sexta-feira, 5 de junho de 2015

A Esquizofrenia na Economia e na Política

Luiz Carlos Mendonça de Barros dá dicas ao PT e ao PSDB

Grande quadro da elite brasileira, podemos chamá-lo de "neoliberal de esquerda" ou de "centro-direita" para quem gosta de futebol. Na verdade, LCMB, como também é conhecido, juntamente com Belluzzo e Delfim Neto, formam um trio de economistas políticos que é sempre ouvido pela imprensa e pelas instituições. 

Mesmo afirmando que prevê que o "ciclo do PT na presidência acabou", como ele ainda não combinou com os russos, como dizia Garrincha, esta entrevista publicada na edição  do jornal Valor de hoje precisa ser lida por todos que se preocupam com economia, política, eleições e mundo dos negócios. Principalmente por Dilma, Lula e Rui Falcão... 

"BC luta contra esquizofrenia do mercado"

Valor -  Por Lucinda Pinto – 05/06/2015

A economia já entrou em uma fase auto-sustentável de correção, que deve contribuir para levar a inflação para mais perto da meta no ano que vem, reduzir o déficit em conta-corrente para perto de 2% e acomodar o câmbio ao redor de R$ 3,00. Ainda assim, por causa da resistência do mercado em acreditar que essa mudança é para valer, o Banco Central pode ter de prosseguir com o aperto monetário.

Essa é a leitura do ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, para quem o BC enfrenta hoje um "dilema".

O risco de o Banco Central ir mais longe no aperto monetário, para fazer frente ao que o economista chama de "esquizofrenia", é aprofundar o ajuste que a alta de juros já produziu sobre a demanda. E, assim, gerar problemas políticos para a presidente Dilma Rousseff que, alerta, pode não resistir às pressões.

Para Mendonça de Barros, a correção em curso da demanda deve abrir espaço para um alívio dos preços no ano que vem, que pode levar a inflação anualizada para um nível próximo a 4,7 % no terceiro ou no quarto trimestre de 2016. E aí, diz, o BC terá ganhado a guerra. "O 5% é o número mágico. Mas não é no ano, porque isso não dá para fazer. É na margem, seja no terceiro ou no quarto trimestre", explica.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O Copom, do BC, corre o risco de ir longe demais com o aperto monetário?
Luiz Carlos Mendonça de Barros: A gente tem que entender que Copom está vivendo um dilema em torno dessa decisão. De um lado, ele sabe que a economia já entrou em uma correção que eu chamaria de autossustentável.

Isso aconteceu a partir da mudança de sinal da política econômica neste segundo mandato, claramente com a nomeação do ministro Joaquim Levy e das decisões sequenciais, todas elas na direção de que o governo finalmente entendeu que há um desajuste profundo na economia que precisa ser tratado com a medicina tradicional.

E aqui, nós temos um pequeno problema: talvez 90% do mercado não tenha se convencido disso, o que gera o dilema do BC. O mercado não realizou que, numa economia de mercado como a nossa, quando você provoca uma correção dessa natureza, de corte de gastos, restrição de crédito, essa mudança ganha vida própria, ganha velocidade porque os próprios agentes fazem correções microeconômicas que, agregadas, ganham dimensão macro.

À medida que os bancos restringem crédito, o consumidor que está super endividado começa a reduzir a dívida, a pagar a dívida. E a gente precisa entender que, no PIB brasileiro, é o setor privado é que comanda as coisas. O setor público é muito pequeno. O tal superávit primário do governo, do ponto de vista de correção de demanda, é pequeno. Ele é importante porque é o sinal de mudança de política.

Então, o BC pensa assim: 'em tese, eu já poderia ter parado, porque o aperto monetário já produziu o efeito sobre a demanda que gostaríamos'. Mas, como o mercado acha que isso não é verdade, ele é obrigado a subir mais, a falar mais firme.

É muito difícil saber o peso dessas duas coisas: um movimento no sentido de parar os juros porque o processo de recessão, de ajuste já está em andamento; e a necessidade de convencer o mercado de que isso é para valer.

 Valor: Qual é o risco disso?
Mendonça de Barros: O risco é de aprofundar demais essa correção e, em algum momento, a presidente Dilma não aguentar essa pressão toda que ela está tendo. Eu, particularmente, estou convencido de que a presidente Dilma finalmente entendeu que, para que ela termine o mandato com um mínimo de apoio popular, ela precisa trazer a inflação para 5%, 4,8%, 4,7 %... porque, ao fazer isso, automaticamente ela aumenta renda de quem está empregado. Mas o mercado não está convencido disso. E aí o Banco Central é obrigado a ir mais longe.

