segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Brasil que dá certo

Investimento no Uruguai abre mercado internacional

Faz tempo que não aparece uma notícia boa sobre o Brasil na imprensa nacional. Os jornais estão tão envolvidos com a campanha contra Dilma e o PT que esquecem de ver as coisas boas. Ainda bem que ainda temos o jornal Valor e uma jornalista de qualidade como Marli Olmos.

Vejam grande parte da materia que saiu na edição desta segunda-feira.

Frigoríficos brasileiros 'turbinam' o avanço
da carne bovina uruguaia

Valor - 15/12/2014 às 05h00

Por Marli Olmos | De Montevidéu

Até 2006, os frigoríficos brasileiros de carne bovina não conseguiam fazer seu produto chegar até o prato dos consumidores em mercados que não compram a carne do país por exigências sanitárias. Decidiram investir no Uruguai, produtor pequeno perto do Brasil, mas cortejado pela qualidade.
A estratégia se mostrou tão acertada que gerou uma multiplicação de investimentos nos anos seguintes. Três grupos brasileiros - Marfrig, Minerva e JBS - são, hoje, responsáveis por 44,6% dos abates bovinos e 45,9% das exportações de carnes no país vizinho (ver infográfico abaixo).
Americanos e coreanos ainda não comem carne bovina brasileira. Mas não dispensam a uruguaia. O prestígio que o país alcançou em mercados mais exigentes se sustenta num conjunto de fatores. O Uruguai se livrou da febre aftosa com vacinação. Também proíbe hormônios - como o Brasil - ou antibióticos na alimentação do gado.
Entre os especialistas uruguaios, comenta-se, porém, que por se tratar de um país pequeno, suas exportações não ameaçam países que também são grandes exportadores, como os EUA. Daí a relação amigável.
Engana-se, no entanto, quem pensa que a chegada dos brasileiros mudou a rotina dos frigoríficos uruguaios. O engenheiro agrônomo César Marquisá continua a controlar a qualidade dos dois frigoríficos que a Minerva tem no país.
Martin Secco, responsável hoje por toda a operação Cone Sul da Marfrig, é filho do fundador do primeiro dos quatro frigoríficos que a empresa comprou no país. "Me pediram para ficar um ano para fazer a transição". Já se passaram oito.
Galletti diz que a Minerva também estendeu ao Carrasco programas de integração com produtores adotados em Pul, o frigorífico que a empresa brasileira comprou em 2011 na cidade de Melo, a 380 quilômetros de Montevidéu. Os executivos mantidos nas operações afirmam que a chegada dos grupos brasileiros ampliou horizontes.
Tacuarembó é um povoado com a maior extensão territorial do Uruguai. Em seus 15 mil quilômetros quadrados, vivem 90 mil habitantes. O frigorífico que leva o mesmo nome, derivado do Guarani, foi comprado pela Marfrig em 2006.
O frigorífico Tacuarembó, que está prestes a ser equipado com energia eólica, foi fundado em 1960. Um descendente de portugueses e brasileiros chamado Fernando Secco Aparício decidiu trabalhar com charque em uma área não explorada, 385 quilômetros distante de Montevidéu e dos demais produtores, que preferiam os arredores da região portuária.
A carne salgada era exportada para Cuba. Mas em 1967, o rompimento nas relações diplomáticas entre Uruguai e Cuba provocou mudança no destino das exportações e no perfil do empreendimento. O charque foi substituído pela carne fresca, e o Brasil passou a ser o principal mercado de exportação.
As encomendas da Europa começaram nos anos 80. Quando o país ficou livre da febre aftosa, surgiram outros mercados. Rússia, Israel, Estados Unidos e China estão hoje entre os principais clientes. Com quatro frigoríficos no Uruguai, a Marfrig se transformou na maior empresa privada do país.
"Teremos dificuldades para competir com a Nova Zelândia e com a Austrália, que há pouco tempo fechou acordo de livre comércio com a China", destaca Secco. O Uruguai exporta mais de 70% das 550 mil toneladas de carne bovina que produz anualmente. Nos dois últimos anos, a participação do mercado chinês nas exportações de carne bovina uruguaia aumentou de 6% para 20%.
O presidente da Associação Rural do Uruguai, Ricardo Reilly, diz que o setor agropecuário gasta US$ 600 milhões em tarifas alfandegárias anualmente. Mais de um terço - US$ 223 milhões - é pago pelos exportadores de carne. Segundo Secco, existe potencial para multiplicar a cota livre de tributos por dez.
Mesmo assim, os grupos brasileiros aproveitam a boa fase da alta dos preços da carne bovina. Segundo Reilly, principalmente na região norte do país. tem sido comum trocar a plantação de soja pela pecuária bovina. O Uruguai também se beneficia do aumento do consumo de proteína animal em outros países emergentes.
Isso aparece também no mercado interno. O crescimento econômico na última década, mais forte nos últimos cinco anos, fez a renda per capita subir de US$ 9 mil para US$ 16 mil. Isso se refletiu também no aumeto no consumo de carne.
A crise econômica argentina também tem influência no sucesso uruguaio. As complicações para exportar a partir da Argentina desviaram investimentos para o outro lado da fronteira. Entre 2005 e 2013, 130 frigoríficos foram fechados na Argentina. O volume de exportações caiu 75% e hoje somente 7% da carne produzida no país segue para o mercado externo.

Conforme o balanço da Minerva, o Uruguai tem se destacado pela "dinâmica muito positiva, com boas margens em toda a cadeia produtiva em função da excelente precificação de sua carne no mercado internacional, da boa disponibilidade de gado e da maturidade da indústria frigorífica".

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