junho de 2015.

Desde quarta-feira, o presidente afastado do Grupo Odebrecht passou a negociar formalmente com procuradores da República aquilo que pode “dedurar” no esquema de corrupção na Petrobrás. Parte de uma estratégia de defesa que ele mesmo concebeu – sobretudo nos últimos três meses, depois que voltou para a carceragem da PF, com a prisão do marqueteiro do PT João Santana.

Sobre o colchão fino na cama de concreto, Marcelo passou e repassou orientações aos advogados – uma banca de notáveis encabeçada pelo criminalista Nabor Bulhões.

Nos tribunais, as arguições montadas partindo de suas diretrizes foram caindo uma a uma – e com elas a convicção de que alguém rico e tão próximo do poder não fica preso no Brasil. 

Enquanto isso, na 13.ª Vara Federal em Curitiba, novos pedidos de prisões foram autorizados – pelo menos um deles em resposta à atuação agressiva e de confronto com as investigações. “Ele nunca deixou de acreditar que porque é rico e poderoso sairia logo da cadeia”, disse uma autoridade, em reservado.

Cárcere. Marcelo é o único empresário do grupo “VIP” de empreiteiras acusadas de cartel ainda preso em Curitiba. Transformou a cela – que divide com três outros presos – em academia, escritório e biblioteca.

Duas rotinas obsessivas tomam os seus dias: escrever e exercitar-se. Como os demais presos, Marcelo tem direito a uma hora de sol por dia na custódia da PF. As celas não têm luz, só a do corredor, nem TV, nem rádio. As visitas da família são às quartas-feiras – a irmã e a mulher são as mais frequentes.

A maior parte do período de cárcere, “o príncipe” – como passou a ser tratado pelos demais presos – ficou detido no Complexo Médico-penal, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Na unidade, administrada pelo Estado, Marcelo virou o interno 118065, um dos presos do Pavilhão 6 – que no fim de 2014 passou a abrigar a população crescente de encarcerados de colarinho branco.

Perto das acomodações da carceragem da PF, o presídio médico é um “paraíso”, contam os presos que já passaram para regime domiciliar. O espaço é maior, o banho de sol não é restrito a uma hora diária e o uso de televisores e rádios é liberado. Há ainda regalias como a permissão para entrada de alimentos especiais.

Marcelo voltou à carceragem da PF por causa da negociação da delação, mas graças a uma decisão do juiz da Lava Jato, que aceitou um ofício encaminhado pela defesa em que uma médica particular atestou que o “príncipe” estava com saúde “preocupante”, o retorno não foi tão ruim. Marcelo obteve direito a uma dieta especial fortalecida com frutas secas, biscoitos e torradas sem glúten.

Negócio. Forjado pelo avô Norberto Odebrecht e pelo pai, Emílio, a assumir o império empresarial construído pela família, 

Marcelo tem em seu portfólio negociações bilionárias 
que levaram o grupo à sua era de ouro – 
nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Mas, longe do comando das empresas há um ano, seu principal negócio hoje é obter com a Procuradoria da República uma redução da pena – quem sabe, voltar para casa, como fizeram outros empresários delatores.

Aos 47 anos e depois de passar aniversário, Natal e réveillon de 2015 na cadeia, Marcelo foi condenado no mês passado pelo juiz federal Sérgio Moro a 19 anos de prisão. Há ainda outras duas ações penais em andamento na Lava Jato e outras a caminho. 

O cenário obrigou o empresário a dar sua cartada final.

O conteúdo da delação-bomba pode determinar os rumos da Lava Jato e do Grupo Odebrecht. Marcelo Bahia Odebrecht não é só mais um preso – entre os 157 – da Lava Jato. É o maior troféu para os investigadores da força-tarefa criada em 2014 para desmontar o estruturado e bilionário esquema de cartel e corrupção na Petrobrás.


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