Valor: Mas o governo não consegue convencer o mercado da mudança ou o mercado é que está falhando nessa compreensão?
Mendonça de Barros: No fundo, a presidente está pagando por todos os erros do primeiro mandato. E também há uma grande má vontade em relação a ela e ao PT. Além de uma mudança de ciclo da economia, também estamos vendo uma mudança de ciclo político, de hegemonia política. Quem não tiver condição mínima de entender conjuntamente política e economia perde essa noção. E o mercado nunca soube fazer isso.

Então, acho que o Brasil virou uma esquizofrenia hoje.
O governo está comprometido com uma política, que é a política que o mercado sabe que é a certa. Mas, por não aceitar essa mudança, reage como se ela não existisse.

Valor: O fato de ter havido uma nova onda de incertezas sobre a evolução do ajuste fiscal pode ter imposto uma dose extra de responsabilidade para o BC?
Mendonça de Barros: Eu acho que o superávit primário ser 0,9%, 0,8% ou 0,6% [do PIB] este ano, do ponto de vista da correção, não quer dizer nada. O importante é a continuidade das decisões para que, no ano que vem, cheguemos aos 2% do PIB [de superávit primário]. Mas também, se for 1,8%, não tem problema, porque é o setor privado quem está fazendo a correção da demanda. O gasto do governo afeta muito pouco.

Tem a questão da estabilidade da dívida sobre PIB, mas isso é outra história. O que o governo precisa agora é passar a imagem - e aí faz falta a presidente ir à televisão para falar uma coisa assim - de que nós vamos fazer 2% no ano que vem. O [superávit] deste ano já não interessa mais.

Por isso, efetivamente, o Banco Central é obrigado a entrar nesse jogo de "over killing", matando mais a demanda do que precisaria.

Valor: E para a inflação, também não haverá problemas se o IPCA não chegar aos 4,5% em 2016?
Mendonça de Barros: Não tem problema nenhum. O que precisa é o mercado ter certeza de que, no fim do ano que vem, talvez no terceiro ou quarto trimestre, anualizado, o IPCA estará perto de 4,7 %, 4,8%. Aí, ganhou a guerra.

Valor: Mas a inflação tem que ficar abaixo de 5%?
Mendonça de Barros: Sim, o 5% é o número mágico. Mas não é no ano, porque isso não dá para fazer. É na margem, seja no terceiro ou no quarto trimestre. E aí aparece outro problema que precisamos acompanhar. No ano que vem tem eleição municipal. E é por isso que a própria presidente quer ir mais rápido, que se faça todas as maldades agora.

Eu temo que o momento mais baixo da economia vá ser perto das eleições do ano que vem. Mas, se ficar claro que o atual ciclo político está encerrado e que haverá um ciclo mais à direita, isso vai ajudar. Porque, tirou a eleição municipal da frente, a próxima é a presidencial, após dois anos, e é com isso que o mercado vai passar a trabalhar.

Pode ter um momento mágico, em que poderá ter a combinação de resultados sobre a economia, que ninguém vai questionar, e a percepção de que o próximo ciclo poderá ser de reformas consistentes. Aí, toda essa esquizofrenia vai passar.

Valor: Outro desafio pela frente é a normalização da política monetária americana. Como a alta de juros nos EUA vai nos afetar?
Mendonça de Barros: Eu acho que isso não vai mudar nada. A economia americana está se recuperando, mas nada extraordinário. E a europeia também começou a dar sinais de reação.
Então, podemos chegar a 2016 e mudar o humor: o mundo pode ter saído definitivamente da crise dos últimos anos, a China começar a ter resultado da mudança de investimento para consumo lá e o Brasil também. Aí poderemos ter um ciclo positivo.

Valor: Sobre o câmbio, reduzir o estoque de contratos de swap cambial é um objetivo importante a ser perseguido agora?
Mendonça de Barros: Isso é secundário. O importante é quando o mercado se convencer que começou a correção na conta corrente. Que vamos para um déficit da ordem de 2%, 2,2%, totalmente financiável com o investimento que tem aqui. Aqui tem mercado.

Essa crise do setor de construção vai permitir, depois de décadas, a entrada de empresas estrangeiras. Eu estou velho o suficiente para ter entendido que a economia do mercado é fantástica, ela funciona, de tempos em tempos cria uma crise monstruosa, mas que depois sai da crise.
O problema é que temos uma geração no mercado financeiro que acha que o capitalismo está fadado ao fracasso.

Valor: Esse cenário para conta corrente é para qual horizonte?

Mendonça de Barros: Vai convergir aos poucos. E o dólar deve ficar perto de onde está, de R$ 3,00. Mas tem gente no mercado que acha que vai para R$ 4,00, R$ 5,00..., mas é por causa da esquizofrenia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário