terça-feira, 10 de maio de 2016

BRF à venda?

Um país sem autoestima e sempre à venda

Uma vida acompanhando as empresas brasileiras serem criadas, estimuladas pelos governos civis e militares, e, depois de grande, serem vendidas a qualquer estrangeiro que consiga dólar ao custo mais barato que a taxa de juros brasileira.

Porque os empresários brasileiros não querem ser donos de multinacionais? Sabemos que existem algumas empresas brasileiras competitivas internacionalmente e que atuam no mercado internacional. Porém, a cada dia elas são vendidas em parte ou no todo para os estrangeiros. A culpa não pode ser apresentada unicamente como responsabilidade dos governos.

Desta vez, a notícia é sobre a provável venda da BRF. 

Quando conselheiro do BNDES, acompanhei o esforço da diretoria do banco, particularmente de Luiz Carlos Mendonça de Barros, seu presidente, para salvar a Perdigão da falência, nomear novos administradores e arranjar novos acionistas como a Previ, a Funcef e o próprio BNDES. A operação foi tão vitoriosa que, quando a SADIA entrou em crise em 2008 foi a Perdigão que incorporou a Sadia, sendo que a Sadia era bem maior que a Perdigão.

Passaram alguns anos e apareceu como comprador de milhões de ações da BRF, o empresário Abilio Diniz, que se arranjou com outros acionistas minoritários para conseguir ser nomeado presidente do Conselho de Administração da BRF. O que vimos foi que, acionistas minoritários, com a anuência da Previ, da Funcef e do BNDES, transformaram-se em gestores principais da BRF. Mas ainda continua nas mãos de brasileiros.

Agora somos surpreendidos com esta matéria do Jornal Valor. 

Mais uma grande empresa brasileira pode estar sendo vendida aos estrangeiros. Porque nossos empresários são tão provincianos? Tão pouco competitivos internacionalmente? Quando o Brasil vai superar sua síndrome de vira-lata?

Vejam a matéria do jornal Valor.


BRF pode estar no plano de expansão da Tyson

Por Luiz Henrique Mendes  - Valor - 10/05/2016 ­ 05:00

A Tyson Foods, maior empresa de carnes dos EUA, anunciou ontem que pretende voltar a investir no exterior. Nesse contexto, o Valor apurou que há cerca de um mês executivos da companhia visitaram fábricas da BRF no Brasil. Procurada, a BRF não respondeu.
Em teleconferência com analistas na manhã de ontem, o CEO da Tyson Foods, Donnie Smith, afirmou que o caminho para a companhia voltar a crescer no exterior pode se dar por meio de acordos ou parcerias, possivelmente nos segmentos de frango processado e de alimentos industrializados - nos quais a BRF atua, com as marcas Sadia e Perdigão. "Noventa e seis por cento da população [mundial] está fora dos EUA, e o consumo de alimentos vai crescer em todo o mundo", argumentou.
Ainda que a visita dos executivos da Tyson às unidades da companhia brasileira não signifique uma oferta efetivamente, uma fonte próxima à BRF disse que o interesse da Tyson na empresa é a justificativa para a alteração da cláusula de proteção à dispersão acionária (a chamada 'poison pill'), aprovada em assembleia em 7 de abril. Na prática, a alteração ampliou a fatia de ações que investidores podem ter na BRF sem a necessidade de fazer uma oferta de compra para todos os acionistas da companhia brasileira. Antes dessa decisão, a 'poison pill' era de 20%. Agora, é de 33,33%.
Um eventual investimento da Tyson na BRF marcaria o retorno da americana ao Brasil. Em outubro de 2014, a companhia vendeu suas operações no país para a brasileira JBS, por US$ 175 milhões. Ao mesmo tempo, deixou o México, vendendo as operações no país para a Pilgrim's Pride, empresa americana de frango controlada pela JBS.
A saída do Brasil fazia parte da estratégia da Tyson para angariar recursos para digerir a mega-aquisição da americana Hillshire Brands, empresa de alimentos processados que foi alvo de uma acirrada disputa entre Tyson e a JBS (por meio da Pilgrim's Pride). A Tyson pagou US$ 8,6 bilhões para levar a Hillshire Brands.
De lá para cá, a Tyson obteve ganhos de sinergias da aquisição e já conseguiu uma relevante redução do índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado), de 3 vezes no exercício fiscal de 2014 para 1,8 vez nos doze meses encerrados no segundo trimestre do ano fiscal de 2016. "Eles estão bem adiantados com o que tinham se comprometido na aquisição da Hillshire", afirmou outra fonte.
É ancorada nos bons resultados - a empresa divulgou ontem o balanço do segundo trimestre, com lucro operacional recorde - que a Tyson mira o exterior. Para analistas, a companhia está bem posicionada para obter crédito. Conforme a Dow Jones Newswires, analistas do banco BB&T Capital Markets estimaram em março que a Tyson poderia obter US$ 4 bilhões (R$ 14,2 bilhões) para financiar aquisições. Ontem, as ações da BRF fecharam a R$ 45,92, o que dá à empresa brasileira um valor de mercado de R$ 37,3 bilhões. As ações da Tyson, que faturou US$ 41 bilhões no ano-fiscal 2015, subiram 1,47% ontem na bolsa de Nova York.
Do ponto de vista estratégico, uma eventual parceria entre Tyson e BRF seria interessante para as duas empresas, ampliando o poder de fogo de ambas na concorrência com a JBS, líder global na produção de carnes, observou uma fonte. "Afinal, a JBS já tem um pé lá nos EUA", afirma um analista. Para a BRF, que teve uma receita líquida de R$ 32,1 bilhões em 2015, o investimento também representaria uma forma de entrar nos EUA.
Com a flexibilização da 'poison pill' da BRF, a Tyson poderia adquirir uma fatia relevante da empresa e ser a "controladora de fato", indicando membros para o conselho de administração, mas sem alterar a gestão profundamente - ao menos em um primeiro momento. Para um especialista do setor, a Tyson assim evitaria o erro de sua passagem anterior no país, quando adquiriu pequenas empresas regionais de carne de frango, sem marcas fortes. Na BRF, a Tyson contaria com as duas marcas líderes no Brasil.
O desempenho insatisfatório da Tyson em sua primeira passagem pelo Brasil, entre 2008 e 2014, também pode ser explicado pelo contexto da economia americana. Quando aportou no país, a Tyson vivia um cenário adverso nos EUA. Foi também nesse momento que a JBS avançou no mercado americano. 
Afora isso, as diversas tentativas da Tyson de expandir a atuação no Brasil esbarraram no poder de fogo dos concorrentes brasileiros, fortalecidos pelo apoio do BNDES. 
Com o Brasil agora em crise, o jogo poderia mudar. (Colaboraram Fernando Lopes e Alda do Amaral Rocha de São Paulo)
   

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