sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ditadura no Egito reprovada nas urnas


Tem legalidade, mas não tem legitimidade
 
O mundo está à deriva. O povo sofre com a recessão, a  paralisia econômica, os cortes dos benefícios sociais, a falta de perspectiva e de governantes que façam as mudanças necessárias. 

O resultado disto tudo é que o povo ora vota na direita fascista, ora vota nos reformistas, ora apoia golpes militares, golpes jurídicos ou mesmo guerras civis. Estamos no mesmo clima entre a primeira e a segunda guerra mundial. 

Só que, se houver uma terceira guerra mundial, os estragos serão muito mais devastadores. Qualquer ditadorzinho europeu ou terceiro-mundista tem acesso a bombas destruidoras.

Clóvis Rossi mostra a fragilidade da ditadura no Egito. Mesmo humilhada, continua com o apoio dos países ocidentais. Vejam o artigo de hoje.


Alto índice de abstenção no pleito é humilhação para o 'deus' Sisi

CLÓVIS ROSSI COLUNISTA DA FOLHA – 30/05/2014

Para quem, como é o caso do general Abdel Fattah al-Sisi, havia exigido 40 milhões de votos (ou cerca de 80% dos 54 milhões de eleitores registrados), a enorme abstenção constitui uma humilhação talvez irreparável.
Contagem extraoficial informa que compareceu às urnas a metade, pouco mais ou pouco menos, do quórum que Sisi definira como necessário para lhe conferir um mandato para reformar profundamente um país sob crise política, social e econômica. 

Interpretação do escritor e analista Mahmoud Salem para o precioso site "Al Monitor": "O deus que a mídia criou sangrou e, quando um deus sangra, ninguém mais crê na sua natureza divina".
Mais: "Seu apoio supostamente espalhado pelo país está agora severamente em dúvida, assim como sua capacidade gerencial e a ilusão de que o país seguirá sua liderança". 


A abstenção, além de humilhar o ditador, é uma clara demonstração de que o Egito está profundamente dividido em ao menos três grupos. 

Dois deles boicotaram o pleito (os seguidores da Irmandade Muçulmana e os laicos da sociedade civil que foram a ponta de lança do movimento que levou à queda de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011).
O terceiro são os que acreditam nos militares e, por extensão, em Sisi. 

Define-os o escritor Magdi Abdelhadi: "Não há dúvida de que Sisi é um nacionalista conservador e autoritário. Mas, nisso, ele está bastante sintonizado com muitos egípcios", declarou.
Do que tampouco há dúvida é de que se trata de uma ditadura, uma espécie de Mubarak 2.0. 

AUTORITARISMO
Escreve, também para "Al Monitor", Zenobia Azeem, que se especializou na observação de eleições:
"Nada no presente ambiente político do Egito favorece eleições abertas e multipartidárias, que permitam a plena e igual participação de todos os egípcios e preservem a liberdade da mídia local e internacional para informar objetivamente". 

Como parece inevitável que Sisi tenha que se reconectar com as instituições islâmicas, o autoritarismo só tende a ser reforçado, como escreve, para "Foreign Affairs", Robert Springborg, professor de assuntos de segurança nacional na Escola Naval de Pós-Graduação (EUA). 

"O Egito de Sisi será aquele em que a religião reforçará o autoritarismo militar e servirá para justificar a repressão dos oponentes, mais especialmente daqueles políticos que, paradoxalmente, são também embebidos pelo islã", diz. 

É uma alusão ao fato de que a Irmandade Muçulmana, outra grande instituição ao lado dos militares, está banida e e seus membros são vítimas de uma feroz repressão.
Daí vem o Mubarak 2.0: o ditador afastado tolerava a Irmandade, embora proscrita.

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