quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Imprensa e Guerra Híbrida

Pimenta nos olhos dos outros é refresco

Com o fim da guerra fria, o uso do maniqueísmo, onde o culpado é sempre o outro, fica mais complexo. O mundo deixou o embate entre ser capitalista ou comunista. O único modelo econômico vigente é o capitalista. Com pequenas variações. Mudaram os discursos e as aparências. Já não cabe o discurso da guerra bélica. Surgiu a necessidade de um novo tipo de “combate”.

Aparentemente a direita ficou democrata neoliberal e a esquerda ficou social democrata.

Antigamente as forças políticas eram facilmente identificadas em seus diversos segmentos: 1 – extrema direita (Fascistas); 2 – direita (agronegócio, grande comércio e finanças); 3 – centro direita (Burocracia do Estado e Pequenas e Médias Empresas); 4 – centro (Acadêmicos, Funcionalismo Público e Religiosos); 5 – centro esquerda (Sociais democratas); 6 – esquerda (Socialistas); e 7 – extrema esquerda (Comunistas e Trotskistas). Aparentemente acabou a polaridade. A principal consequência do fim da identidade partidária é a fragilização da democracia. O povo tem que escolher entre candidatos e governos que geram empregos e candidatos e governos que não conseguem gerir e manter empregos. É como se a ideologia e os projetos deixassem de existir. Ledo engano...

O mundo está passando por um período de guerras pulverizadas, por transições de hegemonias regionais, onde a Alemanha, a China e a Rússia conseguem fazer algum contrapeso ao poderio econômico e militar dos Estados Unidos, e os demais países tentam sobreviver dentro do possível. Como no século 19, as disputas aparecem mais nas periferias, onde se disputa acesso aos recursos naturais e aos mercados consumidores. Assim, o Oriente Médio, a África, a Ásia, o Leste Europeu e a América Latina transformam-se em palcos de disputas armadas ou não. A guerra aberta só chega aos países principais mais tarde, como foi na Primeira Guerra Mundial, que provocou também a Segunda. O mundo está sendo redesenhado... O Século 21 ainda são se definiu.

O Brasil e a América Latina também fazem parte desta guerra, só não sabiam o nome dela

A América Latina vinha tendo um grande avanço dos setores mais progressistas, promovendo grandes transformações sociais e incluindo milhões de famílias como consumidoras e tendo acesso às políticas públicas. Estava surgindo a tal da Nova Classe Média. Isto sem ameaçar a hegemonia conservadora. A  direita não estava sendo ameaçada, ao contrário, também ganhava muito dinheiro. Até mais do que os milhões de pobres e da classe média. Isto enquanto a economia mundial vinha crescendo continuamente. Com a crise econômica de 2008, faltou dinheiro para manter a festa consumista e os grandes lucros. Acabando com a trégua entre os conservadores e o povo da América Latina. Sem petróleo e sem commodities os governos progressistas viram-se sem dinheiro para as políticas de distribuição de renda com crescimento econômico.

Com a crise econômica, abriu-se a porta para a crise política e depois a crise social. O Brasil, por ser um país continental, sentiu mais o impacto da crise das commodities e da frágil sustentação político parlamentar. Um país com 35 partidos políticos, um governo federal frágil e a recessão chegando forte, estimulou que a direita se reaglutinasse não em torno do malufismo, mas em torno do PSDB, que se transformou na Nova Direita brasileira, representando o neoliberalismo aliado dos Estados Unidos. Faltava o apoio popular a esta Nova Direita, falta que foi resolvida com o uso intensivo da guerra da imprensa articulada com o Poder Judiciário  e tudo que foi possível aglutinar no vale tudo.

