domingo, 9 de novembro de 2014

O Muro de Berlim e as Ironias da História

Faltam Historiadores e sobram Economistas

Ler jornais no Brasil se transformou em uma tortura. São economistas de mais e historiadores de menos. E mesmo os jornalistas estão sendo contaminados por este desvio conjuntural. A hegemonia do capitalismo financeiro sobre o capitalismo industrial e produtivo. No financeiro sobram economistas, no produtivo faltam engenheiros...

Como hoje comemora-se os 25 anos da queda do Muro de Berlim, olhando todos os jornais, o único artigo que me motivou a reproduzir foi este do professor de História da USP, publicado na caderno EU&Fim de Semana do jornal Valor.

Apesar das ironias, tem muitas verdades, principalmente, as não reconhecidas pelos economistas e jornalistas políticos.

Vale a pena ler...

Ironias da história sem o Muro
Por Angelo Segrillo | Para o Valor - 07/11/2014 às 05h00

Quando tentamos fazer um balanço dos 25 anos que se passaram desde a queda do Muro de Berlim, uma primeira constatação é que os principais desenvolvimentos nas relações internacionais desde então se fizeram de uma forma irônica, desafiando a lógica que seria de se esperar dos acontecimentos envolvendo aquele 9 de novembro de 1989. Vejamos algumas dessas ironias.
Primeira ironia: EUA e mundo unipolar. A queda do Muro de Berlim foi seguida, logo depois, pela derrocada da única outra superpotência além dos EUA: a União Soviética. Como os EUA ficaram sem rival à altura, imaginou-se que o mundo se tornaria unipolar, com os EUA reinando como a única superpotência hegemônica e dominando economicamente o mundo através da globalização centrada em si. Entretanto, não foi isso que se verificou. Economicamente, nunca os EUA estiveram tão fracos como agora.
O momento máximo do poder econômico do país foi no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, os países europeus, a URSS e outros tiveram grande destruição enquanto os EUA não só passaram incólumes como sua produção aumentara para suprir os aliados. Assim, logo após o conflito, os EUA respondiam sozinhos por pouco mais de 50% da produção industrial mundial.
De lá para cá, a participação dos EUA no PIB mundial vem decrescendo de maneira mais ou menos constante: hoje, está abaixo de 20%. Não, o mundo atual não é um mundo em que o gigante americano reina mais supremo do que nunca. Pelo contrário, está mais fraco que no século XX. E, com esse enfraquecimento econômico dos EUA tendo consequências políticas e militares, os especialistas têm dificuldade em definir a "polaridade" do mundo atual.
Como classificá-lo de unipolar se os EUA estão enfraquecidos e outros países subindo?
Bipolar certamente não é, pois a China ainda não chegou ao mesmo patamar dos EUA. Multipolar seria uma boa tentativa, se olharmos apenas a parte econômica, mas, militarmente, os EUA ainda estão bem acima dos outros. Não é à toa que abundam as classificações "mistas", como a de Joseph Nye Jr. (mundo multipolar no tabuleiro econômico e unipolar no militar) ou a de Samuel Huntington com seu estranho conceito de unimultipolaridade...
Segunda ironia: o fim do comunismo. A queda do Muro de Berlim e o declínio da URSS chamaram a atenção dos regimes socialistas como ineficientes, principalmente no campo econômico. Simplesmente, não teriam conseguido sobreviver à competição com o Ocidente em termos econômicos e tecnológicos. A derrubada do Muro de Berlim decretara o fim do comunismo como alternativa econômica válida. Que o dissessem os alemães orientais em 1989, literalmente correndo por cima do Muro para o paraíso de consumo da Alemanha ocidental. Entretanto, passados anos da queda, vemos que o centro mais dinâmico da economia mundial é... um país comunista!
A China ultrapassou como um bólido vários países avançados, para chegar ao posto atual de segunda maior economia do mundo (com possibilidades concretas de chegar ao primeiro lugar em menos de duas décadas). Por essa ninguém esperava: um país comunista começando a ditar as regras do jogo econômico mundial. É claro que se pode discutir se a China é realmente um regime socialista ou se já passou totalmente para o lado da economia privada capitalista, mas esse é um tema controverso.
O que se pode dizer, com certeza, é que é uma economia em transformação, em transição. Mas para onde irá é uma incógnita. A experiência da URSS mostra que as reformas do tipo "recuo à economia de mercado" nos países socialistas podem ter diferentes resultados. A perestroika resultou no abandono total do socialismo e abraço do capitalismo. Mas a NEP (Nova Política Econômica) nos anos 1920 na URSS (que também foi um "recuo a mecanismos de economia privada e de mercado") não desembocou no capitalismo e sim na industrialização dos planos quinquenais a partir da década de 1930.
Quando a China se tornar a primeira economia do mundo, deixar de ser subordinada e passar a ditar o ritmo da economia mundial (como os EUA fizeram por muito tempo), como se comportará? Isso não é tão claro. "Quand la Chine s'éveillera, le monde tremblera", já dizia um francês arguto do século XIX...
Terceira ironia: o fim da Guerra Fria. A queda do Muro de Berlim em 1989 e a desintegração da URSS em 1991 marcaram o fim da Guerra Fria. Este é um axioma autoevidente para a maioria dos analistas. Os EUA venceram e a URSS perdeu. Um contendor aniquilou o outro, terminando com a contenda. Entretanto, se olharmos hoje, parece que a Guerra Fria está de volta.
Nos últimos anos, os EUA têm entrado em rota de colisão direta com a Rússia, o que levou muitos observadores a propor que uma espécie de Guerra Fria está acontecendo no tabuleiro internacional. Isso é ainda mais surpreendente porque, logo depois da derrocada da URSS, nos anos 1990, com Yeltsin, parecia que a Rússia (inclusive por conta de seu enfraquecimento econômico) estava se aproximando do Ocidente.
Era realmente o fim da Guerra Fria, até por causa da exaustão econômica de um dos ex-rivais. Entretanto, nos anos 2000, sob Putin, uma Rússia algo já recuperada economicamente passa a seguir uma trilha mais assertiva, por vezes até agressiva, em relação à superpotência americana. Este é um desenvolvimento surpreendente, não só pela lógica puramente advinda da queda do Muro, mas também pelo que aconteceu nos anos 1990. Não é à toa que o símbolo da Rússia é uma águia de duas cabeças olhando em direções opostas...
Esses são alguns dos desenvolvimentos surpreendentes no mundo nos últimos tempos que foram contra a lógica do que se poderia esperar 25 anos atrás, quando testemunhamos em transmissões ao vivo a queda do Muro de Berlim.
As ironias da história...

Angelo Segrillo é professor da USP e autor do livro "De Gorbachev a Putin" (ed. Prismas)

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