quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Alemanha, Brasil e o Mundo

Recessão Econômica e Fascismo

Antigamente se ouvia que “Quando os Estados Unidos ficavam gripados, os países pobres ficavam tuberculosos”, atualmente  a mesma frase vale para a China e a Alemanha. A economia mundial passa por estes três países.

Os Estados Unidos estão mancos, a China se retrai e a Alemanha tem uma “queda em parafuso”. Ou os demais países constroem mecanismos compensatórios de importação e exportação, ou a recessão econômica voltará a atormentar as democracias.

Quando há crise econômica, crise de segurança e falta de perspectivas, o fascismo sempre reaparece. Estamos em 2014, a 100 anos da primeira grande Guerra, que serviu de base para a segunda…

A direita cresceu na Espanha, cresceu nos Estados Unidos, cresceu na França e está crescendo na Alemanha. O Brasil está passando pelo mesmo ataque conservador, que vem pregando o ódio e a segregação. A direita saiu do armário no Brasil e estamos vivendo um grande retrocesso nos valores e nos direitos coletivos.

Os progressistas precisam ser mais criativos e criar novos projetos de democracia participativa com crescimento econômico e solidariedade.   Os discursos velhos não servem para a atualidade. O fascismo está reaparecendo em nome da ordem e da segurança. Precisamos intensificar nossa democracia e nossas formas de organização.

Vejam esta materia de Gilles Lapouge, que saiu no Estadão.

Alemanha em debandada

Estadão – 14/10/2014
Gilles Lapouge

Só nos faltava essa!

A Alemanha, a maravilha da Europa, a laboriosa, virtuosa e eficiente Alemanha, que empurra com bravura a Europa que segue atrás dela, além de repreender Grécia, Itália e França, eis que ela também tem uma "queda em parafuso".

No segundo trimestre do ano, a Alemanha viu seu Produto Interno Bruto (PIB) recuar 0,2%. O terceiro trimestre não foi melhor. Nesse caso, o país entraria em recessão, como Grécia ou esses países vulgares do "Club Med", que Berlim alfineta há cinco anos.

Na França, muita gente se regozija com o desfalecimento da economia alemã. Nas escolas, os piores da classe sempre dão uma sonora gargalhada quando o primeiro obtém uma nota ruim.

Que estupidez! A ducha fria da Alemanha sobre uma União Europeia perpetuamente letárgica é uma péssima notícia.

Claro que a Alemanha vende para a China, para os países emergentes, para Rússia, Estados Unidos, mas seu grande mercado é a zona do euro, que absorve 40% das suas exportações.

A surpresa que tomou conta dos europeus ao saberem que       a locomotiva da Europa está avariada, à margem da estrada, é bizarra.

Há anos chegam sinais negativos de Berlim e ninguém viu.

Um dos maiores economistas alemães, Marcel Fratzscher, que integrou no passado o Banco Central Europeu (BCE) e hoje é conselheiro do governo de Berlim, já previa isso e repete sua teoria num livro que será lançado em alguns dias intitulado Die Deutschland Illusion (A Ilusão Alemã).

Em suas conferências, ele faz uma pergunta para a plateia:

"Existe um país que desde 2000 registrou um crescimento mais fraco do que a média da zona do euro, cuja produtividade pouco aumentou e onde dois a cada três assalariados viram sua renda cair? Qual é esse país? A Alemanha."

Fratzscher enumera no seu livro os males da Alemanha.
São inúmeros, mas o mais grave é a fragilidade dos investimentos. A Alemanha é um país que se tornou avarento. Há dez anos evita gastos. Nos anos 90, o Estado e as empresas investiam 25% do PIB em infraestrutura, taxa que caiu para 19,7% em 2013.

É sobretudo no caso das vias de comunicação que a mesquinhez alemã foi mais prejudicial: rodovias, estradas nacionais, pontes, eclusas, estradas de ferro, vias de navegação estão deterioradas. A Alemanha parece um corpo humano em que a circulação do sangue diminuiu. Uma ponte rodoviária com uma enorme necessidade de reforma. O que não ocorre.

É o caso também das escolas, incluindo os jardins de infância, que não têm mais nível internacional. Berlim e Estados não querem abrir seus cofres. São os pais que devem financiar. Se recusarem, as mulheres devem retirar seus filhos das creches e se ocupar deles. Portanto, perda de mão de obra e freio na produção.

E sabemos que os bilhões que deveriam ser investidos nos jardins de infância seriam rapidamente rentabilizados.

Para conter o declínio das redes ferroviárias e rodoviárias, serão necessários 10 bilhões por ano. Ora, isso está fora de questão. O governo federal, obcecado por seus equilíbrios orçamentários, prevê um gasto de apenas 1,25 bilhão por ano até 2017.

Um outro dado oferecido por Marcel Fratzscher: para manter os investimentos num nível decente seria necessário que o Estado e as empresas gastassem anualmente 103 bilhões mais do que estão despendendo hoje.


Para o economista, o que observamos é o "inverso do milagre alemão" que explica a pane que a Alemanha sofre há seis meses, uma pane estranha e que esperamos seja a mais rápida possível. Pois, caso contrário, a Europa inteira é que perderá o fôlego. / Tradução de Terezinha Martino.

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