Passou a ser o Vale Tudo para derrotar o governo e o PT, que representavam os milhões de incluídos. Esta nova guerra desenvolvida pela imprensa, o judiciário e a direita articulou-se à guerra internacional coordenada por setores dos Estados Unidos, a OTAN na Europa e o Japão na Ásia. Os simpatizantes do PT chamam esta guerra movida pela imprensa e seus aliados como “a guerra dos golpistas”. Nesta semana de Carnaval, lendo uma tradicional revista alemã, a Der Spiegel, descobri que, para eles, esta guerra tem nome:

GUERRA HÍBRIDA.

Vou mostrar a seguir algumas informações sobre como esta guerra híbrida é desenvolvida aqui no Brasil, na América Latina, na Europa e onde for necessária. A guerra fria deixou de existir formalmente, para renascer como guerra híbrida, a guerra do vale tudo antes de transformar-se em guerra civil ou guerra de invasão, como foi no Iraque e em todo Oriente Médio.

Os peritos referem-se a "guerra híbrida" como uma guerra sem uma declaração formal, regras ou fronteiras. O beligerante é anônimo, não se identifica e, muitas vezes opera de forma invisível. Em vez de armas, o combate é feito com palavras. A Internet é o campo de batalha mais importante. As armas bélicas só quando necessárias. Primeiro usa-se a desconstrução das representações e da verdade.

Como diz o ditado, a verdade é a primeira vítima da guerra.

Especialistas em segurança acreditam que a ampliação de suas campanhas de propaganda contra o adversário do neoliberalismo nos últimos anos, tem levado a grandes vitórias, mostrando a importância de manipular a opinião pública, incitar conflitos e desestabilizar as sociedades. Estes grupos articulados internacionalmente estão usando truques do manual da agência de inteligência para conduzir a política. Os "velhos métodos"  - desinformação e desestabilização - são abertamente exibidos.

Estes métodos já eram evidentes a partir da crise do Iraque. Implantam-se estações de televisão e trolls chamados para espalhar propaganda sobre as calúnias na internet e elenco na mídia. A propaganda política cai em solo fértil onde há crise econômica e desemprego, onde a desconfiança dos políticos e da mídia é generalizada. Muitos acreditam que os meios de comunicação estabelecidos estão desacreditados e estão retendo a verdade. Os governos viram frágeis estruturas, sem respaldo social.

Agitando Ressentimento

A crise econômica, combinada com a crise moral, fornece um trunfo que é ainda mais adequado para dividir a sociedade. A propaganda  mostra o governo como tendo sido infiltrado por muitos corruptos, tornando-se incapaz de garantir a segurança dos seus cidadãos. Isto desperta ressentimento contra os políticos que apoiam o governo além de  minar a confiança nas instituições democráticas e os meios de comunicação que não fizerem parte da guerra híbrida.

Os Estados Unidos e a OTAN veem isso como necessário para salvaguardar os seus interesses e de suas empresas. Desde a invasão do Iraque, os Estados Unidos tem estado na defensiva. O Ocidente ganhou a disputa com a União Soviética na década de 1990, tanto militar através da expansão para o leste da OTAN, e em termos de propaganda retratando democracia ocidental como a única forma atraente de governo. Mas isto não tem sido suficiente para consolidar o projeto econômico neoliberal no mundo, tornando-se necessária uma campanha abrangente e estratégica. É como se, para salvar o capitalismo, fosse necessário impor o neoliberalismo no mundo.

Os peritos referem-se a essa estratégia como "guerra de híbrida" - guerra sem uma declaração formal, regras ou fronteiras. O beligerante é anônimo, não se identifica e, muitas vezes opera de forma invisível. Em vez de armas, o combate é feito com palavras. A Internet e a imprensa são o campo de batalha mais importante.

A nova natureza da guerra de propaganda

Agências de segurança têm alertado há algum tempo que o alvo é a opinião pública nos países onde for necessário. Os agentes divulgam notícias e vídeos on-line em Inglês, russo, espanhol, francês e árabe e com grande eficácia. Estes agentes se articulam no Facebook e nos demais espaços das Redes Sociais, conseguindo recursos financeiros através de patrocinadores explícitos ou não. E também há muitos provocadores escondidos fazendo seu dano na Internet, bem como outras organizações.

