domingo, 24 de janeiro de 2016

Lembranças de um Brasil que deu certo

Lô Borges e a Saudade do Brasil

O Brasil que nós ajudamos a construir está sendo desconstruído. 
Lutar contra a ditadura militar comprometeu a vida de muitas pessoas. Os artistas e os jovens foram fundamentais neste processo de redemocratização do Brasil. À sua maneira, Milton Nascimento, Lô Borges e a Turma da Esquina, também participaram de forma decisiva desta luta contra a ditadura, meso sendo apenas adolescentes cheios de sonhos e esperanças. Afinal, eram jovens de Minas Gerais...

Convivemos atualmente com uma imprensa esquizofrênica. 
Os grandes jornais, rádios e TVs, cada vez mais assumem uma postura fascista, mas ainda preservam uma margem de liberdade e de divergências, principalmente nos cadernos de Cultura. O Estadão, por exemplo, vem degringolando-se diariamente, assumindo um papel de panfleto dos golpistas. E estão contaminando o caderno de Economia e Cultura. Há dois fins de semana que a Folha está bem melhor que o Estadão. Ao ponto de aumentar a vontade de cancelar a assinatura do Estadão. Mas aí ajudamos a matar o Caderno 2 e o Aliás...

O Caderno Ilustríssima da Folha de hoje, traz duas matérias imperdíveis! Uma é de duas páginas centrais sobre a Guerra Civil Espanhola e o Laboratório Nazista. E a outra é um depoimento de Lô Borges, simplesmente divino. Digno dos meninos de Minas Gerais... 

Deleitem-se! Nem tudo está perdido...
Memórias de Mar Azul - Niterói, 1972
LÔ BORGES - 24/01/2016  02h08 - Folha

Um dia o Bituca –assim chamamos o Milton Nascimento– me procurou em Belo Horizonte e eu imaginei que ele quisesse mais uma música para um novo trabalho dele. Tínhamos composto em parceria a canção "Clube da Esquina nº 1" e ele já tinha gravado outra canção minha, "Para Lennon e McCartney".

Para minha surpresa, ele me disse: "Chega de uma música aqui, uma música ali, eu quero é dividir um álbum duplo com você!". Eu teria que me mudar para o Rio, onde ele passara a morar, epicentro da cena musical na época. Topei, e chamamos o Beto Guedes para embarcar nessa. Faltava convencer a minha família, o que não foi fácil: eu tinha 19 anos, minha mãe queria que eu cursasse uma faculdade, o convite de Bituca era tido como uma aventura, ainda mais em plena ditadura militar.

Mas deu certo. Chegamos ao Rio e eu sempre soube que a companhia do Beto Guedes seria essencial. Havia entre nós uma interlocução musical muito forte, compartilhávamos certa fixação pelos Beatles. Já a turma do Bituca estava mais ligada na bossa nova, no jazz... Beto fazia com que eu não me sentisse um estranho no ninho.
Perambulamos por alguns apartamentos na capital carioca, mas o melhor ainda estava por vir: o empresário do Bituca alugou uma casa em Mar Azul para que nos concentrássemos nas composições que integrariam o álbum duplo "Clube da Esquina" (1972).

Mar Azul é uma enseada situada num canto da praia de Piratininga, em Niterói. Um balneário surpreendente, uma vila de pescadores bastante rústica então. Eu, Bituca, Beto e Jacaré (primo do Bituca) nos hospedamos numa casa gigantesca, um sobrado com vários quartos, fincado na areia, com uma vista linda. Levei meus instrumentos para um quarto que elegi como meu e passava o dia inteiro compondo. O Bituca, no quarto dele, não largava o violão.

O Beto ia de um quarto a outro, acompanhando o que cada um fazia. Ali ele não estava empenhado em compor, talvez por saber que o "Clube da Esquina" seria um disco centrado nas composições minhas e do Bituca.
Porém a presença dele foi fundamental, importância que se manteve quando chegou a hora de gravar: basta pegar a ficha técnica e ver que o Beto participou ativamente do disco, ele tocou em várias faixas.

Vivíamos um momento único.
De noitinha, mostrava ao Bituca o que eu havia composto, ouvia o que ele tinha feito e aprendíamos os temas que iam nascendo. Claro que dedicávamos alguns dias a simplesmente curtir Mar Azul, senão teríamos feito um álbum quádruplo!
Lembro-me de acordar cedo e ajudar os pescadores a recolher a rede na pesca da tainha –um peixinho garantido para o almoço.
Músicos, letristas, cineastas, amigos e familiares nos visitavam com frequência. Minha família, muito numerosa, vinda de Belo Horizonte, chegou a passar uma semana lá; era uma grande alegria.

Uma das vivências mais legais era quando a gente recebia a visita de um letrista: era uma canção que a gente ganhava naquele dia. Ronaldo Bastos, por ser niteroiense, era assíduo, e fizemos "Nuvem Cigana" em Mar Azul. Na verdade, a maioria das músicas do "Clube da Esquina" foi concebida lá.
Márcio Borges e Fernando Brant vinham de BH, mal chegavam e saíam fazendo a letra, no mesmo dia uma obra estava finalizada.
Ficamos mais de quatro meses em Mar Azul. De vez em quando batia uma saudade "siderúrgica" de Belo Horizonte. Um apego à terra, ao quadrilátero ferrífero –mineiro tem dessas coisas.

Ficava dois ou três dias e voltava para mais um mês na praia –"Um Girassol da Cor de seu Cabelo" compus numa dessas fugidinhas para Minas.
Entramos em estúdio imediatamente depois dessa temporada.
Curioso é que o álbum foi feito sem ensaios. Eram músicos muito competentes –entre eles, a galera do Som Imaginário, base da banda do disco.
Apresentávamos uma ou duas músicas por dia, os arranjos eram criados na hora e as gravações aconteciam em seguida. A febre criativa em Mar Azul marcou a história do Clube da Esquina.


LÔ BORGES, 64, músico mineiro, autor de "Nuvem Cigana", entre muitas outras canções, participa do show que comemora os 60 anos de carreira de Alaíde Costa, em parceria inédita, no Sesc Pompeia na sexta (29). 

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