quinta-feira, 12 de junho de 2014

Iraque e a Tragédia Americana

Herança Maldita

Apesar de hoje ser o dia do início da Copa do Mundo no Brasil, quando as seleções dos Estados Unidos e do Irã estarão participando, não posso deixar de repercutir esta boa matéria de Clovis Rossi na Folha de hoje.

É com uma tristeza imensa que leio sobre o vem acontecendo no Oriente Médio em decorrência das invasões americanas após o atentado terrorista de 11 de setembro. Um ato terrorista gerou outros atos terroristas contra sociedade e povo que estavam vivendo com todas as dificuldades mas não tinham milhares de mortes como aconteceram desde então.

Novas barbáries estão aparecendo, os países transformando-se em sociedades sem ordem e sem Estado, onde quadrilhas e milícias controlam comunidades e regiões. Tudo isto faz parte do mal que vem crescendo no mundo. A barbárie que antecede às grandes guerras...

Da mesma forma que a Inglaterra e a França dividiram povos e regiões na África e Ásia nos séculos anteriores, os Estados Unidos estão desorganizando povos e regiões atualmente. E a ONU já não tem autoridade para decidir nada.

Que o momento de unidade mundial da Copa do Mundo no Brasil sirva como uma semente de humildade e tolerância entre os povos e países.

Clovis Rossi, apesar da opção conservadora da Folha, continua sendo um grande jornalista. Leiam sua matéria de hoje.
Oriente Médio vive possível nascimento de 'Jihadistão'
Dá a impressão de que o Eiil quer reproduzir a ocupação do Afeganistão pelo Taleban

CLÓVIS ROSSICOLUNISTA DA FOLHA – 12/06/2014

Já há especialistas que chamam de "Jihadistão" a província iraquiana de Al Anbar, epicentro de uma "guerra santa" conduzida pelo EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), uma das franquias da Al Qaeda.

O neologismo se deve principalmente ao fato de que não se trata, agora, da tática convencional dos "jihadistas" que é praticar atentados e fugir em seguida para santuários fora do alcance do governo. O que estão fazendo é ocupar territórios --e não um território convencional: Mossul é uma cidade antiga, de grande valor simbólico.

Mais, como escreve Bruce Riedel, diretor do Projeto Inteligência do instituto Brookings: "O EIIL está, na prática, criando um baluarte através do deserto sírio, no coração do mundo árabe, borrando as fronteiras estabelecidas faz um século por britânicos e franceses, depois da queda do Império Otomano".

É uma alusão ao fato de que os "jihadistas" ocuparam não apenas uma parcela importante da província iraquiana de Anbar mas também da província síria de Raqqa. Dá a impressão de que o EIIL quer reproduzir a ocupação do Afeganistão pelo Taleban, mas em uma área muito mais central no mundo árabe-muçulmano.

Esse suposto ou real objetivo torna menos relevante a divisão sectária no Iraque. O governo do primeiro-ministro Nuri al Malik (xiita) marginalizou a minoria sunita, que governava com Saddam Hussein até a sua deposição pelos Estados Unidos.

Como o EIIL é sunita, a primeira impressão era (ou ainda é) a de que a ofensiva do grupo era uma revanche contra os xiitas.
Se essa impressão corresponder aos fatos, a crise poderia ser resolvida ou, ao menos, atenuada com uma política de inclusão dos sunitas nas estruturas governamentais iraquianas.

"Maliki deve decidir se oferece participação real no poder à desencantada minoria sunita ou se continua com a política de marginalização e repressão", diz a "El País" Ihsan al Shamari, da Universidade de Bagdá.
O problema fica muito mais complexo, no entanto, se Abu Bakr al-Baghdadi, líder do EIIL, pretender de fato dar concretude ao nome de seu grupo e criar um Estado nas áreas que ocupou.

Nesse caso, "só boa, sustentada e eficiente governança pode eliminar o grupo --e boa governança é algo que o Iraque pós-Saddam não pôde produzir, com ou sem os Estados Unidos", diz Riedel. Se é assim, "Jihadistão" pode ser uma expressão que veio para ficar.


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