quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Morreu um herói da liberdade

Ben Bradlee, o homem que derrubou Nixon

Mesmo estando no meio da maior guerra suja que o Brasil já teve, com estas eleições presidenciais, onde a imprensa brasileira prima pela mediocridade e a campanha suja contra o PT e a presidente Dilma, vale a pena parar  para ler o noticiário sobre a morte do maior jornalista americano dos últimos anos.

O Estadão, que também deixou de ser um bom jornal para assumir a mediocridade eleitoral, publica hoje um artigo muito bom, assinado por Donald Graham, executivo da Graham Holdings Company e do W. Post, com o título “Um herói da redação de um grande jornal americano”. Infelizmente não consegui achar esse artigo na internet e precisei aproveitar este outro bom artigo publicado no El País, que já foi um ótimo jornal, mas depois que passou a publicar em português perdeu qualidade.

Faço um apelo para que todos leiam o artigo abaixo. 
Nem tudo está perdido. Ante um mundo com tanta mediocridade e covardia, ainda existem heróis. É só saber procurá-los.  Do caos renasce a luz. Das experiências das outras pessoas, vamos aprendendo a superar os desafios pela liberdade e pela universalidade. A Terra é nossa Pátria.

Morre Ben Bradlee,
editor que consagrou
o ‘The Washington Post’

Jornalista comandou o jornal durante o caso que forçou a demissão de Nixon nos EUA

   
O mundo do jornalismo acaba de se despedir de uma de suas maiores figuras. Ben Bradlee, ex-diretor do jornal The Washington Post e responsável pela investigação do “caso Watergate”, que acabou forçando a renúncia do presidente Richard Nixon em 1974, morreu nesta terça-feira em sua casa, na capital norte-americana, aos 93 anos. Washington fica, assim, órfã de um dos talentos jornalísticos que marcou a trajetória de um jornal, de uma cidade e de todo um país.
Desde então, nenhum outro jornalista norte-americano conseguiu semelhante carta de apresentação: diretor do diário que descobriu um escândalo de tanta magnitude que acabou provocando a renúncia de um presidente -- nos Estados Unidos. A única vez que isso ocorreu na história. Bradlee dirigiu o Post de 1968 a 1991, e a ele também é atribuído o fato de ter transformado o jornal em um dos três veículos mais lidos e respeitados do país. O objetivo era inalcançável até aquele momento, apesar de a redação ficar a poucos quarteirões da Casa Branca, no coração da cidade, a capital do país mais poderoso do mundo.
Entrar na redação do Post é pisar pelos mesmos corredores em que Bradlee confabulava com Katharine Graham, então presidenta da empresa dona do jornal, até provocar a queda de Nixon. É caminhar entre as mesas nas quais os dois discutiam avanços na investigação com os dois repórteres cujas carreiras também ficariam ligadas para sempre a esse triunfo do jornalismo sobre o poder e a corrupção: Bob Woodward e Carl Bernstein.
“A história do Washington Post moderno começa no dia em que Kay Graham nomeou Bradlee como diretor. Ele era o melhor”, declarou na terça-feira Donald Graham, que foi presidente do grupo dono do diário até sua venda para Jeff Bezos, há um ano. “Ele pressionou o quanto pôde para publicar os ‘Papéis do Pentágono’, liderou a equipe do ‘caso Watergate’. E fez muito mais. Sua ambição para melhorar o jornal ainda é sentida em cada canto da redação”.
Faz tempo que o Post não repete os êxitos daquela época, mas nenhum outro veículo conta com as mesmas credenciais. Ninguém mais pode se vangloriar de ter realizado o sonho de jornalistas do mundo todo, agitando as esferas do poder, como quando eles tornaram pública a corrupção da campanha eleitoral de Nixon. O sonho se tornou realidade para Bradlee, transformado para sempre, ao lado de Nixon, no nome próprio de uma entrevista exclusiva que inspiraria gerações e gerações de repórteres durante décadas.
Bradlee chegou ápice da profissão depois de ter trabalhado como jornaleiro em Beverly, sua cidade natal, no Estado de Massachusetts. No ano passado, foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade, o mais alto mérito civil reconhecido nos Estados Unidos. O presidente Barack Obama homenageou um veterano da Segunda Guerra Mundial que, ao voltar para casa, “continuou lutando pelas liberdades”. “Sua paixão pela exatidão e sua busca incansável pela verdade seguem estabelecendo as bases do jornalismo”, reconheceu o presidente diante de um dos jornalistas mais respeitados de sua geração.
De luto, o jornalismo norte-americano é agora um coro de vozes de admiração e reconhecimento pelo trabalho de Bradlee. Após sua passagem pela frente de combate no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, ele se tornou correspondente da revista Newsweekna Europa. De volta a Washington, ajudou a família Graham a erguer o Post. A presidenta do grupo, Kay Graham, filha do primeiro dono do jornal, o nomeou como diretor. O legado de Bradlee vai além do prêmio Pulitzer ganho pela cobertura do “caso Watergate”: é o de um diretor a quem se atribui ter contagiado toda a redação com a ambição de contar histórias e, assim, fazer do jornal uma instituição, um ofício em um pilar da democracia.

Para Woodward, a morte de Bradlee é o fato que verdadeiramente marca o fim do século XX. “Não há comparação. Ele foi o editor do século XX”, declarou o jornalista ao site Politico.com. Seu companheiro no “caso Watergate”, Bernstein, credita a Bradlee a responsabilidade de ter mudado não só o jornal como também a maneira pela qual se percebe e se define o jornalismo desde então. “Ele construiu uma instituição”, recorda David Remnick, estagiário durante os meses em que Bradlee revelou, junto com Woodward e Bernstein, o escândalo do caso Watergate. “Este jornal não era nada antes da chegada dele. Não era sequer o melhor jornal de Washington. Tornou-se o segundo maior diário do país. Deu a ele toda a sua ambição”.
Sempre ao lado de Katharine Graham, Bradlee também será lembrado pela batalha judicial com o governo norte-americano que transformaria para sempre as relações entre a imprensa e o poder. O diretor e a presidenta do Post esbanjaram determinação ao publicar os “Papéis do Pentágono”, a reportagem exclusiva que revelaria, junto com o The New York Times, a história secreta da Guerra do Vietnã. Apesar das ameaças da Administração Nixon, os dois jornais defenderam seus argumentos até o caso chegar à Suprema Corte. A vitória deles reforçou ainda mais os já poderosos pilares da liberdade de imprensa norte-americana.
Bradlee conseguiu duplicar os números de circulação do jornal nos 26 anos em que foi seu diretor, e o transformou em um diário com escritórios em boa parte do mundo, algo ao que não tinha podido aspirar até então. Sua figura representa também a poderosa influência que o jornal exerceu quando era seu diretor e coincide com a presença de Kay Graham à frente da empresa. O Post marcava a atualidade informativa da cidade da mesma maneira que ditava o ritmo de sua vida social. Graham nunca escondeu suas conversas com o presidente Lyndon Johnson e Bradlee conservou sua amizade com John Kennedy.
A família de Bradlee anunciou que sua morte se deu por causas naturais. Recentemente sua esposa tinha revelado que Bradlee estava sofrendo de demência, fora internado e não tinha muito tempo de vida. O diagnóstico tinha acabado de ser confirmado, mas ela descreveu a percepção dos primeiros sintomas como “a experiência mais terrível” que tinha vivido. Bradlee se casou três vezes e teve quatro filhos. O primogênito, Ben Bradlee Jr., chegou a ser diretor do jornal The Boston Globe. 


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