As distinções entre a guerra e a paz são cada vez mais sutis, no século 21. As guerras não são mais declaradas, mas estão simplesmente começando e, em seguida, já não seguem modelos tradicionais. Como aconteceu nas Primaveras Árabes e no Leste Europeu, nenhum país está garantido. Como já vimos, dentro de alguns meses e dias, um país anteriormente estável poderia tornar-se a arena de um conflito armado amargo e vítima de intervenção estrangeira.

O exemplo europeu

Tanto a NATO como a União Europeia têm-se concentrado nesta questão por cerca de um ano. Gabor Iklody está muito familiarizado com ambas as instituições. De 2011 a 2013, o diplomata de carreira húngaro trabalhou na sede da NATO em Bruxelas, onde ele se dirigiu "novos desafios de segurança." Agora, ele lidera a Gestão de Crises e Planejamento do Serviço Europeu de Ação Externa. Sua equipe, juntamente com outros especialistas na sede da NATO, tem a tarefa de analisar a nova situação de ameaça. De acordo com um documento confidencial da NATO, os adversários estão tentando explorar as vulnerabilidades de cada país.

A OTAN estabeleceu um Centro de Excelência na capital da Letônia, Riga, onde as estratégias na guerra de propaganda são analisadas ​​e contramedidas desenvolvidas. O esforço contra as comunicações estratégicas de Moscou, por exemplo, é chamado de "Stratcom Defesa", mas ainda está em sua infância. O centro tem apenas cerca de 20 funcionários e está temporariamente alojado num edifício antigo pátio no centro de Riga.

O aspecto pérfido da estratégia desta guerra híbrida é que por espalhar tantas mentiras, ela tem um efeito multiplicador imprevisível. Ela borra as linhas entre o que é real e o que é manipulado. Ao invés de tentar bater o seu adversário na luta pela verdade, esta guerra híbrida simplesmente sabota todo o jogo. "A propaganda não coloca para fora uma versão de uma história, mas muitas, e ao fazê-la polui o domínio da informação", disse uma fonte da UE. "No final, as pessoas já não acreditam em qualquer versão" - incluindo a que é verdade.

Esta é uma fraqueza das sociedades democráticas, pluralistas e populares. Em uma democracia, o Estado organiza os recursos para a verdade aparecer, em vez de passar exclusivamente sua versão de verdade. O sistema é baseado na confiança e no poder de persuasão, e é relativamente impotente para proteger-se contra os abusos. As sociedades democráticas não têm outra escolha senão continuar a defender a busca da verdade.

xxx

Pois é, esta adaptação a partir do longo artigo publicado na Der Spiegel abordando “uma guerra híbrida” de Moscou contra a Alemanha, também pode muito bem servir para a realidade que vivemos na América Latina. Só que aqui “o urso” tem outro nome... Na verdade, os estrategistas usam os mesmos manuais de comunicação e de guerra. Isto é muito antigo.

Confesso que fiquei assustado ao ver este tipo de artigo numa revista tão séria como a Der Spiegel. Pelo menos eu aprendi que este tipo de guerra que estamos sofrendo aqui no Brasil tem nome e faz parte de uma grande articulação internacional. Eu já tinha ouvido falar de um tal  Instituto Milênio que é orientado pelos Estados Unidos. Mas aqui a imprensa está fazendo parte da guerra híbrida contra nós e não priorizando a transparência e a democracia. 

A liberdade, a igualdade e a fraternidade, por enquanto, fazem parte do passado. O presente está mais para o “salve-se quem puder”.

Para quem quiser ler o artigo original:

A Guerra híbrida: Propaganda Russa em Campanha contra a Alemanha
http://www.spiegel.de/international/europe/putin-wages-hybrid-war-on-germany-and-west-a-1075483.html
Der Spiegel - 05 de fevereiro de 2016

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