domingo, 7 de junho de 2015

China define o jogo mundial

Os Estados Unidos e Inglaterra viram coadjuvantes

O Estadão de hoje, apesar da mediocridade no trato com a política brasileira, publicou um dos melhores artigos que já li sobre a China. Enquanto Estados Unidos e Inglaterra viram coadjuvantes, Alemanha, França e Rússia ficam observando. Não deixem de ler...

O maior experimento político da Terra

*TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL - O ESTADO DE S.PAULO
07 Junho 2015 | 02h 03        

Perspectivas de guerra ou paz na Ásia-Pacífico dependem do sucesso interno da China

Xi conseguirá? Essa é a grande questão política do mundo atual. "Sim, Xi pode", alguns em Pequim me dizem. "Não, ele não pode", dizem outros. O sábio sabe que ninguém sabe.
Há um grande debate em andamento em Washington sobre se os Estados Unidos deveriam mudar sua política para a China em resposta à posição mais assertiva de Pequim sob a batuta do presidente Xi Jinping. Isso inclui a anunciada instalação de artilharia nas ilhas artificiais que os chineses estão construindo sobre recifes no Mar do Sul da China.

Também é assunto importante para todos em toda parte se a China será capaz de sustentar seu crescimento econômico na medida em que esgota seu pronto suprimento de mão de obra barata - e evitar as armadilhas nas quais tropeçaram algumas economias de média renda. Mas, ainda mais que outros países, o futuro da política externa da China e de sua economia depende da qualidade das decisões adotadas por seu sistema político.

Diretrizes. Por enquanto, está claro o que Xi pretende. Ele está tentando manobrar uma economia e uma sociedade complexas em tempos difíceis com mudanças de cima para baixo, lideradas e controladas por um partido leninista expurgado, disciplinado e revigorado. Está fazendo isso em condições sem precedente para esse partido, tentando conscientemente combinar a "mão invisível" do mercado com a "mão invisível" do partido-Estado.
O "grande timoneiro" Mao Tsé-tung é nitidamente uma inspiração, mas o reformador pragmático Deng Xiaoping é outra. Um comentário da agência estatal de notícias Xinhua declarou: "Para reacender uma nação, Xi carrega a tocha de Deng."

Boa parte do reacender da tocha teve a ver com estabelecer o controle sobre partido, Estado, militares e o que existe de sociedade civil depois do caso Bo Xilai tornar visível uma crise interna do partido governante. Mas, como um comunista hereditário, o presidente pode genuinamente acreditar que governantes esclarecidos e habilidosamente autoritários podem lidar melhor com as coisas - a aposta de Lenin, mas também, em variações distintas, de Platão e Confúcio.
O experimento é radicalmente transformador para os milhares de funcionários expurgados que desapareceram no abraço terno do partido e dos órgãos estatais. Ser um dirigente de alto escalão da Fifa é brincadeira em comparação, mesmo que alguns deles possam ter perdido recentemente seus desjejuns suíços de cinco estrelas.

É também extremamente desconfortável para os chineses que acreditam em um debate livre e crítico, iniciativa civil independente e organizações não governamentais (ONGs). Nisso, notei um forte contraste com visitas anteriores a Pequim. Senti um verdadeiro nervosismo entre intelectuais que alguns anos atrás se expressavam sem medo.

Os limites do que pode ser dito publicamente parece estar se estreitando o tempo todo. Ativistas importantes, defensores de direitos civis e blogueiros foram detidos, acusados e encarcerados. Um novo projeto de lei propõe restrições quase "putinescas" a ONGs. Outro estende a definição de "segurança nacional" para incluir ideologia e cultura, com formulações como "promover a cultura excepcional da nacionalidade chinesa e resistir à infiltração de culturas danosas".
Sim, isso tudo é verdade, dizem analistas da vertente "sim, Xi pode" - e, se eles estão fora do sistema, geralmente acrescentam que isso é muito lamentável. Mas, dizem eles, vejam o programa de reforma que está sendo aplicado com igual determinação. Suas principais características não são facilmente resumidas em termos políticos e econômicos familiares, pois a mistura chinesa é única.

Se tudo isso ocorrer conforme o pretendido, o capitalismo democrático liberal ocidental terá um competidor ideológico formidável, com apelo mundial, em especial no mundo em desenvolvimento.

Para o Ocidente, haverá uma esperança: a competição nos mantém alertas. A arrogância ocidental do início dos anos 2000, tanto no exterior, tramando uma mudança de regime no Iraque, quanto em casa, tolerando os excessos turbinados do capitalismo financeiro, certamente tiveram algo a ver com a sensação de não enfrentar uma competição ideológica.

Tensão militar. Agora, esse desfecho obviamente não é o que eu, como liberal e democrata, desejaria a amigos chineses. Mas desejo enfaticamente para eles, e para nós, uma China que experimente mudanças evolutivas e não revolucionárias. Há muitas razões para essa visão - no mínimo, a de que a maioria dos chineses a adota -, mas a mais importante diz respeito a nada menos que guerra e paz.
Um regime comunista em crise provavelmente não conseguiria resistir à tentação de jogar a carta nacionalista mais agressivamente em algum lugar de sua vizinhança, apoiando-se em décadas de doutrinação, uma interpretação seletiva do passado recente e uma narrativa de 150 anos de humilhação nacional. Se a China já está advertindo contra a vigilância americana sobre suas ilhas artificiais, imagine como ela poderia agredir se enfrentasse uma crise sistêmica em casa.
Um conflito armado não precisaria ser diretamente entre a China e os EUA para ser perigoso. Por mais claras que sejam as "linhas vermelhas" traçadas pelos EUA - e essas linhas deveriam certamente ser mais claras do que Barack Obama tem sido, tanto no interesse da China como de todos os demais - o risco de um erro de cálculo seria alto.

Concluo, portanto, que, embora esse não seja o caminho evolutivo que eu e muitos outros prezamos e saudamos na China por ocasião da Olimpíada de Pequim, ainda precisamos torcer para que Xi consiga "cruzar o rio sentindo as pedras".
Minha maior preocupação não vem de uma crença pessoal na democracia liberal como uma realização da liberdade individual, embora seria desonroso fingir que isso não importa, mas do raciocínio de análise política que nos leva à democracia liberal. Pensamentos como "se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se anjos fossem governar os homens, não seriam necessários controles externos nem internos", de James Madison em The Federalist Papers, número 51. Sim, caros camaradas, pode ser verdade, mesmo que tenha sido dito por um americano.

No curto a médio prazos, minha impressão é que o tipo de autoritarismo astuto de Xi manterá não só seu partido no poder, como o show todo no rumo. Esse médio prazo pode certamente se estender pelos dois períodos de cinco anos que são permitidos como mandato formal do presidente Xi - o Partido Comunista chinês aprendeu uma lição da era soviética de Leonid Brejnev de uma maneira que a Fifa claramente não aprendeu.

Ainda há muitos recursos de poder significativos à sua disposição, incluindo alguma genuína popularidade pessoal e um orgulho nacional generalizado. Eu faria, portanto, uma - pequena - aposta que, nesse sentido estrito, "sim, Xi pode" se mostrará correto. Mas e num sentido mais amplo e num prazo mais longo? Fiquem atentos a uma década de 2020 turbulenta. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD, ONDE CHEFIA O PROJETO FREESPEECHDEBATE.COM, E BOLSISTA SÊNIOR NO HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE STANFORD. SEU LIVRO MAIS RECENTE É 'OS FATOS SÃO SUBVERSIVOS: ESCRITOS POLÍTICOS DE UMA DÉCADA SEM NOME'


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